Opinião

Um Presidente sem tempo a perder

Tom Brenner

Germano Almeida

Germano Almeida

Comentador SIC

Donald Trump foi o pior Presidente dos EUA em 90 anos. Joe Biden tem o maior desafio do último século americano - mas está, nestes primeiros dias, a mostrar que pode estar à altura do que a maioria clara lhe pede.

“O poder presidencial é o poder da persuasão” (Richard Neustadt, historiador de presidências norte-americanas)

"Voltar a liderar pelo poder do exemplo e não pelo exemplo do poder” (Joe Biden, tomada de posse)

"A primeira prioridade do novo Presidente é o controlo da pandemia. A segunda também é o controlo da pandemia. E a terceira também" (Fonte da equipa Biden à CBS News)

Joe Biden anunciou a 20 de janeiro um “novo dia para a América”. E, por acaso, até esteve um dia de sol em Washington DC. Desde a primeira tomada de posse de Bill Clinton, há três décadas, que isso não acontecia numa inauguração presidencial.

Donald Trump foi o pior Presidente dos EUA em 90 anos. Joe Biden tem o maior desafio do último século americano — mas está, nestes primeiros dias, a mostrar que pode estar à altura do que a maioria clara lhe pede.

O mais velho Presidente da História americana sabe que não tem tempo a perder: o sentimento maioritário de “seguir em frente” depois dos últimos dias de ataque Trump à democracia, culminado pela invasão de 6 de janeiro no Capitólio, até pode ajudar.

O Dia 1 na Casa Branca correu muito bem, mas foi só o primeiro de um mandato cheio de dias difíceis pela frente. Como o novo Presidente exortou na posse: "A Democracia é frágil mas prevaleceu na América". Foi um discurso que juntou o assumir da ferida americana com um toque importante de esperança.

Saul Loeb

As decisões do Presidente Biden ao Dia 1 na Casa Branca são garantia do regresso de uma América em que podemos confiar.

Em poucas horas na Casa Branca, Joe Biden tomou mais decisões acertadas do que Trump em quatro anos: recolocou os EUA no Acordo de Paris, travou a construção do muro, cancelou a Travel Ban, reintroduziu regulações ambientais que Trump tinha abolido e tornou a máscara obrigatória em espaços federais.

Na cerimónia de posse, fez um discurso de reconciliação muito bem construído, entre o sofrimento comum a todos os americanos causado pela pandemia e a necessidade de união, apesar das feridas de uma presidência divisiva.

A mudança drástica na Casa Branca identifica-se também nas escolhas de Joe Biden para a decoração da Sala Oval. O quadro do Presidente Andrew Jackson, que Trump tinha colocado, foi devolvido ao Arquivo Nacional e voltou a colocar o busto de Martin Luther King, juntamente com um de Robert F. Kennedy. Entretanto, Jen Psaki, nova porta-voz da Casa Branca, promete “partilhar informação mesmo quando isso for duro de ouvir”. “A transparência está de volta ao “briefing room”, assegura.

Joe Biden fez questão de, logo no arranque, tomar várias decisões que recolocam os Estados Unidos na rota certa, depois de quatro anos de uma presidência falhada e inaceitável.

Doug Mills / POOL

Aproveitou os primeiros dias na Sala Oval para assinar várias ordens executivas que, além de terem forte simbolismo na reversão das decisões de Trump, se focam muito no plano a 100 dias para travar a pandemia e acelerar a vacinação. Invocou o Defense Production Act, relativo ao período da Guerra da Coreia, para acelerar a capacidade de implementar a vacinação. Com isso, Biden terá o poder de criar uma comunidade federal para a vacinação, que inclua estádios, ginásios e centros de conferência. Milhares de funcionários federais serão destacados para esta missão, além dos militares.

Decretou o uso obrigatório de máscara, nos próximos 100 dias, a qualquer pessoa que utilize um espaço federal, sendo que, na mesma ordem, o Presidente pede a governadores de estado, presidentes de câmara e empresários para adotarem a mesma medida nos seus respetivos locais de trabalho e atuação. Uma mudança de 180 graus em relação à presidência miserável de Trump.

Para quê tanta pressa se o mandato é de quatro anos?

O novo Presidente sabe que os primeiros meses na Casa Branca serão decisivos para conseguir um forte apoio na sociedade americana em torno de uma gestão mais eficaz e competente da pandemia: vacinar 100 milhões de americanos em 100 dias (num aumento de 25% na capacidade de vacinação comparando com os últimos dias Trump); ver aprovado no Congresso mega plano de 1,9 triliões.

A carta que o Presidente Biden enviou nas primeiras horas na Casa Branca ao Secretário Geral António Guterres a recolocar os EUA na OMS, com um pedido de desculpas pela missiva de julho de 2020 com a Administração Trump a indicar o contrário, sinalizou que está reposta a dignidade em Washington DC.

Joe Biden assinou 17 ordens executivas nos primeiros dois dias da sua administração, numa estratégia de entrar com forte simbolismo num caminho de desmantelamento da “herança Trump”.

Depois do regresso ao Acordo de Paris, revogação de Travel Ban e travagem do muro, também um pedido a Fannie Mae e Freddie Mac (que dispõem grande percentagem das hipotecas e empréstimos) de prolongar moratórias até 31 de março, enquanto o Plano de Apoio não começar a ser implementado.

Al Drago / POOL

APOIO AOS MAIS POBRES E DESPROTEGIDOS PELA PANDEMIA

Biden avançou com duas ordens executivas destinadas a combater a fome e a proteger trabalhadores de classe média-baixa. O novo Presidente dos EUA incluiu nessa ordem executiva medidas de apoio a famílias cujos empregos foram destruídos pela pandemia.

Na ordem executiva, Joe Biden indica às agências governamentais que estendam e expandam o alcance dos programas de apoio já existentes, incluindo proteções ao emprego e apoio alimentar básico. “Serão ações concretas e localizadas e providenciarão apoio imediato a famílias americanas em sofrimento”, aponta Brian Deese, diretor do Conselho Económico Nacional da Administração Biden.

“Sarar a América” será também conseguir responder de forma eficaz a este problema.

Carlos Barria

O TRUMPISMO TENTA RESISITR

Enquanto isso, prossegue uma “reação” da herança trumpista, que no Senado parece estar a ser liderada por Ted Cruz. Cruz, líder da contestação à confirmação de Biden a 6 de janeiro, a par de Josh Hawley, fez um tweet a criticar Biden pelo regresso ao Acordo de Paris, recuperando uma frase de Trump quando anunciou a saída: “O Presidente Biden parece estar mais interessado nos interesses dos cidadãos de Paris do que dos cidadãos de Pittsburgh”. Ocasio-Cortez, congressista democrata de Nova Iorque e líder da ala esquerdista, atirou: “Nice tweet, senador Cruz. Rápida questão: também acredita que a Convenção de Genebra era sobre as posições dos cidadãos de Genebra?”

Allison Shelley

O DILEMA EXISTENCIAL DO PARTIDO REPUBLICANO

Há uma diferença essencial entre a reação populista vinda pela extrema-esquerda dos democratas e da extrema-direita nos republicanos: o Partido Republicano não conseguiu resistir à ameaça populista e nomeou em 2016 alguém sem qualquer experiência política e emergiu do universo dos “reality show” televisivos: Donald Trump; o Partido Democrata viu, nos últimos anos, a sua ala esquerda ganhar força e aumentar exigências, mas mesmo depois da derrota de Hillary em 2016 para Trump conseguiu resistir à tentação de encontrar caminho populista e nomeou um ex-Vice Presidente e senador experiente (Joe Biden) e uma senadora qualificada e que faz a ponte entre moderados e ala esquerda (Kamala Harris).

A história de dois séculos e meio de sistema bipartidário na América mostra mais estabilidade do que mudança. A herança do Trumpismo foi fortemente abalada com o que aconteceu a 6 de janeiro no Capitólio – mas continua forte e ameaça cisão não oficial no Partido Republicano. A luta entre “conservadores institucionalistas” e “identitários populistas e ultranacionalistas” está para ficar na direita americana.

Mike Pence escapou por um minuto e pouco à fúria dos invasores do Capitólio. Duas semanas depois, demarcou-se de Trump e fez questão de estar presente na posse de Biden. A invasão do Capitólio fez com que uma boa parte do Partido Republicano finalmente quebrasse perante o “síndrome do Estocolmo” de seguir Trump mesmo nos momentos mais inaceitáveis.

Donald Trump estragou o seu futuro político na invasão do Capitólio a 6 de janeiro. Veremos se agora, depois de sair da Casa Branca, estará também sob a mira da Justiça pelas responsabilidades que possa ter tido nesse momento inominável da história da democracia americana.

Carlos Barria

IMPEACHMENT ADIADO MAS AINDA JUSTIFICADO

A condenação já feita na Câmara dos Representantes, com 222 votos democratas e 10 republicanos, teve seguimento com o envio para o Senado dos artigos de impeachment esta segunda.

Mas o acordo entre as lideranças democrata e republicana levou a que o início do julgamento fosse adiado por duas semanas, para 8 de fevereiro.

O Presidente Biden ficará estrategicamente afastado desse processo – e serão Nancy Pelosi e Chuck Schumer, os líderes democratas no Congresso, quem vão assumir as despesas políticas de um processo que Schumer considerou ser “uma obrigação moral”. Não há garantias que se chegue aos dois terços, que exige 17 votos republicanos para lá dos 50 democratas, mas há a perspetiva de vários senadores republicanos poderem, desta vez.

Será este o caminho adequado para “sarar a América”? “O que Trump fez antes da invasão foi o ato mais desprezível alguma vez feito por um Presidente em funções. Deixar passar isto em claro não seria sarar a América”, justifica o senador Schumer.

BONS SINAIS DE POSSÍVEL “MAIORIA DE BOM SENSO”

Bons sinais nos primeiros dias do Senado em versão 50-50 e Presidência Biden; num raro momento de quase consenso bipartidário em Washington DC, a câmara alta do Congresso confirmou por esmagadores 93-2 a nomeação do General Lloyd Austin para Secretário da Defesa.

Depois de aprovada a exceção legal para que Austin pudesse chefiar o Pentágono apesar de só estar na reserva como general há quatro anos (e não pelo menos há sete), a confirmação da escolha foi clara. Vinte e sete senadores tinham votado contra a exceção, apenas dois votaram contra a confirmação da escolha (os republicanos Josh Hawley, do Missouri, e Mike Lee, do Utah). O General Lloyd Austin deverá ser confirmado ainda hoje como Secretário da Defesa da Administração Biden (e será o primeiro negro da história americana a chefiar o Pentágono).

A ideia de “consenso bipartidário” parecia ter deixado de ser possível em Washington DC.

É cedo para se decretar que está de volta nos anos Biden. Mas o caminho está aberto.

A OPINIÃO DE GERMANO ALMEIDA