Opinião

A Gillette devia dar um passo atrás? Não pense que este texto é só para homens de barba rija

Claro que mudar os hábitos de fazer a barba, ou remover os pelos das pernas ou das axilas, não resolve os problemas da humanidade. Mas é o exemplo de que me lembro todos os dias ao fazer a barba desde que mudei para sistemas parecidos com os originais do Sr. Gillette.

Moderno? Antigo? Um passo necessário.  

Moderno? Antigo? Um passo necessário.  

Lourenço Medeiros

Sim, a Gillette e todos nós. Vou aproveitar este exemplo porque descobri nos últimos anos o prazer de fazer a barba. Isso, depois de um meio século a bufar de cada vez que tinha que tratar de manter um aspeto limpinho na face, lá dei a volta à questão. Em vez de me irritar transformei o ritual num prazer.

Comecei por escolher os melhores cremes para proteger a pele. É fácil e não é caro. Entre os sabonetes próprios que se usam com pincel há centenas de alternativas mais agradáveis, mais saudáveis para a pele e para a natureza do que os sprays que nos impingem como solução fácil e supostamente barata nos supermercados. São piores em termos de composição e aquelas latinhas gastam-se num instante a comparar com os sabonetes.

Se há invenção que conquistou rapidamente o planeta foram as máquinas do Sr. King C. Gillette, as originais em que só trocamos a lâmina de metal com dois gumes e que duram uma vida em alguns casos. Enfim, o sistema em si já existia, o que fez foi torná-lo num dos melhores negócios do mundo.

Curiosamente, o conceito que terá levado o Sr. Gillette a invadir as nossas casas de banho foi precisamente a ideia de que o desperdício dá lucro. Foi quando entendeu que o negócio de vender lâminas descartáveis podia suplantar as complicadas e perigosas navalhas de barba, mais seguras nas mãos de profissionais do que nas nossas quando estamos ao espelho. As navalhas eram caras, tinham que ser constantemente afiadas, até os barbeiros, por várias razões, só usam agora navalhas de lâminas descartáveis.

Vender lâminas que duram de uma a duas semanas, fáceis de usar e baratas, tornou-se um negócio global só comparável com o da Coca Cola. Nem estávamos tão mal assim. As lâminas metálicas, se devidamente recicladas, podem vir a dar outras tantas. Mas essa não era uma preocupação. Antes pelo contrário, o negócio está em desperdiçar, em fazer-nos deitar fora e comprar novo.

Para manter o interesse do público há que inovar, e vieram as máquinas completamente descartáveis, aparentemente baratas e que saem caríssimas, quer aos nossos bolsos, quer mais uma vez ao ambiente. Vieram outras com pilhas nos cabos para vibrar (a Duracell é uma de muitas empresas que nasceram da fortuna do Sr. Gillette). Vieram também as lâminas duplas, triplas e por enquanto pararam nas cinco lâminas. Depois de ter usado isso tudo, uso agora só uma lâmina e nunca tive a barba tão bem feita.

Veio até uma máquina de lâminas descartáveis que aquece, outras com produtos que arrefecem… variações do mesmo para manter o interesse. Não levem a mal que use o exemplo de uma só marca. É um bom exemplo, pela inovação, pela diversidade e pela minha experiência, mesmo tendo desistido, pela qualidade. A maior parte das outras marcas, com mais ou menos empenho e engenho, parecem seguir as gerações seguintes ao Sr. Gillette.

Milhões de descartáveis por dia...

Milhões de descartáveis por dia...

Brett Jordan on Unsplash

De tal forma que, percebendo talvez que os tempos mudaram, a marca lançou uma nova linha a que deu o nome do fundador, quase por extenso. A linha King C. Gillette. São máquinas iguais a um dos primeiros modelos, toda uma nova linha de produtos para a cara, em embalagens que, tanto quanto vi, evitam o plástico.

Será um passo atrás? Não! É o movimento mais inteligente. Chegámos a um tempo em que o desperdício não pode ser de todo um modelo de negócio. Sei que mexe com a indústria, mas teremos que sobreviver e encontrar alternativas sob risco de darmos cabo do planeta.

Escolhi o exemplo da barba porque me parece um dos mais fáceis, se optarmos por regressar a melhores métodos e melhores produtos, mais saudáveis e menos poluentes ganhamos todos. E, neste caso, não vejo onde esteja o sacrifício ou sequer o desconforto. Não consigo imaginar as toneladas, sei lá, milhares e milhares de toneladas em lâminas com invólucros de plástico em latas de espuma de consumo rápido que caem todos os dias nas nossas lixeiras e nos nossos oceanos.

Claro que mudar os hábitos de fazer a barba, ou remover os pelos das pernas ou das axilas, não resolve os problemas da humanidade. Mas é o exemplo de que me lembro todos os dias ao fazer a barba desde que mudei para sistemas parecidos com os originais do Sr. Gillette. Curiosamente, mesmo estes, que inventou com base na ideia de desperdício, são muito melhores do que os atuais. Não estou a usar a marca, mas até podia estar com a nova linha King C. Gillette.

Parte da graça é encontrar os produtos e as lâminas que me dão mais prazer, sendo, ao mesmo tempo, mais eficientes e menos poluentes. Agora fico mesmo contente ao chegar a esse pequeno ritual que contribuiu para a minha boa disposição diária. Para quem não gosta, até as boas máquinas eléctricas, recarregáveis claro, podem durar anos a fio com muito menos desperdício.

Marcas como a Supply usam apenas um gume e um formato de assinatura para o fornecimento de lâminas.

Marcas como a Supply usam apenas um gume e um formato de assinatura para o fornecimento de lâminas.

Supply on Unsplash

Claro que não é por não usarmos as pequenas descartáveis que deixamos de poluir com as nossas roupas de plástico, os nossos sacos de plástico, os nossos gadgets cheios de materiais perigosos, os nossos combustíveis, para dar alguns exemplos de consumo privado. Mas estes passos, que não são para trás, mas movimentos inteligentes e responsáveis, são essenciais. Para podermos avançar têm que ser dados todos ao mesmo tempo, ou deixa de valer a pena tentar e desistimos.

Notas de preços

Para quem duvide do que digo quanto a preços.

Um conjunto inicial King C. Gillette com máquina de duplo gume e 5 lâminas custa quase 20 euros. Máquinas para lâminas de duplo gume, já vi à venda desde 7 a 300 Euros, há sempre gente que quer comprar o mais caro. Lâminas de duplo gume japonesas Feather, das mais cobiçadas entre os apreciadores, custam cerca de 50 cêntimos cada, em pacotes claro, mas há muito mais barato. As lâminas do mesmo tipo de recarga da linha King C. Gillette custam também na casa dos 5 cêntimos cada.

Agora as contas que nunca fazemos. É difícil dizer o preço de uma recarga de lâminas porque os preços variam muito e não é só com o tipo de lâmina. Comprar um pacote (de plástico) com 4 ou 11 recargas de lâminas múltiplas no supermercado implica preços muito diferentes. Mas numa pesquisa rápida vi recargas a custar de 2 a 5 euros, euros não cêntimos, poluem mais, e são absurdamente mais caras.

Já andei mais longe. Mas para chegar aqui é preciso muito cuidado.

Já andei mais longe. Mas para chegar aqui é preciso muito cuidado.

Josh Sorenson on Unsplash