É uma questão de berço. Para alguém que continua a ter pelo futebol a mesma paixão que alimentava em criança, nascer a 10 está longe de ser apenas uma folha no calendário. Não se resume a um fruto do acaso, tem o sabor de uma interminável delícia do destino.
Francesco Farioli (FF), também por isso, foi incapaz de conter o sorriso quando mostrou que já era capaz de dar os primeiros passos no “dolce” sarcasmo que tanto caracteriza em Portugal a corrida pela melhor conferência de Imprensa antes dos grandes jogos.
Na antecâmara da deslocação a Alvalade, o italiano a confessou a dificuldade em diagnosticar o Sporting de alto a baixo porque, assim o sublinhou, tinha o adversário beneficiado de superioridade numérica (11 contra 10) nas partidas diante de Arouca e Nacional. Pelas entrelinhas, as entrelinhas que prendem as atenções dos treinadores dignos da braçadeira, o sucessor de Martín Anselmi quis levar o clássico para outros terrenos e marcou logo a agenda, denunciando ao mesmo tempo uma rápida adaptação ao livro de estilo do Dragão.
Quase do nada, o técnico do FC Porto levantou a polémica sobre as arbitragens e não satisfeito com isso atreveu-se a corroborar aquilo que minutos antes tinha sido dito por Rui Borges a propósito da expectável recuperação de Samu. De novo com alguma malícia à mistura, confirmou a disponibilidade do internacional espanhol para sábado à noite… sem nunca garantir a titularidade do homem da camisola 9.
Farioli, lá está, nunca escondeu a predileção por quem veste a 10, sobretudo se for um artista chamado Gabri Veiga. Quando falou aos jornalistas na véspera de viajar para Lisboa, nem nos seus piores sonhos constava a lesão de última hora contraída pelo médio espanhol, contrariedade que acabou por obrigar FF a ceder aos pedidos das famílias que colocam o talento acima do resto e tratam Rodrigo Mora como se fosse um filho legítimo.
À quarta jornada do campeonato, finalmente foi Mora e mais… 10 mas, ironia das ironias, daquelas que até são grandes demais para as conferências de Imprensa onde costuma caber quase tudo, foi depois da sua saída que os azuis e brancos conseguiram chegar aos dois golos que derrubaram o bicampeão nacional.
Como contra factos não há arrependimentos, o jovem (36 anos) Francesco teve um fim de semana em cheio, podendo gabar-se de ter feito as escolhas certas antes e durante o confronto com os leões. Convém lembrar que regressou a casa com três pontos arrebatados num desafio que iniciou sem… três habituais titulares. Além de Samu e Gabri Veiga, o polivalente Pepê, devido a lesão ocular, ficou fora dos planos e ajudou a perceber a dimensão do plantel que André Villas-Boas colocou à disposição do míster.
Contabilizado os dois milhões de euros acordados com o Arsenal pelo empréstimo de Jakub Kiwior, a administração portista gastou até à meia-noite de ontem qualquer coisa como 94 milhões no reforço da matéria-prima, o que paga a promessa de bater o recorde de investimento no mercado.
Nesta medida e atendendo a tudo aquilo que se verificou em Alvalade e que desde o início da época estava escrito no guião de Farioli, não se compreende o noticiado recuo de Villas-Boas perante a proposta de 70 milhões do Al-Itthiad pelo passe de Rodrigo Mora. Com esse dinheiro de um suplente que custou zero à casa, o FC Porto suportaria as despesas que contraiu por Victor Froholdt, Gabri Veiga, Alberto Costa, Borja Sainz, Jan Bednarek, Dominik Prpic, Pablo Rosario e o citado Kiwior.
Se a taxa de utilização de Rodrigo prosseguir ao ritmo a que tem decorrido, com efeitos adversos nas convocatórias de Roberto Martínez tendo em vista o Mundial’2026, o menino prodígio corre o risco de se desvalorizar na etapa que deveria corresponder à consolidação. Os dados para amostra tornam inverosímil o propósito de vender por um preço “à João Félix” (acima dos três dígitos), como se uma transferência de 70 milhões não representasse desde logo o maior negócio desde a fundação do clube.
O melhor que podia acontecer ao FC Porto era o Al-Itthiad ainda reconsiderar o alvo número 1 que identificou na Liga portuguesa e passar o cheque. Tem até dia 10 para o fazer, pois nesse dia fecham as inscrições na Arábia Saudita. Antecipando-se ao presidente, Francesco Farioli seria o primeiro a regozijar-se com um rico 10 de setembro para as bandas do Dragão. Pelo que tem demonstrado, mais depressa virava a folha de calendário sem Mora do que enfrentaria o angustiante destino de perder… Diogo Costa, o outro grande património do balneário.
Caprichos que vêm de berço, de quem nasceu a 10 (no abril de 1989) e fez todas as revoluções no futebol sempre com uma paixão de criança pela figura do guarda-redes.

