Opinião

Quando o povo cala um ditador

A 21 de dezembro de 1989, Ceausescu não sabia, mas quatro dias depois estaria morto. Era bom que Lukashenko percebesse o que lhe está a acontecer.

A 21 de dezembro de 1989, Ceausescu não sabia, mas quatro dias depois estaria morto.

Ele e a mulher, Elena, foram fuzilados contra uma parede no dia de Natal daquele ano em que o mundo estava a mudar a uma velocidade vertiginosa e muitos como Ceausescu (e Elena) foram apanhados pelos ventos de mudança.

Naquele dia, Ceausescu discursava aos trabalhadores. Tinha para oferecer um aumento dos salários e dos subsídios. Mas, tirando uns milhares que estavam na fila da frente, diante da varanda da sede do Partido Comunista romeno, muitos outros milhares (já) não o queriam escutar.

Dieter Endlicher

Estavam fartos de um ditador, e da mulher, que governava o país com mão de ferro e que ainda não tinha percebido que o seu tempo chegara ao fim.

Ceausescu não soube sair.

O último discurso do ditador é uma mistura de incredulidade, desconforto, desnorte, desorientação e falta de noção da realidade da Rómenia pós-Perestroika.

Quando os tumultos começam, na parte traseira da praça, Ceausescu para de falar e tenta perceber o que se passa.

A Televisão oficial, que transmitia o discurso, recebe ordens para tirar do ar a imagem da cara do presidente e mostrar fachadas e o céu daquele inverno em Bucareste.

Durante largos e penosos minutos, não sabemos o que se passa, mas a televisão estatal mantém os microfones ligados.

Da varanda, Ceausescu tenta acalmar a multidão, que o apupa.

Não aceita a recomendação do camarada da segurança que lhe diz que deve entrar no edifício.

Volta a não dar ouvidos ao senhor do chapéu, quando este lhe diz que «eles» estão a entrar no edifício.

«Isto é uma provocação», ouve-se da boca do ditador.

Não se vê nas imagens, mas um grande número de romenos, misturados entre os fiéis ao regime, apupa o ditador e pede-lhe para sair.

A polícia carrega sobre os manifestantes e a praça divide-se entre os que estão contra e a favor de Ceausescu.

Incrédulo, ele tenta acalmar a multidão.

Chega a mandar calar a própria mulher, Elena, que também exige ordem e calma aos manifestantes.

A imagem volta para o rosto de Ceausecu.

Ele não sabia, mas aquele seria o seu último discurso.

Que consegue terminar, apesar de tudo, anunciando para dia 1 de janeiro as decisões tomadas essa manhã no Politburo: aumento do salário mínimo e aumento para os operários.

Mas quando a multidão perde o medo, quando são tantos numa praça que nenhuma polícia, exército ou arma conseguem calar, quando se obriga um ditador a parar um discurso, quando no lugar de palmas há assobios, e em vez de palavras amigas, ordens de demissão, a história está a fazer-se.

Ceausescu não percebeu nada.

E, não muito longe dali, 31 anos depois, há outros líderes que são interrompidos pela multidão e obrigados a calar-se.

Era bom que percebessem que quando uma multidão se torna ensurdecedora e quando um ditador é interrompido no seu discurso por vaias, quando quem sai à rua perdeu o medo e ganhou coragem, não há muito a fazer a não ser sair.

Era bom que Lukashenko percebesse o que lhe está a acontecer.

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