Opinião

Segurem-me, se não eu obrigo-os!

Armando Franca

A minha mãe não sabe o que é uma app nem tem um telefone onde caiba tal coisa. Está assustada com a COVID, praticamente não sai de casa e hoje vai perguntar-me ao fim do dia: "Oh filho, o que é aquilo que «eles» dizem que é obrigatório?".

A minha mãe não sabe o que é uma app nem tem um telefone onde caiba tal coisa. Também não consegue «instalar» coisas, manipular um telefone tátil; e não percebe muito bem as diferenças entre o IOS ou o androide.

Está assustada com a COVID, praticamente não sai de casa desde março, e hoje vai perguntar-me ao fim do dia:

-«Oh filho, o que é aquilo que «eles» dizem que é obrigatório?»

«Eles» são sempre eles, os outros, os que nos governam e, neste caso, o próprio primeiro-ministro.

A ideia de tentar tornar obrigatório aquilo que deve ser voluntário é, só por si, uma ideia estúpida, além de conter inconstitucionalidades grosseiras e, sobretudo, como acima acho ter demonstrado, nunca chegaria a todos, pelas razões que se compreendem.

Sendo que, ainda por cima, não chegaria aos que fazem parte do maior grupo de risco: os idosos.

Concordo que temos de controlar a expansão da infeção, reduzir o número de contágios, evitar internamentos e mortos, fazer tudo para não voltarmos a fechar o país, com os prejuízos para a economia e para a sanidade mental de um povo.

Mas, e há sempre um mas, a app não resolveria nunca a questão. Porque, mesmo que fosse obrigatória a instalação, não é obrigatória a introdução dos códigos que dizem aos outros que temos uma infeção.

E, portanto, depois de nos obrigar a instalar, o Governo pretenderia, de que forma, obrigar-nos a digitar os tais códigos?

Com um polícia digital?

Com um big brother que nos manda alertas a dizer que ainda não instalámos os códigos?

Com a ajuda do Rui Pinto que agora que é o hacker bom vai entrar nos nossos telefones e perceber que não digitámos o código?

Com ameaça de reembolso tardio do IRS cobrado a mais e à cabeça, se não formos uns cidadãos exemplares ao nível das tecnologias?

A minha mãe bem pode estar sossegada.

Nenhum polícia lhe vai vasculhar o telefone ou bater-lhe à porta para perguntar pela app do stayaway COVID:

Até tinha piada assistir ao diálogo:

-A senhora não instalou a app do stay away COVID.

-Não fiz o quê?

-Uma aplicação que tem de instalar no seu telefone e que avisa se quem está próximo de si está infetado.

-E como é que o telefone sabe isso?

-Tem de introduzir um código que lhe é fornecido pelos serviços de saúde se tiver um teste positivo.

-Olhe sr. guarda, eu não sei nada disso, e o meu telefone está sempre sem bateria e eu esqueço-me de o carregar, ou então, às vezes, aparecem aqui umas coisas que eu não sei tirar; eu nem sei bem mandar mensagens, as minhas netas já me ensinaram mas não é muito fácil, porque no fim tenho de fazer OK mas aparece-me é uma tecla verde e depois não dá nada; alem disso, o meu filho não me falou de nada sobre isso da tal coisa no telefone e eu nestas coisas pergunto-lhe sempre o que é que devo fazer...

E agora, com licença que isto está muito mau e há muitos casos e eu não saio para não ter de falar com ninguém.

Boa tarde.

E mais logo, quando me perguntar:

-«Oh filho, o que é aquilo que «eles» dizem que é obrigatório?»

Eu vou tentar explicar que não é nada, que não se preocupe, que não tem de fazer nada, que é só uma ideia estúpida que daqui a dois dias já toda a gente se vai esquecer que existiu, e quando ela insistir:

-«Mas não é obrigatório?»

Eu vou mentir e dizer que é só para quem tem menos de 80 anos...