País

Professores na mesa das crianças

Opinião

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Ser professor não é ser sindicalista ou afiliado ministerial. Teima-se em dar voz a quem não pisa uma sala de aula há décadas para falar de salas de aula. Insiste-se em dar aos professores a mesma atenção que se dá às crianças. Que é mais ou menos aquele zelo de garantir que não saem da mesa dos miúdos.

O melhor do mundo, logo a seguir às crianças, são os professores. Mais coisas fofas: a classe profissional em que os portugueses mais confiam é a dos professores, juntamente com os bombeiros e os médicos. Os polícias e os militares também são bons, mas não tanto. Menos do que os professores. Os juízes são péssimos. Banqueiros e políticos, então, nem se fala. É a GFK que o diz. E diz também que dois em cada três portugueses acham que a qualidade dos professores portugueses é “elevada”.

Pelos vistos, ninguém quer ser fofo

Ainda há dias, a DECO publicava um estudo onde anunciou que a instituição em que os portugueses mais confiam é o ensino público. Está à frente do Presidente da República, pasme-se. Concluindo: Professores = bom. Escolas = melhor ainda. Perante este quadro, seria de esperar que a fila para se ser professor fosse interminável. Mas, pelos vistos, parece que nem há fila. Os cursos via Ensino estão tão desertos como concursos para médicos para a Guarda ou Vila Real. Estamos em regime de casa aberta em matéria de recrutamento de professores. “De que é que estavam à espera?” - estarrecem-se os comentadores. Pelos vistos, ninguém quer ser fofo.

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Era Setembro – um Setembro qualquer ou todos os Setembros juntos - quando um país inteiro acordou para a realidade de perceber que praticamente ninguém no seu estado normal quer ser professor. Imediatamente, se puseram ao caminho todos quantos, ao mais leve aceno mediático, sempre se dispõem a dizer tudo, seja sobre que assunto for. Não foi preciso esperar muito “para ver a banda passar, cantando coisas de... horror” como salários, condições laborais, instabilidade, precariedade, burocracia, absentismo fraudulento, retenção nas carreiras, insegurança e violência, incompetência por causa da qual só pagam os justos, que ele há professores e pecadores, públicos e privados, excelências e rankings, formação, envelhecimento, currículos excessivos, pressão dos exames, colocação de professores, recursos humanos, fracas lideranças, tudo rodopiando num turbilhão de subliminaridades que amarrotem este ou aquele mandador, num tango de agendas pessoais, a ferver de cálculos e de alvos.

Nesta irreprimível volúpia de incertos e certeiros lançadores de facas, é difícil descortinar algo que de verdadeiramente construtor se imponha. De resto, as eloquências ao serviço do desalento pela profissão são de tal modo sonoras que custa entender que ainda exista um professor algures. Não parece haver saída ou redenção para o seu martírio. Os pregoeiros do óbvio acotovelam-se no cortejo de oferendas recíprocas de culpas. Um tédio.

Como um insecto kafkiano, o professor converteu-se num mangas de alpaca

Há dias um professor em início de carreira, esforçando-se por organizar toda a documentação da sua Direcção de Turma dizia-me estar estafado com tanta papelada. Não sabia como organizar o seu tempo. Não tinha tempo para os seus alunos. Como um insecto kafkiano, o professor converteu-se num mangas de alpaca. Confessou que vive num constante estado de delito. Que há sempre qualquer coisa que lhe falta fazer. Por mais que domestique o seu tempo, sente-se num constante sentimento de falta de qualquer coisa.

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“Sabes quando a polícia nos manda parar e sabemos que temos tudo em ordem, mas acreditamos sempre que há-de haver qualquer coisa que nos escapou e que vai dar direito a multa? Assim me sinto eu”. Como o percebo. Ou é a acta da reunião de grupo, da reunião de ano lectivo, da reunião de departamento, da reunião de directores de turma, da reunião de coordenação da disciplina de cidadania e desenvolvimento, da reunião com encarregados de educação, ou é a marcação e publicação de mapas de provas sumativas, ou de preencher os “excéis” todos com a identificação e caracterização de alunos com apoios educativos, com apoio tutorial específico, com necessidades educativas ou com Português Língua Não Materna ou o preenchimento do formulário de preparação de visitas de estudo ou a colaboração com a equipa do Plano de Acção de Desenvolvimento Digital Escolar, ou da Refood, da rede escola IEUL, da eco-escolas, da literacia financeira, empreendedorismo, da UNICEF e mais dois ou três.

Ou então a conclusão do processo de devolução de manuais escolares usados, a preparação das actividades de comemoração do dia europeu do desporto e do mês europeu da cibersegurança, verificar as refeições marcadas e não consumidas, enviar e receber os pedidos de consentimento para testagem Covid de alunos do 3º ciclo, após a verificação de e-mails institucionais dos alunos, a listagem de alunos que não utilizaram os cheques dentista, a publicitação do regulamento da utilização de máscaras nas escolas e isto apenas no primeiro mês de aulas.

Já para não falar de treze ou catorze e-mails a pedir desculpa por “Estar a incomodar-te no fim de semana”.

Entretanto, o Miguel não sai do quarto porque tem vergonha por ser gordo e eu já não sei o que fazer com ele, sotôr. A Mafalda não pode ser testada ao covid porque desmaia; a Matilde fica sempre descontrolada quando o pai decide aparecer depois de nos ter abandonado mal ela nasceu e a medicação já não faz efeito. O Murilo vai regressar ao Brasil porque se deu mal por cá. A Marina não abre a boca durante as aulas, faz parte da maneira de ser dela, sotôr. O Marco não superou a morte do pai e chora noites a fio. Eu bem gostava sotôr mas o pai não paga pensão de alimentos vai para três anos e o tribunal não faz nada. Isto enquanto a custódia não tiver sentença vai ser sempre assim. Que ela foi abusada pelo tio, sabe? Uns dizem que a Micaela tem dislexia mas outros não. E a Miriam que tem trissomia 21 tem de estar presente em todas as disciplinas. Não sabe ler, não, mas precisa do 9º ano. O Maurício é cego mas não tem outros problemas e escreve em Braille. Precisa é da máquina. O Márcio é campeão europeu de tiro e a Maria foi agora a Tóquio e trouxe um diploma em Badminton. A Mariema foi à final do concurso nacional de leitura.

A sociedade está-se nas tintas para a auto-estima de cada um de nós

Estes dois universos são, as mais das vezes, gladiadores que aguardam um augusto polegar. Morituri te salutant. O busílis reside aqui. Não pode haver dúvida sobre a prevalência de um sobre o outro. Essa dúvida não pode ser resolvida pela clandestinidade burocrática em que vive a maioria dos professores. A sociedade está-se nas tintas para a auto-estima de cada um de nós. Lá fora é dog eat dog. Cá dentro, a escola não pode preterir a excepção, nem vetar o anómalo.

Na verdade, a maturidade de um sistema, seja ele qual for, público ou privado, empresarial ou societal, afere-se pela sua capacidade de integrar o desvio e de o hospedar. Cada um de nós é uma irregularidade. A diferença não é uma ternura. É um empreendimento demorado. Ser professor é cuidar de pessoas. Ter tempo para cada uma delas. Tempo é, na verdade, dinheiro. Compra-se muito tempo com dinheiro. E desse investimento não podem resultar apenas as indispensáveis condições materiais para ser melhor profissional. Desse investimento têm de nascer novas modalidades de gestão do tempo. Temos de rooseveltiar um New Deal que capacite o sistema para um cuidado acrescido com as pessoas e erigir uma Hoover Dam ao desperdício e à redundância, administrativa e financeira. Erguer barragens históricas a tudo o que possa descaminhar tempo e dinheiro à pedagogia e à didáctica, numa atitude bélica de search and destroy. Ser professor é cuidar de cada pessoa que queremos fazer aprender; tudo o mais é dissipação material (dinheiro mal gasto) e prodigalidade retórica (resmas de tretas).

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Ninguém quer ser professor porque os tratam como se tratam as crianças

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Ninguém quer ser professor porque os tratam como se tratam as crianças. São o melhor do mundo, desde que não incomodem. Se se põem com lamúrias, cá estaremos sempre para os lembrar que ganham todos três mil euros limpinhos, que têm três meses de férias, enquanto nós nos esfalfamos a trabalhar, que não fazem nada anão ser mandar uns bitaites mal encarados, que estão todos caquéticos, que progridem na carreira sem avaliação, nem mérito especial. E dir-lhes-emos que faltam muito às aulas, com atestados fraudulentos, que nós bem o sabemos. Mas confiamos neles. Muito mais neles do que nos outros todos.

Prestígio? Não faltam professores “prestigiados” em todas as escolas. O que há é esta surdez obstinada, institucional, mediática. Ser professor não é ser sindicalista ou afiliado ministerial. Teima-se em dar voz a quem não pisa uma sala de aula há décadas para falar de salas de aula. Insiste-se em dar aos professores a mesma atenção que se dá às crianças. Que é mais ou menos aquele zelo de garantir que não saem da mesa dos miúdos.