Opinião

Tempos exigentes para a atividade física e desportiva

A tendência para os hábitos de sedentarismo aumentou. Esta volta a ser uma contrariedade que não permite antecipar, ainda, as respetivas consequências.

Tempos exigentes para a atividade física e desportiva
Kim Kyung Hoon

1. “O que é o homem?”, pergunta Manuel Sérgio, catedrático jubilado da Faculdade de Motricidade Humana, se até a “abstração metafísica não pode viver sem a experiência sensível” (1).

Na antiguidade pré-clássica, o exercício físico e proto-desportivo evoluiu a partir do mero treino para aptidões úteis. Os gregos introduziriam depois na prática competitiva uma alteridade para a construção de valores, cruzando o inexplicável com o destino. Não havia sorte, havia destreza e intervenção divina. Jogar em desporto implicava a conjugação destas duas dimensões. Por mais capacidade técnica que o jogador tivesse, só venceria, só ascenderia à glória dos heróis, se essa fosse também a vontade dos deuses.

“Brilha ao longe a glória de Pélops nas lides olímpicas, onde se disputa a rapidez da corrida, a audácia da força”, canta Píndaro da Iª Ode Olímpica. A divinização dos heróis dos jogos partilhava o paradigma racional da ética e da estética. O herói seria belo e bom – kalos kay aghatos.

A competição desportiva era complemento da cidadania grega, garantia a identidade, o recreio coletivo, desenvolvia a beleza, promovia a saúde, a regra, a ética.

2. Com os Jogos Olímpicos da era moderna, pela mão de Coubertin, foi o modelo helénico que se fixou e prevalece. A motricidade e o jogo competitivo caminham em paralelo, experimentando a superação, desafiando os limites, comunicando à flor da pele com a periferia do corpo.

O homem não é só “um animal coberto de uma camada superficial de funções intelectuais”, diz Manuel Sérgio, “há uma dimensão espiritual” que intervém “quando o seu corpo se revela” e o jogo “é uma atitude de rutura com o que no passado se revela mofento, inadequado, instalado” (2).

O corpo em jogo tem vida para além da vida. Para Gonçalo M. Tavares, “um corpo vivo que joga diz ao mundo – tenho tanta energia (isto é: estou tão vivo) que até a posso desperdiçar” (3).

É este “desperdício” equilibrador que, ciclicamente, ganha uma dimensão coletiva, simbolicamente apoteótica, pelos grandes eventos desportivos (4).

Não seria inédito – não se realizaram durante as guerras mundiais da primeira metade do século XX –, mas sem os Olímpicos de Tóquio em 2021, haverá uma geração a construir memória que perderá a oportunidade única de perceber o jogo e sentir a catarse enquanto chave de compreensão do humano. Mas há uma circunstância difícil de negar. Havendo Jogos em 2021, serão marcados pela desigualdade, porque é desigual no mundo o impacto e as condições de combate à pandemia, bem como os tempos desta e os respetivos efeitos na preparação de um atleta. Em certa medida, os resultados conseguidos passariam para segundo plano. Seriam Jogos para uma afirmação simbólica da humanidade na saída de uma fase difícil.

3. São complexos os desafios da atividade desportiva e física – competitiva, de formação ou de lazer – durante a pandemia e desenham-se saídas que suscitam debate. Entre quem entende que a vertente competitiva deve ser retomada a qualquer custo e, pelo contrário, quem prefira uma cautela inflexível em toda a linha, há uma diversidade de eventuais caminhos para preservar o bem maior: a prática.

Uma sociedade madura não vive, nem sobrevive sequer, sem a dimensão da motricidade humana e da atividade desportiva. Na sequência do que diz Carlos Neto (5), catedrático da Faculdade de Motricidade Humana, temos, por isso, “de preparar as novas gerações para um tempo que vai ser de grande mudança” na escola e na vida social. “Vivemos uma transição perigosa: ou tornamos as crianças ainda mais totós ou, de facto, temos consciência de que temos de ter um comportamento não tão superprotetor e não tão cheio de medo”.

As regras da Direção Geral de Saúde para as escolas, sobretudo para a disciplina de Educação Física, como as restrições aplicadas aos clubes para a prática desportiva, geram alguma perplexidade.

Por estes dias, os professores ensaiam novos modelos relacionais e de confiança, contrariando toda uma aprendizagem sobre a melhor pedagogia para a Educação Física. Adaptam-se para que, pragmaticamente, a disciplina se mantenha e os estudantes dela usufruam. Dir-se-á que a situação aconselha que não se vá mais longe, mas arriscamos ter uma escola como “há 200 anos”, repetindo Neto, com implicações sociais, psíquicas e de saúde.

4. Estamos à beira de destruir uma fatia importante do tecido associativo que, histórica e eficazmente, representa a própria cidadania organizada para garantir o direito à atividade desportiva.

Os clubes fazem contas à sobrevivência e ficam a saber se, e como, podem retomar. Muitos não podem contar com apoios institucionais e garantias informais que tinham antes, seja em espaços cedidos para a prática desportiva ou em ajudas para suportar despesas. Só poderá valer a segurança e a paixão dos praticantes, técnicos e treinadores.

A atividade desportiva, sobretudo a competitiva e formativa, sofreu um grande golpe, mas há histórias de resiliência e persistência. Neste esforço, há que aplaudir e incentivar os(as) praticantes e dirigentes, de pequenos ou grandes clubes - uns com mais rede de suporte que outros -, empenhados(as) naquele princípio que faz campeões e campeãs: desistir sem atingir o limite, sem testar a superação, nunca!

Exige-se criatividade, ousadia e muita paciência para manter e, se possível, melhorar a prática em tempo de pandemia.

Qualquer que seja a tendência da retoma, espera-se também, de dirigentes, associados, praticantes, técnicos, empresas e comunidades locais, federações, autarquias e governo central, a sensibilidade para compreender que a atividade física e desportiva é parte integrante do bem comum, sem a qual a sociedade não se diz nem se faz. Não há sociedade saudável, nem cidadania madura, excluindo as bases de proximidade para a atividade física e desportiva.

5. A emergência implica um compromisso solidário e forte de todas as entidades e instituições com responsabilidade política e poder de decisão, para que ninguém fique para trás...

Como enfatiza Tiago Correia, professor e investigador em Saúde Pública, este é um tempo “de união, de convocação de esforços, de solidariedade, de compreensão e de partilha. Se nos esquecermos disto, que é tão elementar, as políticas do dia-a-dia não trarão os resultados pretendidos” (6).

Viver é praticar. O essencial é preservar a cultura da atividade física e da prática desportiva, admitindo que esta possa, num interregno que se deseja breve, ter de adaptar-se nalgumas das suas dimensões, como as rotinas, horários, número de praticantes, condições de competição e presença/ausência de público.

Este é outro testemunho de resiliência e superação que os agentes desportivos, todos, são chamados a dar numa lição de ética e cidadania.

1 Sérgio, Manuel. (2018). Para uma Epistemologia da Motricidade Humana. Lisboa: Nova Veja.
2 Idem
3 Tavares, Gonçalo M. (2016). Jogo e Ficção – Transcendência ou Luxo, in Desporto, Ética e Transcendência. Porto: Afrontamento.
4 Franco, Joaquim. (2013). A Celebração Planetária. In Olímpico, os Jogos num percurso de valores e significados, coord. Paulo Mendes Pinto. Porto: Afrontamento.
5 Entrevista à Rádio Renascença, 13 setembro 2020
6 Publicação de Tiago Correia na rede social Facebook, 21 setembro 2020.