Opinião

A idade da inocência 

Germano Almeida

Germano Almeida

Comentador SIC

A América está de volta – e isso é mesmo necessário.

“Os lugares mais quentes do Inferno serão reservados aos que escolhem a neutralidade em tempo de crise” (Dante Alighieri)

Os últimos anos na política americana têm muito pouco a ver com inocência.

Mas é um fortíssimo sinal de esperança que depois de uma presidência que denotou a bizarria de atacar a democracia, apesar de ter sido eleita democraticamente, uma clara maioria do eleitorado tenha optado pelo regresso à uma certa noção de decência.

Entre o retorno a uma “selva” em que tudo valeria para manter o poder e o regresso a uma “idade da inocência” em que ainda é possível acreditar em valores fundamentais, os EUA escolheram, neste longo e complexo processo eleitoral, a segunda via.

Pelo menos em relação ao básico e essencial – os eleitores rejeitaram quem atacava a democracia (mais sete milhões de votos em Biden do que em Trump); os tribunais ignoraram pressões do poder presidencial (mesmo os juízes nomeados por quem fez as pressões) e asseguraram a “rule of law”.

A derrota de Trump nestas eleições não é o fim da história da ascensão dos populismos a que temos vindo a assistir nos últimos anos.

A recusa em aceitar os resultados, de resto, pode estar a abrir um precedente muito perigoso com possíveis repetições no futuro. Abre caminho a que outros líderes populistas e demagógicos, sempre que percam nas urnas, digam agora que "não valeu" porque "foram roubados" por "fraude massiva".

Será decisivo que o sistema continue a reagir de forma clara, firme e sem contemplações à escalada de ataque à democracia e ao processo eleitoral. E que o comportamento antidemocrático do ainda Presidente dos EUA e de parte dos seus apoiantes seja socialmente censurado em vez de ser passivamente minimizado.

Joe Biden, 78 anos feitos há duas semanas, não oferece sonho e projeção de futuro (ao contrário do que conseguia incutir Barack Obama há 12 anos). Mas a sua chegada à Casa Branca garante o retomar de uma América confiável e referencial.

Não é coisa pouca.

O futuro Presidente ainda nem sequer tomou posse e já tem uma taxa de aprovação (55%) superior à melhor aprovação que alguma vez Trump teve (49%).

Sim, Donald Trump teve sempre um apoio impressionante de muitos milhões de americanos. Mas não, nunca conseguiu ser maioritário. Uma maioria clara da sociedade americana rejeita o seu estilo antidemocrático – e isso ficou perfeitamente claro nestas eleições.

Biden terá agora que gerir uma vitória que decorreu, acima de tudo, do sentimento urgente de afastar Trump – muito mais do que uma noção coesa sobre como deverá ser a sua presidência.

Tem feito bem em optar por uma administração centrista, institucional, moderada e baseada na forte experiência político e no grande conhecimento técnico de quem passou pelas duas administrações Obama.

Sem a mobilização da esquerda, Joe Biden não teria passado os 80 milhões de votos e provavelmente não teria batido Donald Trump. Será agora fundamental que o futuro Presidente dos EUA não perca o apoio dessa ala. Bernie Sanders, em interessante artigo no Guardian, avisa: “Os sinais que der nos primeiros 100 dias serão cruciais”.

A América está de volta – e isso é mesmo necessário.

Enquanto Donald Trump se remete a um silêncio perturbador sobre o agravar da pandemia nos EUA (a última semana foi a pior de sempre em território americano, com os dados a apontarem para mais de 3000 mortos/dia até ao fevereiro), os três Presidentes anteriores a Trump (Bill Clinton, Barack Obama e George W. Bush) preparam-se para participar ativamente na estratégia de combate à pandemia da futura Administração Biden.

Não há tempo a perder: "A realidade é que dezembro, janeiro e fevereiro serão meses terríveis. Tempos muito difíceis. Entraremos no momento mais complicado da história da Saúde Pública dos EUA", avisa Robert Redfield, diretor do CDC - US Centers for Disease Control. O dr. Redfield admite que os EUA se aproximem do meio milhão de mortos por COVID até ao final de fevereiro, podendo atingir os 45 mil até ao fim de janeiro.

Trump vai focando a sua atenção numa negação absurda da derrota eleitoral: insulta o governador da Geórgia por confirmar a vitória de Biden no estado.

O facto de Donald Trump insistir até ao fim que estas eleições foram fraudulentas cria junto de milhões de apoiantes seus uma ideia de que foram roubados. Isso não vai impedir a tomada de posse de Joe Biden -- mas é de uma gravidade imensa, pela ferida que cria na sociedade. Que isso parta do ainda Presidente dos EUA é duplamente grave e revela uma profunda irresponsabilidade.

Estas coisas têm consequências.

Alex Azar, o ainda Secretário da Saúde da Administração Trump, insistia ontem na FOX News em referir-se a Joe Biden como "ex vice-presidente". Chris Wallace, pivô da FOX News (e moderador do primeiro debate presidencial Trump/Biden, de 29 de setembro) interrompe-o e aclara: "He's the president-elect, sir. He's the president-elect."

Jocelyn Benson, secretária de Estado do Michigan, denunciou situação assustadora, ocorrida há dias, com dezenas de manifestantes armados à porta da sua casa, com o filho de quatro anos a ouvir as ameaças gritadas pelos manifestantes.

Trump lança a ideia de que vai começar a campanha para as presidenciais de 2024 no próprio dia da tomada de posse de Biden e passa o dia a tuitar falando em fraude e na "impossibilidade estatística" de Biden ter ganho a eleição 2020.

O mau perder associado à tentativa de subverter a vontade do povo por vias antidemocráticas está a fazer escola. A grande participação em "early vote" de minorias como os negros e os asiáticos foi fundamental para a vitória surpresa de Joe Biden sobre Donald Trump na Geórgia. O que é que os condados republicanos no estado (quatro dos dez mais populosos) estão a fazer para reduzir o efeito do voto antecipado (que claramente aumenta as hipóteses dos democratas) para a segunda volta do Senado na Geórgia, a 5 de janeiro? Estão a diminuir o acesso ao voto antecipado, reduzindo os locais de voto. Lá volta a tática trumpiana da "supressão".

Em última tentativa desesperada -- e já depois dos 50 estados mais a capital federal Washington DC terem certificado os seus resultados finais no “safe harbour deadline” de 8 de dezembro -- Donald Trump apresenta no Supremo Tribunal dos EUA a “Texas Lawsuit”, expediente iniciado pelo procurador-geral daquele estado republicano, Ken Paxton, que alega que os resultados eleitorais em quatro estados competitivos ganhos por Biden (Pensilvânia, Geórgia, Wisconsin e Michigan) devem ser anulados por terem adaptado os seus procedimentos nesta eleição à realidade pandémica sem autorização legislativa dos respetivos poderes estaduais.

Como consequência, alega a “Texas Lawsuit”, quem deverá indicar os votos eleitorais nestes quatro estados devem ser as legislaturas estaduais (todas republicanas) e não os Grandes Eleitores (que estão obrigados a seguir os resultados eleitorais).

A alegação pareceria absurda (todos os estados já fecharam e validaram os seus resultados), mas 17 estados republicanos acompanham esta última tentativa trumpiana de reversão: Missouri, Alabama, Arkansas, Florida, Indiana, Kansas, Louisiana, Mississippi, Montana, Nebraska, Dacota do Norte, Oklahoma, Carolina do Sul, Dakota do Sul, Tennessee, Utah e Virgínia Ocidental.

A elencagem dos estados que apoiam Trump até esta tentativa final ajuda-nos a compreender as “duas Américas” que estão em confronto por estes dias: a maioria racional e democrática que percebe que não há caminho real para a reversão (Biden ganhou claramente a votação); uma minoria sonora, barulhenta e numericamente significativa, que insiste em apoiar Donald Trump até à última, apesar do que isso implica de desrespeito pela vontade popular e pelo processo democrático.

A alegação apresentada tem um pormenor que revela o desespero: perora que seria estatisticamente impossível Biden ter ganho a eleição porque Trump ganhou na Florida e no Ohio e “nenhum candidato conseguiu vencer a eleição perdendo esses dois estados”.

Ora, basta recuarmos a 1960 e ver que, nesse ano, Richard Nixon ganhou na Florida e no Ohio, mas John F. Kennedy foi eleito Presidente, obtendo 303 Grandes Eleitores, para os 219 de Nixon (entre os quais os, na altura, 25 no Ohio e 10 na Florida).

Convém pôr as coisas no seu devido contexto: o representante legal do Presidente Trump nesta “Texas Lawsuit” é John Eastman, um advogado associado a teorias da conspiração de índole racista, incluindo uma tese absurda de que Kamala Harris não poderá tomar posse como vice-presidente dos EUA porque “os seus pais eram imigrantes”.

Donald Trump, filho de uma imigrante escocesa e neto de um imigrante alemão, considerou o autor dessa tese um “brilhante advogado” e agora escolheu-o para representá-lo.

Tudo isto nos soa demasiado a um regresso aos tempos de presidência Obama, quando Trump dava gás ao “birtherism”. Tal como Obama obviamente pôde ter sido Presidente dos EUA porque nasceu em Honolulu, Havai, Kamala Harris também poderá tomar posse como vice-presidente dos EUA, porque nasceu em Oakland, Califórnia. Ponto.

A cultura conspirativa e “fake news” foi a julgamento eleitoral a 3 de novembro: perdeu. E vai ao julgamento final no Supremo, nos próximos dias.

Mas o sistema resiste à prova magna de ser desafiado pelo próprio Presidente.

A primeira decisão do Supremo Tribunal dos EUA, tomada anteontem, sobre um resultado eleitoral de 3 de novembro não deixa dúvidas.

Pedido de congressistas estaduais republicanos de invalidar a vitória de Joe Biden na Pensilvânia foi indeferido. Donald Trump chegou a acreditar que o facto de ter nomeado três juízes conservadores para o Supremo lhe iria garantir favorecimento eleitoral indevido. Enganou-se redondamente.

O sistema é forte, resiliente e funciona. E a América é um grande país.

May God Bless the United States of America.

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