Opinião

O poder da palavra

Jim Bourg

Germano Almeida

Germano Almeida

Comentador SIC

Durante demasiado tempo, demasiada gente quis acreditar que “se calhar Trump não é assim tão mau como dizem”. Mas é: é mesmo muito mau.

"Quando os que comandam perdem a vergonha, os que obedecem perdem o respeito" (Georg Lichtenberg, filósofo alemão do século XVIII)

A palavra do Presidente dos EUA tem força. Não é inócua. Gera consequências. E elas estão à vista. Demasiada gente desvalorizou e minimizou.

Durante demasiado tempo, demasiada gente quis acreditar que “se calhar Trump não é assim tão mau como dizem”. Mas é: é mesmo muito mau.

Stephanie Keith

Mike Theiler

Stephanie Keith

Jim Urquhart

Quem tenha estado minimamente atento ao que foram os quatro anos desta presidência inaceitável não pode ter ficado surpreendido com a invasão do Capitólio.

Convém lembrar que Donald Trump andou quatro anos a legitimar grupos extremistas como os Proud Boys. Chegou a fazê-lo num debate presidencial. As consequências estão à vista.

Infelizmente não é total surpresa para quem acompanhou os anos Trump e não caiu na aceitação do inaceitável. Eleger um Presidente incendiário que ataca a democracia dá nisto.

O problema já existia antes de Trump, a desconfiança nos políticos de Washington e nas instituições, mas a ameaça agravou-se e amplificou-se com o negacionismo da derrota evidente.

Donald Trump foi inaceitável até ao fim.

Que tanta gente, mesmo assim, o queira ter seguido é um fenómeno que merece análise aprofundada e terá diferentes explicações. Mas os últimos dias tiraram as dúvidas que pudessem restar a quem pretenda ter uma análise lúcida: Donald Trump é mesmo uma desgraça.

Só que agora é tarde -- a ferida está aberta: 45% dos eleitores de Trump apoiam a invasão do Capitólio. Vou escrever outra vez: 45% dos eleitores de Trump apoiam a invasão do Capitólio. Ora, vamos lá fazer contas: 45% de 74 milhões são 33,3 milhões de americanos. É esta a "maldição americana", o legado miserável que Donald Trump deixa.

Trump terá sentenciado a sentença da sua própria morte política com a invasão do Capitólio. Mas o caminho para esse suicídio político foi iniciado nas oito semanas anteriores, com a impensável tese da “fraude” para justificar a derrota.

A "maldição das duas Américas" está cada vez mais funda -- e ficará como herança pesada para o futuro Presidente Joe Biden.

O DILEMA DE PENCE E A AMBIGUIDADE DO “IMPEACHMENT”

Mike Pence teve o dilema da sua vida.

Depois de quatro anos a ser demasiado leal para com um chefe inaceitável, tomou a atitude correta no momento certo e rejeitou qualquer tentativa de se sobrepor à autoridade dos congressistas para certificar a eleição de Biden.

Mas a hesitação (provável recusa) de evocar a 25.ª Emenda, processo em relação ao qual teria papel decisivo, mostra como o peso de Trumpismo continua grande -- mesmo em pleno estertor da mais perigosa presidência americana de que há memória.

Fonte próxima do vice-presidente adiantou há horas que Mike Pence não afasta acionar essa possibilidade remover Trump da Casa Branca: “Vai depender do comportamento do Presidente até lá”.

Nancy Pelosi já se mexe para avançar com um processo de “impeachment” via congresso (“cada dia mais com Trump na Casa Branca é um dia de perigo para os americanos”).

Os senadores republicanos Pat Toomey (Pensilvânia) e Lisa Murkowski (Alasca) defendem abertamente o “impeachment”— mas é preciso 17 republicanos na câmara alta a votar pela saída de Trump e isso ainda não ocorre.

“Quero-o fora da Casa Branca. E já!" A senadora Lisa Murkowski, do Alasca, é o primeiro membro republicano da câmara alta a defender o "impeachment" de Trump em tempo recorde, para que possa sair antes de 20 de janeiro. Muito bem, senadora Murkowski.

POOL New

O grande mistério é porque é que não fez o mesmo em janeiro, no impeachment sobre o escândalo ucraniano, quando havia tamanhas provas de que Trump tinha abusado do poder e tinha colocado interesses egoístas acima do interesse nacional. Dessa vez, e depois da condenação na Câmara dos Representantes, só Mitt Romney votou pelo "impeachment" entre os então 53 senadores republicanos. Como será agora?

Convém recordar que nenhum Presidente americano saiu da Casa Branca por “impeachment”.

Clinton e Trump foram condenados na Câmara dos Representantes mas não no Senado; Nixon ia ser removido pelo Senado, mas demitiu-se na véspera disso acontecer. A Câmara dos Representantes avança com a condenação até ao final desta semana, depois o caso segue para o Senado. Se o que seguir para a câmara alta for apenas uma resolução sobre Trump não poder voltar a exercer cargos eleitos federais, isso exige apenas maioria simples do Senado e não os dois terços. Ora, esse cenário já é mais provável de acontecer.

Joshua Roberts

A questão do “timing” é importante (será possível fazer tudo isto em menos de dez dias?) mas pode não ser tudo.

Há peritos constitucionais americanos que acreditam na possibilidade de Trump ser alvo de “impeachment” mesmo depois de 20 de janeiro. Uma espécie de cartão vermelho depois do jogo terminar.

Trump deixa de ser Presidente ao meio-dia de 20 de janeiro em Washington. Michael Gerhardt, professor de Direito Constitucional da Universidade da Carolina do Norte: “Uma vez que o “impeachment” começa na Câmara dos Representantes, o caso prossegue para julgamento no Senado. Não vejo qualquer barreira constitucional para o Senado agir mais rápido ou mais lento”.

Há ainda uma visão mais extensiva, defendida por Brian Kalt, professor de Direito na Universidade Estadual do Michigan, que considera que todo o processo pode começar depois de dia 20: “O argumento constitucional para um impeachment tardio tem mais forças que fraquezas que o argumento contra esta possibilidade”.

Outra coisa é analisar a parte política: se a remoção de Trump teria efeitos profiláticos, impedindo-o de tentar voltar à arena eleitoral, a verdade é que pode criar um desvio de atenções complicado para o arranque da Administração Biden – sendo que Joe pretende baixar a temperatura e não elevá-la.

Tempos muito conturbados em Washington DC.

TRUMP FORA DA INAUGURAÇÃO E TAMBÉM DAS REDES SOCIAIS

O Twitter expulsou Trump de forma definitiva por “incitamento à violência”. Donald fica sem o seu perfil oficial e terá reagido, nas horas seguintes, de modo “balístico” (a expressão é do site “Politico”, citando fontes próximas). Quis saber como será possível criar uma plataforma alternativa – será mesmo esse o caminho mais provável, depois deste bloqueio das redes de maior alcance (Facebook, Instagram, Twitter).

Joshua Roberts

E o “bloqueio tecnológico” ao ainda Presidente dos EUA foi mais longe: a Google Play suspendeu a “app” Parler até que a mesma desenvolva uma política de moderação de comentários. “Estamos ao corrente da repetida publicação de comentários e posts no Parler que incitam à violência nos Estados Unidos”, disse a Google num “statement” a justificar a opção.

Além de banir Donald Trump, o Twitter bloqueou os perfis de Sidney Powell (advogada de acusação das “fraudes” eleitorais sempre desmentidas) e também do general Mike Flynn, perdoado por Trump pela condenação por ter mentido ao FBI. Tanto Sidney Powell como Mike Flynn propagaram nas suas contas teses conspirativas e fantasiosas dos QAnnon.

Depois de quatro anos a ganhar volume, alcance e muitos milhões de dólares a dar abrigo ao disparate, as grandes plataformas de Social Media perceberam agora que era preciso travar o delírio. Antes tarde que nunca, ok. Mas podiam ter percebido isso antes.

E ser forte com quem está a dias de sair do poder, depois de ser fraco enquanto os mesmos estavam em alta é coisa muito pouco dignificante – pode, até, abrir caminho a um perverso “backlash” de quem está a ser bloqueado, alegando uma “nova censura” e assumindo-se como “defensores da Liberdade” durante os anos que aí vêm de total controlo dos democratas dos órgãos de poder na América.

Trump garantiu, entretanto, que não estará na tomada de posse de Biden – será a primeira vez em século e meio que um Presidente faltará à passagem de testemunho ao seu sucessor. "Será melhor assim", admite Joe Biden.

E será que pode voltar a acontecer algo parecido na tomada de posse? Jonathan Greenblatt, CEO da Anti-Defamation League, à CNN: "Estamos a ver... tagarelice destes grupos de supremacia branca, destes grupos de extrema-direita. Sentem-se reforçados e legitimados neste momento". Para este analista de discurso de ódio, "é altamente provável que este tipo de violência fique pior antes de ficar melhor".

Em toda a história americana, só John Adams (1801), John Quincy Adams (1829) e Andrew Johnson (1869) faltaram às inaugurações dos sucessores. Pela primeira vez em século e meio, isso volta a acontecer. Como titulava o meu livro de novembro de 2018, isto não é bem um Presidente dos EUA.

Já Mike Pence, vice-presidente dos EUA, vai estar presente na tomada de posse de Joe Biden e Kamala Harris, dia 20. Ao contrário de Donald Trump.

O FIM ANTECIPADO E COM ESTRONDO DA PRESIDÊNCIA TRUMP E A VERGONHA DOS REPUBLICANOS

A invasão do Capitólio, promovida por Trump, foi um dos momentos mais negros da democracia americana.

Acelerou o fim de Donald Trump (sondagem Politico/Morning Consult aponta para que 63% dos americanos atribuam a Trump as culpas do que aconteceu, isso vai muito para lá da mítica fronteira 50/50 com que supostamente o país estará dividido entre democratas e republicanos), mas não livra muitos senadores e congressistas republicanos da vergonha de terem apoiado e avalizado até à última uma tentativa de golpe de Estado que iria perverter a vontade manifestada pelo povo americano.

O General Jim Mattis, primeiro Secretário da Defesa de Trump, notou: “O Presidente Trump fomentou e promoveu este assalto ao Capitólio”.

Entretanto, somam-se as demissões na Administração Trump pós invasão do Capitólio: Elaine Chao, secretária dos Transportes e mulher de Mitch McConnell; Betsy DeVos, secretária da Educação; Stephanie Grisham, ex-diretora de comunicação da Casa Branca, chefe de gabinete de Melania Trump; Mick Mulvaney, chefe de gabinete. Ok, saíram agora, mas… uma vez mais: “Too little, too late”.

Os próximos dias serão decisivos para que a democracia americana volte a provar que é forte e resiliente. Será fundamental apurar como foi possível que o Capitólio fosse invadido, como foi possível ter que evacuar congressistas e assessores. Será fundamental chamar à Justiça quem perpetrou tão vis atos.

E será também crucial apurar que influência tiveram as palavras de Trump nas horas anteriores à invasão, quando apelou: “Têm que mostrar a vossa força”.

William Barr, procurador-geral da Administração Trump até há poucos dias, que foi cúmplice fundamental de Trump em momentos como o "impeachment" ou a "Russia Collusion": "A conduta de Trump foi uma traição ao seu cargo e aos seus apoiantes".

A demarcação dos republicanos que, durante quatro anos, permitiram quase tudo ao seu Presidente inaceitável peca por tardia -- e provoca vergonha alheia pela falta de espinha dorsal durante tanto tempo.

Não pode valer tudo para tentar salvar a pele e defender o lugar.

As consequências estão à vista.

A OPINIÃO DE GERMANO ALMEIDA