Opinião

A maioria quis mesmo o “regresso da América”

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Germano Almeida

Germano Almeida

Comentador SIC

Donald Trump abriu a caixa de Pandora e soltou os piores demónios que já existiam em parte da sociedade americana. O desafio de Joe Biden será voltar a puxar pelo melhor da América.

Joe Biden já ganhou. Terá, de resto, a maior votação de sempre de um candidato presidencial na América e vencerá o Colégio Eleitoral por uma diferença muito idêntica à de Trump sobre Hillary em 2016. A insistência de Donald Trump em litigar mostra apenas que o ainda Presidente dos EUA estará já a pensar numa “presidência alternativa” durante o mandato Biden.

A maioria da América preferiu o “regresso da América”. O tal regresso à decência de uns EUA que não admitam um mentiroso compulsivo na Casa Branca e assumam valores essenciais que os reposicionam como “exemplo” para o resto do mundo.

Nos últimos quatro anos, foi quase tudo sobre Donald Trump. Joe Biden vai apostar numa "normalização" do exercício da presidência, recolocando o foco no essencial e tirando o excesso no ego presidencial.

Trump ainda teve na fase inicial nomes como os generais Jim Mattis, HR McMaster ou Rex Tillerson. Mas acabou praticamente sozinho.

A chave para a próxima administração é voltar a ter capacidade técnica acima de qualquer suspeita. A melhor forma de fazermos uma avaliação final sobre o caráter do ainda Presidente dos EUA é ler o que o general Jim Mattis ou John Bolton escreveram sobre ele.

Joe Biden é o exemplo do “homem e as suas circunstâncias”. O Presidente-eleito vai aproveitar a grande competência técnica e experiência política de membros das duas administrações Obama, das quais foi número dois. Tentará incluir gente da ala esquerda. Mas também republicanos e/ou independentes da área moderada. Tal como foi a sua plataforma eleitoral, o seu governo será uma “grande tenda”.

Ao Dia 1 da futura Administração (20 janeiro 2021), Joe Biden vai assinar três ordens executivas muito significativas: regresso da América ao Acordo de Paris, revogação da ordem Trump de reverter o DACA (direito de cidadania aos filhos de imigrantes ilegais que tenham nascido em solo americano) e regresso dos EUA à OMS. E eliminará em definitivo a “muslim ban”, símbolo máximo do “nativismo” trumpista.

Com Joe Biden na Casa Branca, o conhecimento e a ciência voltam a ser pontos fortes e não obstáculos. Não é coisa pouca.

A recuperação dos três estados “Rust Belt” foram a chave para a vitória Biden. Caso se confirmem Geórgia e Arizona, o “novo Sul” dará um triunfo bem mais amplo no Colégio Eleitoral do que muitos previam.

Donald Trump é o primeiro Presidente neste século a falhar a reeleição. E o primeiro em quase três décadas, desde que George Bush pai perdeu para Bill Clinton em 1992.

Trump esvaziou o Partido Republicano numa espécie de monopólio de agenda Trumpista. Foi quase sempre tudo sobre ele. A capitulação dos senadores republicanos em momentos chave pode agora ser um problema. Que caminho a seguir? Quantos senadores republicanos estarão agora arrependidos de terem capitulado de forma tão evidente em momentos como Charlotesville ou o “impeachment”?

O falhanço da reeleição não acaba com o Trumpismo. Os 71 milhões de votos são impressionantes e têm um valor real na sociedade, na política e no barulhento ecossistema mediático norte-americano.

A vergonhosa declaração feita ontem pelo ainda Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, algures entre a negação e ameaça (“vai haver uma transição tranquila para uma segunda Administração Trump”), faz temer o pior sobre o que pode vir a ocorrer nas próximas semanas.

Joe Biden vai ocupando, passo a passo, o espaço político presidencial – e promete um mandato sem guerra política e foco em “resolver problemas”. Desejemos-lhe sorte.

Os EUA são uma extraordinária democracia que em 2016, de forma livre e soberana, decidiu eleger um Presidente que ataca a democracia. Decisões têm consequências. Estamos no momento de transição em que esse corpo estranho terá que sair. Será um processo doloroso e demorado.

Mas já está a acontecer.