Opinião

Manual de instruções para pessoas que vão a tribunal e não estão habituadas a ir

MÁRIO CRUZ

E, por isso, não sabem como se devem dirigir a suas excelências os senhores procuradores e juízes.

No tribunal não há livro de instruções.

Para o comum dos mortais, ir a tribunal já é um pesadelo.

A solenidade do lugar.

A intimação, ou convocatória, escrita naquela linguagem cifrada que é preciso um linguista dos bons para perceber o que está escrito na carta que veio «do tribunal».

As coisas pretas que eles vestem, parece que estão todos de luto.

Aquilo de não podermos estar na mesma sala de espera com as testemunhas «do nosso lado».

Aquela coisa de fazermos de conta que não conhecemos o advogado do «nosso lado» de lado nenhum e que ele nunca falou connosco antes daquele dia, e dentro da sala de audiências.

Depois, lá temos de entrar, fazer um juramento, dizer que vamos dizer «a verdade e nada mais que a verdade», só isso já assusta.

Até que nos mandam sentar e depois então começam as perguntas, do «nosso» advogado, do advogado «deles», do Juiz e do procurador.

Mesmo quem está de boa fé, vai apenas dizer a verdade e não percebe muito dos tribunais, não é uma sensação agradável.

Talvez por isso se chame «julgamento».

Por isso, sugiro ao Ministério da Justiça que elabore um manual de instruções, preferencialmente escrito em português que qualquer cidadão de Portugal possa compreender, e que explique, entre outras coisas:

  • como nos devemos comportar;
  • que só nos podemos sentar quando nos mandarem;
  • que devemos tratar os advogados por «senhor doutor»;
  • que devemos tratar os procuradores por «senhor procurador»;
  • que devemos tratar o juiz por Senhor Doutor Juiz ou Meritíssimo Juiz;
  • que não podemos usar a palavra «você» porque, dependendo «do tom», pode ser considerado ofensivo para os senhores procuradores ou para o senhor doutor juiz;
  • que nem pensar em deixar fugir a boca para um tratamento mais coloquial, para que o julgamento decorra com a «solenidade» que se exige nestas coisas dos tribunais, porque a solenidade leva à «serenidade»;
  • que só podemos ir embora quando nos mandarem;
  • que não podemos partilhar as salas de espera com outras testemunhas;
  • que teremos de ser educadíssimos, mesmo que os senhores doutores não o sejam connosco, o que acontece frequentemente;
  • que temos de engolir em seco quando nos tratam como se fossemos todos ignorantes, estúpidos ou, no limite, estivéssemos a mentir.

Dito isto, resta esclarecer que «você» é uma corrupção de «vocemecê», que por sua vez é uma corrupção de Vossa Mercê.

Parece-me ainda melhor que Senhor Procurador ou Senhor Doutor Juiz.

Fica ao vosso juízo.

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