Opinião

Ao mesmo tempo

Parece mentira, parece o argumento de um filme, parece uma história de ficção, de uma novela, daquelas que os guionistas inventam para criar tensão, suspense, uma história inverosímil, algo que nunca poderia acontecer na realidade, apenas na imaginação. Mas não.

De segunda a sexta, o homem é guarda prisional.

O Estado - nós todos, por delegação - confia-lhe uma arma, um crachá, deposita nele autoridade e confiança para tratar de outros homens que, por razões várias, estão isolados da sociedade na sequência de crimes que praticaram.

A justiça funciona. Ao homem, compete zelar pelo bem-estar dos condenados, representar-nos a todos naquilo a que orgulhosamente gostamos de chamar uma democracia ocidental, um estado de direito, uma república.

Tudo certo.

Ao fim de semana, o homem, o mesmo homem, aquele de segunda a sexta, aquele que tem uma arma, um distintivo, autoridade, poder de representação, dever de zelo, toca à campainha do «estabelecimento prisional» e é ele o recluso.

Cumpre uma pena porque cometeu um crime, e a mesma justiça que condenou os homens que ele tem de vigiar de segunda a sexta, entende que ele, também ele, tem de ser vigiado ao sábado e ao domingo, por outros iguais a ele, de segunda a sexta.

Sim, eu sei, parece mentira, parece o argumento de um filme, parece uma história de ficção, de uma novela, daquelas que os guionistas inventam para criar tensão, suspense, uma história inverosímil, algo que nunca poderia acontecer na realidade, apenas na imaginação.

Mas não.

A justiça, esse pilar fundamental do tal Estado de Direito, da República, da democracia ocidental avançada, não escrutinada por nenhum outro poder, porque existe a famosa - e boa - separação de poderes, apenas «vigiada» pelos seus próprios pares, essa justiça entende que um guarda-prisional também pode ser, e ao mesmo tempo, um recluso; que um crime que implica pena de prisão permite, ao mesmo tempo, que o senhor continue a ter autoridade delegada e que represente esse mesmo Estado. Que entre uma condenação e uma profissão, se pode exercer ambas, ao mesmo tempo.

Ao mesmo tempo.

(O crime que se seguiu parece não ter nada a ver com isto. Mas tem. Um condenado de fim de semana e polícia à semana deve achar-se impune, acima da lei, respaldado na sua profissão e no seu trabalho, e entender a condenação de fim de semana como um castigo por não ter comido a sopa toda. E esta ideia de impunidade, leva a que se ache no direito de (voltar) a espancar a mulher e atropelar quem lhe faz frente. Neste banco dos réus, estará este senhor polícia à semana e condenado ao fim de semana. Mas deveria estar também a justiça, toda; o sistema; a lei, quem a faz e quem a aplica. E, já agora, outro conceito que às vezes desaparece - o bom senso).

►A Página do Pedro Cruz