Opinião

TikTok proibido, um mundo com muitas Internetes?

Florence Lo

Caminhamos a passos largos para um mundo dividido com duas ou mais “Internetes”.

Calma, para já o TikTok ainda tem salvação, ia ser proibido nos Estados Unidos mas um negócio gigante deve resolver a questão. Ou talvez não que o problema pode ser mais fundo.

Donald Trump ameaçou e fez a Ordem Executiva que proíbe na prática o uso da aplicação nos Estados Unidos e por cidadãos americanos em qualquer parte do mundo. Os funcionários de muitas agências governamentais já estavam proibidos de o fazer. A Ordem especifica que a TikTok recolhe enormes quantidades de informação quer das redes, quer da navegação e histórico de navegação dos seus utilizadores.

Ao mesmo tempo, noutra Ordem Executiva, e isto é importante, é proibido o uso, aos americanos e pessoas com presença legal no EUA da aplicação WeChat. Curiosamente esta Ordem segue claramente a da TikTok, parece que alguém se lembrou de dizer que se argumentam desta forma com a da TikTok, por maioria de razão, será necessário proibir a WeChat.

A WeChat tem “apenas” 19 milhões de utilizadores nos Estados Unidos, a TikTok tem à volta de 100 milhões, a Ordem Executiva refere mesmo 175 milhões de downloads no país. Mas a WeChat tem um potencial de espionagem e manipulação muito superior. É uma espécie de navegador/motor de busca/rede social/sistema de mensagens privadas/sistema de comércio eletrónico e ainda sistema de pagamentos. Com o WeChat instalado, o governo chinês consegue multar um cidadão que passa a estrada fora da passadeira e aceder directamente à sua conta bancária para levantar a quantia devida ao Estado. A WeChat tem sido um instrumento importante na repressão de opositores e sobretudo da minoria Uigur, Trump afirma que a TikTok também.

A argumentação de Trump refere a espionagem, a censura e manipulação de informação e até as violações de direitos humanos, mas há aqui muito de guerra comercial como no caso da Huawei.

Por um lado um país democrático adoptar o mesmo tipo de medidas de uma ditadura como a chinesa, é no mínimo bizarro. Também é verdade que proibir estas duas aplicações quando a China proibiu programas da Google, o Twitter e até o Facebook, parece ser simples prática corrente em diplomacia de países com posições conflituosas, é a chamada reciprocidade.

A WeChat poderá vir a continuar a ser usada porque um juiz federal, Laurel Beeler, suspendeu temporariamente a ordem do Presidente. Aceitou o pedido de suspensão de um conjunto de cidadãos que argumenta que é a única forma que têm de comunicar com a China, até porque as aplicações americanas estão proibidas, e que é também a única forma de comunicação para os que não falam inglês. Os cidadãos consideram assim que a ordem presidencial viola os seus direitos garantidos pela Primeira Emenda da Constituição Americana e o juiz afirma mesmo que não é banindo o WeChat que a administração vai resolver as questões de segurança que tanto preocupam Trump. A Ordem a ser efectivada impede mesmo o funcionamento da WeChat no país, não haverá mais conversas, nem transações, nem navegação. A verdade é que os dados em grande parte já podem estar do lado de lá, e no mundo tem mil milhões de utilizadores.

Tem sido aceite que depois das tentativas falhadas com a Microsoft a questão da WeChat poderia ser resolvida com um acordo com a Oracle e a Walmart que o governo afirma que permitiria controlar as questões de segurança e ainda criar 20 mil empregos nos EUA. Trump aprovou o acordo que pode envolver 50 mil milhões de dólares. A verdade é que falta perceber se a China não prefere matar a TikTok na América do que dar o controlo.

Se tudo correr mal a proibição do Tik Tok só se torna efectiva depois de 12 de novembro ou seja depois das eleições. Não será fácil ao Trump candidato levar a infelicidade aos 100 mil adolescentes americanos (de todas as idades), que se divertem nesta rede de partilha de pequenos vídeos, que aceita todas as diversões, desde que não toquem assuntos sérios.

Tudo isto aponta cada vez mais para um mundo dividido como nos livros de ficção científica. Se medidas como estas proibições avançam, tal como já avançaram na China, caminhamos a passos largos para um mundo dividido com duas ou mais “Internetes” cada qual com os seus valores e os seus manipuladores.