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Política Agrícola Comum segue caminho "desastroso", dizem ambientalistas

Pascal Rossignol

Sem ter em conta a falta de água ou a degradação dos solos, dizem.

O próximo quadro de apoio da Política Agrícola Comum (PAC) segue "um caminho desastroso", de apoio a quem causa problemas ambientais e sem ter em conta a falta de água ou a degradação dos solos, dizem ambientalistas.

O alerta é feito através de um comunicado de duas entidades: a associação ambientalista portuguesa Zero e a organização europeia "European Environmental Bureau" (EEB), uma federação de organizações ligadas ao ambiente.

"Agricultura insustentável"

As duas entidades sustentam ser já claro que os novos fundos da União Europeia (UE) vão continuar a favorecer a "agricultura insustentável" em Portugal, amplificando os principais problemas ambientais, "incluindo as alterações climáticas, a perda de biodiversidade, a escassez e a poluição de água, a degradação do solo e a resistência aos antibióticos".

A nova PAC, de 270 mil milhões de euros, diz respeito ao período 2023-2027 e deverá ser decidida numa reunião no fim de semana entre os negociadores da Comissão Europeia, do Parlamento Europeu e os ministros nacionais, depois de as negociações terem fracassado em maio passado.

A agricultura é a maior causa do declínio das populações de fauna e flora selvagens na Europa e é também uma grande contribuinte para o aquecimento global", e nos próximos cinco anos pouco vai mudar porque a maior parte do dinheiro vai ser destinado a "empreendimentos agrícolas com enormes impactes ambientais", diz-se no comunicado.

Portugal "prepara-se para continuar a apoiar quem causa os problemas ambientais e sociais"

Em Portugal, acrescenta-se, as propostas vão no sentido de se voltar "a servir o lóbi da agricultura industrial, incentivando o uso insustentável da água, desviando fundos ambientais para atividades que podem prejudicar seriamente o ambiente, e permitindo o declínio contínuo das paisagens tradicionais portuguesas a favor da industrialização do espaço rural em zonas de regadio por um lado e, por outro, o desamparo dos sistemas agrossilvopastoris". Em resumo, Portugal "prepara-se para continuar a apoiar quem causa os problemas ambientais e sociais".

O plano estratégico de Portugal para a nova PAC deve ser enviado à Comissão Europeia até ao final do ano e as duas organizações dizem temer que contemple uma "cedência ainda maior aos interesses ligados à agricultura industrial", a aposta nos grandes regadios coletivos de iniciativa estatal e um consequente aumento do consumo de água e desaparecimento das paisagens tradicionais.

A Zero e o EEB ressalvam que há medidas de apoio à agricultura de alto valor ambiental em habitats dentro da Rede Natura 2000, mas dizem que os valores de investimento são baixos. E depois, acrescentam, as medidas ambientais podem até agravar os problemas que visam combater, porque não há responsabilização pelas más práticas.

Depois há os apoios aos jovens agricultores. Zero e EEB dizem que "podem vir a beneficiar largamente cidadãos sem atividade agrícola real e sem intenções de viver em áreas rurais".