País

O coro grego de António Costa

Opinião

Pedro Nunes

Milhares de anos depois, o coro grego continua muito atual.

Nas peças do teatro grego há muitas vezes um coro, um coletivo de vozes cuja função, não só mas também, é transmitir ao público as mensagens que não podem ser os personagens principais a revelar. Ocorreu-me esta imagem a propósito do coro socialista que se levantou em uníssono em crítica veemente a Marcelo Rebelo de Sousa, pela promulgação de três diplomas relativos a apoios sociais que violam (no entendimento de Governo e PS, claro está) a norma-travão da Constituição.

Na segunda-feira, António Costa dizia aos jornalistas que "o Governo nunca comenta as decisões do senhor Presidente, mas respeita-as sempre". Mesmo assim, o primeiro-ministro não resistiu a adjetivar a decisão presidencial, qualificando-a como "rica de conceitos", "bastante inovadora", "particularmente interessante", "complexa", "muito criativa efetivamente". E garantiu que não estava a ironizar (as máscaras em tempo de pandemia têm a vantagem de proteger do vírus e das interpretações de sorrisos que não se veem).

RODRIGO ANTUNES

Poucas mas suficientemente enfáticas palavras para se perceber que Costa não gostou nada, mesmo nada, de ver Marcelo, desta vez, ao lado da oposição. E se dúvidas houvesse, o que se leu por estes dias a vários nomes da galáxia "costista" ajudou a amplificar a mensagem que, por decoro institucional, não pôde ser o primeiro-ministro a transmitir.

RODRIGO ANTUNES

Vital Moreira começou por qualificar a decisão do Presidente como "um exercício de ficção constitucional"; num segundo post chamou-a "insólita", num terceiro "caprichosa" e "injustificável". José Magalhães escreveu que "um guardião da Constituição que fecha olhos à remoção de um limite de poder pela entidade que ele visa limitar é um guardião no mínimo estranho" (referia-se a Jorge Miranda mas é só substituir o nome).

Porfírio Silva não se ateve a meias-palavras: o Presidente "treslê de forma gritante a Constituição" e "abusa das suas leituras constitucionais muito pessoais (porque coloca o Presidente da República a substituir-se ao tribunal Constitucional em matéria de interpretação da Constituição)"; e ainda, "como escrevi em setembro de 2020 no meu blogue, Marcelo Rebelo de Sousa esgotou-se e isso, juntamente com o seu interesse nos conflitos no seio da direita política, não promete nada de bom para um segundo mandato".

Milhares de anos depois de inventado, o coro grego continua muito atual.