Opinião

O “compromisso de honra”

É muito sensível a decisão política de impor restrições na circulação de pessoas durante um fim-de-semana que se reveste de memórias.

O “compromisso de honra”
Rafael Marchante

Na tradição cristã, a que mais influencia a nossa rotina cultural e ferial, não tem a gravidade da Páscoa confinada, mas limitar a circulação de pessoas no dia destinado à memória dos que estiveram e ainda são, tem um inegável impacto comunitário.

O ciclo anual das festas de (re)encontro teceu um calendário religioso abrangente e sintonizado. Famílias e amigos juntam-se para celebrar a vida, quando, no solstício de inverno, preenchem o imaginário do natal em noites e oferendas que animam as gerações futuras oxigenando a solidariedade, quando, uma semana depois, brindam ao tempo que passa na contagem efémera do calendário, quando, após semanas de escuridão, reaparecem na desocultação carnavalesca mascarando a realidade difícil que os católicos simbolicamente enfrentam na consequente quaresma, quando, no corolário deste caminho, se assinala uma pascal passagem da morte à vida e os dias voltam a vencer as noites, quando, no mês dos calores e dos afetos, exaltam o eterno feminino na assunção das festas marianas, quando, antes de se fechar o ciclo para um novo nascimento, agarram as vidas que a morte não separa relembrando os que já passaram.

Neste percurso antropológico, a memória dos "finados" é feita sob o pretexto religioso de "todos os santos". Na verdade, pela inevitabilidade da finitude, todos e todas dirão a "morte" no pretérito perfeito. Pela fé ou pela memória, a vida no gerúndio há-de ser depois verbo conjugado no futuro do presente.

É muito sensível a decisão política de impor restrições na circulação de pessoas durante um fim-de-semana que se reveste de memórias. Não sendo uma deriva de laicismo mas uma opção consciente de cidadania, não está isenta da perplexidade que impera pela incoerência de outras decisões, liberdades de circulação e de concentração.

O andar da pandemia aconselha as restrições, juntando a resignação à perplexidade. Sobram assim os dias soltos, com oportunidades vastas para dar nova data à memória dos “finados”, equilíbrio na tensa relação entre os dois mundos inseparáveis na existência humana: o que é e o que se espera venha a ser.

A resolução que proíbe a circulação entre concelhos neste fim-de-semana admite exceções. Em certas deslocações “para efeitos de atividades profissionais ou equiparadas”, que podem até não se circunscrever ao concelho vizinho, pede-se aos cidadãos que declarem “sob compromisso de honra” que têm essa necessidade.

Valoriza-se a “honra” como medida para avaliar comportamentos, mas, na listagem governativa dos deveres e critérios para a limitação de movimentos, entende-se o “compromisso de honra” como critério suplementar, quando, na verdade, está acima. Ao invocá-lo, o estado reconhece o sentimento de probidade e retidão.

O que se pede não é suficiente para fazer heróis homéricos privilegiados, mas o cantor da epopeia helénica guia-nos por valores que podiam nortear este tempo. A “honra” – timé – faz-se pilar com a virtude – areté – que leva à glória – kléos. Neste ensaio milenar da cidadania, a ética é inseparável da credibilidade, revelando-se na coerência entre as palavras e os atos.

O juízo final realiza-se todos os dias, dizia Camus, quase como provocação às vidas adiadas pela finitude. Da prancha que separa o visível do invisível, o mergulho na palavra devia dizer-nos como verdadeiramente somos. Neste tempo que apela à corresponsabilidade e à interdependência, bastaria este critério, o do "compromisso de honra" na utópica expectativa de que não é necessário argumentar com a “honra” para dar crédito à palavra dada.