Opinião

As palavras e o contexto 

A opinião de Joaquim Franco.

Para quem não é grande adepto da exposição ao sol, a alternativa pode ser a tranquilidade da pele debaixo do chapéu ou do toldo. Ali, à sombra, naquele espaço e tempo de praia, cerrando os olhos com o bater das ondas em fundo, despertam os ouvidos para um mundo que se revela sem rostos, nomes ou histórias passadas, apenas pelas palavras soltas, sem limites ou fronteiras, com o valor do imediato, de quem está ou passa perto.

Há dias, numa praia algarvia, agarrava as impressões de alguém irritado com a vida, que, no areal, sem se esforçar para ser discreto, dizia tudo e o que mais há num tsunami de palavras. Pelos assuntos, deduzi que estaria influenciado por boatos e pela maledicência que as redes ampliam. Via um mundo às avessas, deturpado e surreal. Apanhadas com o vento, sem contexto, eram palavras cortantes e destrutivas, daquelas que habitualmente concluímos serem “da boca para fora”. Teria, quem as ouvia sem o devido contexto, qualquer direito de julgar aquela pessoa? As primeiras impressões, mesmo sendo impressivas, não deixam de ser apenas primeiras impressões. Escutadas sem contexto, arriscam maus julgamentos.

Para serem ponte e veículo, as palavras têm de transportar um contexto, que pode ser insondável e imprescritível. Vai da história complexa da pessoa à circunstância em que as palavras são ditas.

Sem um contexto, as palavras não vivem, sobrevivem, e é nesta fase de sobrevivência que se tornam perigosas, agarradas na precipitação de um qualquer intuito, são, inadvertida ou propositadamente, instrumentalizadas, não só por quem as diz e escreve, mas também por quem as ouve e lê. Isto vale na política, na família, na vida associativa, laboral, de lazer, onde quer que se revele a contingência humana da relação.

Sugere-se assim cuidado no uso de palavras que promovem a descontinuidade, como “odeio”, “nunca mais”, “intolerável”, “inadmissível” ou “inaceitável”, para dar apenas exemplos menos agressivos. Mudando radicalmente o sentido de uma palavra, os prefixos são particularmente perigosos.

Sem um contexto, apenas para impor um ponto de vista circunstancial ou exaltar um estado passageiro de alma, as palavras podem ampliar equívocos, finalizar, esmagar, mais do que adjetivar ou dar substância de redenção e compreensão, são um ponto final que nada constrói. Mesmo diante de um sentimento de ofensa, quem diz “intolerável”, banalizando tão grave atitude sem o devido estudo de contexto, não está disponível para mais porque não quer ou nem sequer vislumbra essa possibilidade. A seguir só há vazio.

As palavras têm um peso validado na etimologia, mas também no enquadramento do ontem e do hoje, na intencionalidade. Se são ditas no calor de uma troca ou na reação menos preparada, podem eventualmente merecer o desconto do improviso emotivo. Se são escritas, revelam já uma reflexão prévia, o que torna a sua utilização mais comprometedora.

Nas palavras que dizemos e nos dizem, seja num momento superficial, seja na profundidade da ponderação, há um risco comum: uma vez ditas ou escritas, estão soltas e correm o sério risco da descontextualização e instrumentalização.

Entre o emissor e o recetor pode haver todo um mundo de diferenças, conceitos e preconceitos que erguem barreiras à compreensão genuína.

Como pêndulo relacional, temos dois sentidos no uso eficaz e generoso das palavras que dizemos e que nos dizem. Do emissor espera-se a procura da sintonia adequada para que o recetor entenda o devido contexto. Do recetor espera-se o acolhimento das palavras, procurando ler também o contexto, para que estas encontrem o caminho da adequada interpretação. É assim nas palavras avulsas e nas ideias. Este vaivém carece da honestidade mínima para entender que as palavras incompreensíveis, até as inadequadas e eventualmente ofensivas, podem ter outra alma para além da que se apresenta à primeira vista.

Num processo de argumentação e contra-argumentação – salvaguardando situações da patologia mental e tendo cautela com a demagogia ou a manipulação hábil usada na arte da retórica –, as palavras inadequadas, como as ideias que elas desenham, não surgem no nada, carregam uma experiência, um mundo desconhecido que entra numa escalada parcial de confronto/encontro, e é nesse domínio, sob o orgulho esquivo, que devem cuidadosamente ser interpretadas. “Não é com palha que se apaga um fogo”, como “não é com vinagre que…”, mas o povo também reconhece que “quem não sente…”

Podemos e devemos definir na lei e na ordem as regras da relação civilizada e do bom senso, tê-las como referência e farol, mas só isso chegará para fazer caminhos de encontro?

Quem usa palavras inadequadas, incorre no risco de ser mal interpretado, e, assim, comprometer as ideias. Quem se sente ofendido pode, por soberba ou impaciência, não estar sequer disponível para contextualizar. É um drama, porque até mesmo as palavras inadequadas podem tapar verdades que, na emoção momentânea da repulsa, não são reveladas. Perde quem as proferiu, porque as ideias não passaram, e quem as ouviu, porque a elas se fechou.

Temos o direito de reagir a palavras e ideias que entendemos ofensivas, mas antes de encerrar o reflexo, teremos a serenidade para nos libertarmos do orgulho e do preconceito? Na dinâmica de uma escalada de palavras ou de ideias, conseguiremos ainda fazer pontes?

Como diz o frade franciscano capuchinho, frei Fernando Ventura, “é a falar que a gente se desentende, mas também é a falar que podemos construir” (em Do Eu solitário ao Nós Solidário, 2011). Somos chamados a um processo de desocultação, passando a barreira das eventuais palavras inadequadas e da dessintonia das ideias, que condicionam as primeiras impressões e obstaculizam a compreensão.

“Toda a linguagem é dialógica”, defende Raimon Panikkar, que propõe um “duálogo”, ao invés do diálogo. O diálogo “pode também pedir o confronto”, enquanto o “duálogo não quer dizer dois monólogos, mas sim confiar ao outro (sem condescendência) ideias, pensamentos, intuições, experiências, vidas que realmente se encontram, apesar de precederem de fontes distantes e poderem inclusive chocar” (em O Diálogo Indispensável, 2003).

Talvez neste percurso se vislumbre a virtude do perdão e da misericórdia, dimensões que a fé religiosa valoriza, quando um “bem” maior prevalece sobre as palavras inabitáveis, que morrem por si só, sem provocar grandes danos, quando silenciadas por quem sabiamente não alimenta escaladas verbais.

O domínio da relação requer a disponibilidade para a correção como aprendizagem mútua, nos dois sentidos. E se a capacidade de interpretação do outro, que é sendo no meio e na história que o envolve, ficar bloqueada por palavras precipitadas ou ideias absolutamente cortantes, a deriva verbal é previsível, senão mesmo inevitável.

O risco é maior num frente a frente de convicções. As convicções, embora pareçam inamovíveis, reforçam-se ou modificam-se quando são testadas pelo contraditório. Erguer defesas durante um diálogo é uma reação normal perante a ameaça de argumentos que possam por em causa as convicções, mas, sem serem questionadas e pressionadas, as convicções entrincheiram-se e perdem o vigor da razão.

Num livro-entrevista publicado em 2010, o então arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio, diz que desconfia sempre da sua primeira reacção, com frequência engana-se, agindo mal, e tem de voltar atrás para pedir desculpa, até porque, reconhece: “Não tenho todas as respostas. Nem sequer todas as perguntas. Estou sempre a colocar mais perguntas a mim próprio, surgem sempre perguntas novas”. Bergoglio penitencia-se: “O que mais me dói é não ter sido muitas vezes compreensivo e equânime. Na oração da manhã, no momento dos pedidos, peço para ser compreensivo e equânime e, depois, continuo a pedir mais uma série de coisas que têm a ver com as evasões no meu caminhar. É que eu quero transitar [caminhar] pela misericórdia, pela bondade interpretativa” (em El Jesuita, 2010).

Nestas palavras do atual papa Francisco, a procura pela imparcialidade interpretativa, mais do que uma utopia, é um gesto de bondade que sustenta uma ética para relações interpessoais. Mesmo quando se exige a paciência de Job, calçar os sapatos do outro antes de julgar o que ele diz, tentar perceber o outro no despojamento de preconceitos e do orgulho, pode ser uma atitude vista como ingénua ou incauta, mas ganha um caráter de emergência neste tempo de radicalização verbal, em que as palavras, sem ou fora de contexto, se multiplicam e ampliam para desenhar manipulações e deturpações.

Só entrando prudentemente no território contextual do outro se pode atuar com a ferramenta da interpretação. Sem este exercício prévio, as redes do ódio e da discórdia impõem-se, as possibilidades de encontro esgotam-se, as palavras são derrotadas e, com elas, também as ideias e as pessoas.