Opinião

Fazer a América decente outra vez

Germano Almeida

Germano Almeida

Comentador SIC

Será um político clássico capaz de sarar as feridas de quatro anos de uma presidência bizarra e disruptiva?

A sociedade americana sairá dramaticamente fraturada dos anos Trump. Em 2016, o eleitorado tomou uma decisão legítima mas de consequências muito pouco avisadas. O modo como Donald Trump se recusa a aceitar uma derrota clara e evidente comprova a gravidade dos danos que está a provocar no sistema.

É no que dá eleger para a Presidência alguém que não respeita os outros poderes e ataca as regras básica da boa convivência democrática. Sucede que quase 73,5 milhões de americanos, depois de quatro anos de uma presidência inaceitável, optaram livremente por dar o seu voto por mais quatro do mesmo.

Como lidar com isto?

A primeira grande consequência é a tibieza do comportamento dos republicanos na fase que estamos a viver. Mais de duas semanas depois do ato eleitoral, são muitos poucos os congressistas do Partido Republicano a condenar de forma clara o comportamento irresponsável de Donald Trump de atirar para a lama o processo eleitoral e rejeitar uma derrota indesmentível.

Trump falhou a reeleição e isso tem sido pouco frequente nas últimas décadas: é o primeiro Presidente neste século a não obter segundo mandato e o primeiro em três décadas, desde que Bush pai perdeu para Bill Clinton, em 1992.

Mas o aumento em dez milhões de votos nos números absolutos de 2016 para 2020 dão a Trump o volume suficiente para prosseguir uma existência política algures entre o espaço mediático e a ameaça do regresso.

Estrela televisiva dos “reality shows” até atingir a Casa Branca, pode agora usar esse espaço nos próximos quatro anos para montar uma espécie de “Presidência alternativa” em formato de sucesso de audiências: pode ser numa futura Trump TV, pode ser num programa a criar na NewsMax, ainda mais à direita que a FOX News (agora em colisão com Trump depois da firmeza com que, na noite eleitoral, manteve o triunfo de Biden no Arizona).

O pouco que pudesse restar de positivo da Administração Trump está a ir por água abaixo pelo cortejo de indignidades a que temos assistido nos últimos dias: demissões indiscriminadas em postos chave, para lá se colocarem pessoas sem grande qualificação mas com o dado comum de serem leais ao ainda Presidente; sinais de que Trump está a preparar o terreno para aproveitar os dias que lhe restam até à tomada de posse de Biden para se perdoar a si próprio e aos amigos dos processos judiciais que já correm; pressões inacreditáveis sobre os legisladores estaduais e os responsáveis eleitorais dos estados contestados por Trump (Michigan, Wisconsin, Arizona e Pensilvânia, agora que a Geórgia já confirmou na recontagem o claro triunfo de Biden).

Como manter, depois disto tudo, algum tipo de balanço positivo destes quatro anos? Não há “boa economia” que compense o rebentar dos princípios democráticos por parte de quem tinha a obrigação de os promover.

A boa notícia é que a democracia americana voltou a dar um fantástico exemplo de resiliência.

Nas próximas semanas é de esperar que volte a dar: os estados, independentemente de serem governados por democratas ou republicanos, de terem legislaturas estaduais democratas ou republicanas, irão certamente, através dos seus Grandes Eleitores, respeitar e validar a vontade do povo expressa pelo voto: Joe Biden ganhará 306 Grandes Eleitores (ou algo muito próximo disso); Donald Trump ganhará 232 Grandes Eleitores (ou algo muito próximo disso). Ponto final, parágrafo.

Os esforços finais de Donald Trump e Rudy Giuliani de perverter este processo com acusações algures entre o fantasioso e o conspirativo só agravam o quadro de uma presidência que ofende a melhor tradição americana. E coloca num profundo constrangimento quem ainda não se demarcou deste comportamento inaceitável.

Donald Trump começou a sua Presidência com duas mentiras descaradas: a insistir que teve mais gente na tomada de posse do que Obama na primeira inauguração presidencial (teve muito menos) e a insistir que também ganhou o voto popular porque “houve quatro milhões de votos fraudulentos na Califórnia” (uma fantasia). Terminará este mandato com outra mentira descarada: a garantir que “só não” ganhou a Biden porque “houve fraude eleitoral”. Irresponsável até ao fim.

Se Trump aumentou em dez milhões a sua votação de 2016, Biden conseguiu subir em quase 14 milhões a votação de Hillary há quatro anos. Joe Biden é o terceiro Presidente neste século a conseguir a maioria absoluta do voto popular: só George W. Bush em 2004 (50,7%) e Barack Obama por duas vezes (52,9% em 2008 e 51,1% em 2012) tinham conseguido passar dos 50% no século XXI. Vale a pena olhar para a eleição 2012, reeleição Obama contra Romney. Os resultados do voto popular são muito idênticos (percentagem Biden quase igual à de Obama; percentagem Romney exatamente igual à de Trump). Já no Colégio Eleitoral, Obama em 2012 ganhou a Florida e o Ohio (ganhos em 2020 por Trump), mas Biden conquistou Arizona e Geórgia (ganhos por Romney em 2012).

Terá que governar ao centro para obter o máximo denominador comum de um país profundamente dividido. Muitos dos 73 milhões que votaram Trump acreditam mesmo que foram roubados. Vai demorar tempo a pôr água nesta fervura, muito por culpa do comportamento incendiário do ainda Presidente derrotado. Os quase 80 milhões de votos obtidos podem ser colchão para que o futuro Presidente Biden encare tudo isto com legitimidade e otimismo – durante algum tempo, pelo menos.

Eleito por uma grande coligação que juntou esquerdistas, progressistas, moderados, independentes e até republicanos fartos de Trump (não muitos, mas alguns), Joe Biden vai ter agora que mostrar que é capaz de fazer a quadratura do círculo.

Não é impossível. Sem maioria democrata no Senado, mas muito perto de a obter desde que consiga juntar para o seu lado dois ou três senadores republicano, a chave pode estar na persuasão para o campo do “bom senso” nomes como Mitt Romney (Utah), Susan Collins (Maine), Lisa Murkowski (Alasca) e, pontualmente, mais dois ou três.

Mesmo que o grosso dos republicanos se mantenha vergado ao estilo Trump – enquanto Donald estava na Presidência, até se percebia o racional, mas seguir alguém assim depois de uma derrota nas urnas fica ainda mais difícil de aceitar – pode haver, ao longo da Presidência Biden, uma espécie de cisão não oficial do campo republicano, entre os “herdeiros do trumpismo” e quem prefira uma via de “centro-direita” mais clássica – ou o que possa restar dela.

É aqui que entram as características de Joe Biden como um trunfo para o que aí vem. Das duas, uma: ou estaremos condenados a assistir à permanente paralisação do sistema, entre uma Presidência democrata só com uma câmara do Congresso a apoiá-lo (até 2022, pelo menos) e um Senado republicano a travar tudo -- enquanto espera pelo regresso vingativo de Trump em 2024 -- ou poderemos acreditar em “consensos mínimos” em temas fundamenais, baseados na tal maioria entre a Presidência Biden e os resistentes moderados do Senado republicano.

Só o tempo nos dirá se é possível acreditar na segunda hipótese.

Mas será prudente que Biden não tente ser um Obama 2.0. Durante oito anos, Barack Obama esteve dois mandatos presidenciais a tentar “chegar ao outro lado”, nunca recebendo da parte republicana a devida reciprocidade. Perdeu demasiado tempo com isso.

Presidente de um só mandato (a menos que aos 82 anos se sinta em condições de tentar mais quatro anos, mas não é provável), Joe Bidem sabe que terá um tempo limitado.

Deve optar por uma abordagem super pragmática, modesta até nos termos e nos objetivos, com o foco na recuperação da dignidade do cargo presidencial, numa transição para a normalidade, para uma América que volta a ser confiável, que volta a ser clara no respeito dos seus aliados permanentes e na distância prudente de líderes autoritários.

Se fizer do próximo mandato presidencial a plataforma para uma transição a um “back to basics” do melhor que a América nos tem mostrado, e conseguir anular o pior que os quatro anos de Trump projetaram, Joe Biden será recordado como a improvável solução para “o regresso da América”. Kamala Harris, provável solução de continuidade democrata a partir de 2024, será elemento chave (sobretudo na segunda metade do mandato) para que esta via seja bem-sucedida. Mas ainda não é certo que tudo corra assim.

A pandemia continua a agravar, a recuperação económica tarda em disparar – e o risco de tudo isto redundar num mandato presidencial tremendamente difícil, com espaço para florescer um ambiente de “condenação mediática em tempo real” feita pelo povo Trump, é real.

Barack Obama augurou, há quatro anos, que a experiência Trump seria “apenas uma vírgula, um intervalo”. Acertou em cheio na parte eleitoral: Trump falhou mesmo a reeleição. Falta saber se não terá acertado só pela metade.

Joe Biden, que esta sexta, 20 de novembro, completa 78 anos, bem precisa de usar a sua larga experiência de quase meio século na alta políca americana. Tem uma tarefa ciclópica pela frente.

Mas talvez possa estar em condições únicas de conseguir o essencial que se pede para os próximos quatro anos: fazer a América decente outra vez.

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