Opinião

Por estes dias #dia 16

Regis Duvignau

O ano passado

O ano passado, neste dia, era sábado.
Chovia e estava frio numa manhã que parecia deslocada no calendário, como se abril fosse janeiro e a primavera inverno. Foi numa altura em que éramos livres e não dávamos valor a isso, podíamos dar abraços à vontade e não fazíamos a menor ideia da falta que nos fariam.

Naquela manhã de inverno, estava combinada uma conferência sobre fake news. O público era difícil, jovens até aos 30 e uns quantos mais velhos que por dever de ofício tinham de estar presentes.

O dever da verdade e a procura dos factos, o peso que está colocado nas costas dos jornalistas, a obrigação de informar com rigor e a tarefa de ter de distinguir as notícias falsas das verdadeiras, separar a origem das fontes, eliminar as imagens manipuladas, evitar fake news e não misturar rumores com factos, redes sociais com órgãos de comunicação social, opinião com notícia.

A ideia do “li no Facebook”, que desresponsabiliza quem escreve e compromete quem lê, sem se dar ao trabalho de verificar a origem do escrito e se o texto foi mediado por um jornalista.

Os olhares da plateia até pareciam atentos, houve perguntas estranhas, outras pertinentes, a audiência, acho eu, ficou esclarecida.

Hoje, mais do que nunca, sabe-me bem exercer a profissão que escolhi.
Estamos na linha da frente.
Na busca dos factos, na procura da verdade, na interpretação e explicação do que nos está a acontecer, no comentário, na denúncia de abusos e de situações menos claras.
“Uma notícia é algo que alguém não quer que se saiba”.

Quando acabou a conversa, cá fora, o inverno tinha dado lugar à primavera, a chuva ao estio e a uns raios de sol tímidos, o fim da manhã parecia perfeito.

Como se entre a manhã e a tarde tudo tivesse mudado, nada estivesse igual e, mais importante, o futuro que ali começou pudesse ser como aquela hora de almoço: com risos, gargalhadas, beijos de despedida e a sensação de bem estar.

Há um ano, neste dia, parecia inverno.
Mas tudo mudou, de repente.
Como as nossas vidas, por estes dias.
Mas não há mal que sempre dure.
E depois da chuva vem sempre o sol, depois da tempestade a bonança e depois do isolamento, a liberdade de um beijo, um abraço e uma manhã de sol.