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Emergência e Segurança: aprendendo com o passado, gerindo o presente, preparando o futuro

Emergência e Segurança: aprendendo com o passado, gerindo o presente, preparando o futuro
Rui Pita Perdigão
A emergência de situações críticas de especial complexidade como desastres naturais e conflitos geopolíticos acarreta profundos impactos na nossa vida enquanto cidadãos. Alguns até vividos na própria pele e propriedades, de forma intensa, profunda e visceral. Sim, mesmo por quem vos escreve estas palavras.

A partilha de hoje assume-se assim, com toda a naturalidade, com tom mais afiado.

E porquê?

Trata-se da vida das pessoas, da nossa vida, e da daqueles que nos rodeiam. Do nosso património erigido com o trabalho e legado das nossas vidas. Dos nossos animais, das hortas e árvores que nutrimos e vimos evoluir ao longo dos anos. Do nosso lar, das nossas memórias, sabores, aromas e demais sensações e emoções. Das nossas notas, dos nossos pensamentos, dos nossos sentimentos, das nossas partilhas, vividas nos recantos do lar, à sombra do carvalhal, junto ao regato de águas cristalinas que percorre as terras que guardam tanto de nós como nós delas guardamos. Porquanto cada palmo do que temos é parte integrante de nós.

Um dia, de um momento para o outro, aquilo que se ergueu durante toda uma vida, pode desaparecer num momento com tanto de brutal como fugaz. Destruído numa enxurrada, num incêndio ou bombardeamento. E de repente, fica-se sem chão.

Quando tal sucede, não é só património material que se perde. É uma parte de nós que ali se esfuma. Ficam as memórias na mente e os sulcos das emoções profundamente gravados na alma. Mas vão-se os aromas, os sabores, as luzes, as sombras, a textura do espaço, e do tempo, e com ela o legado de uma vida. Não se trata de perda passível de compensação financeira. Trata-se da amputação de uma parte de nós, da nossa família, do nosso lar, da nossa terra, da nossa comunidade.

Por cá na diáspora, perante adversidades de diversas naturezas apenas tem sido possível evitar o pior atendendo à conjugação de dois fatores fundamentais. Por um lado, conseguir antever e preparar as ocorrências, alertando as autoridades com a devida antecedência, muito antes de o problema chegar ao nosso perímetro. Por outro, articular sinergicamente com a estrutura e disciplina de índole militar do complexo sistema de emergência e segurança que, quando bem informado, apetrechado e articulado, é uma mais-valia de apoio às nossas defesas no terreno.

Importa assim dar um contributo para ajudar quem passe pelo que já passámos a ultrapassar as situações, bem como de um modo geral a todos os cidadãos, entidades de emergência e segurança que tão dedicadamente zelam pela segurança de todos nós. Contribuindo construtivamente para que mesmo aí em Portugal, onde também tenho entes queridos, propriedades e outros elos, as coisas possam correr melhor.

Então Portugal não é exemplo para o mundo?

Em muitos outros aspetos claro que é. Ou não enchesse a bagagem com bom vinho, azeite, queijo, enchidos e livros sempre que me desloco entre a pátria e a diáspora onde está ancorada a minha cátedra interuniversitária. Há tantas outras áreas de excelência do nosso país natal nas mais variadas áreas, da cultura ao desporto, da engenharia à arte, da medicina ao turismo, só para dar alguns exemplos.

Todavia, no que à gestão de desastres diz respeito Portugal ainda está longe de ser exemplo a seguir. O país até pode ter especialistas de topo mundial, mas ano após ano as desgraças sucedem-se, cada um puxa a brasa à sua sardinha com a conversa do costume, saem mais uns relatórios para embelezar estantes e currículos e no final fica tudo na mesma. Todavia, quem sofre é quem como nós tem propriedades, tem haveres, tem animais, tem afetos, tem parte de si permanentemente em risco.

É inegável o sentimento de nó na garganta ao olhar para tudo o que acontece, especialmente tratando-se de situações previsíveis e resolúveis em pleno século XXI. Tanto a nível de prevenção da sua génese e progressão, como de preparação e resposta às ocorrências, porquanto muitos incidentes que à primeira vista parecem incontroláveis, na verdade podem ser dirimidos antes de causar uma desgraça.

As ocorrências de desastres e conflitos de especial complexidade e ferocidade têm sido algo a que nos habituamos a viver, sem todavia nos conformarmos, nos tempos desafiantes em que vivemos, em que a anormalidade episódica de outrora parece acompanhar-nos como um sistemático e desconcertante novo quotidiano. Ainda assim, como vos referi na minha comunicação anterior aqui na SIC Notícias, não é preciso dramatizar. Não se trata de escamotear nem relativizar nem normalizar.

Trata-se, isso sim, de compreender o que passa e manter a cabeça fria para resolver os problemas de forma concreta e cabal. É fundamental compreender e preparar-nos para estas ocorrências e para a sua persistência, com a serenidade e ponderação que nos seja humanamente possível ter perante algo que também nos toca diretamente.

O que fazer então?

Imenso, ainda mais do que se pode realisticamente elencar neste espaço de opinião. Tem havido muita discussão em torno de aspetos sócio-ambientais potenciando consequências de ocorrências desastrosas. Bem como em enviar mais meios para o teatro de operações. Embora importantes, essas medidas por si sós não bastam. Impera também fazer uso mais apto e eficaz dos recursos e valências existentes, da prevenção à preparação e ação efetiva no terreno.

A questão dos sistemas de emergência e segurança, sabiamente abordada por quem de direito, não pode ficar para trás. São aliás a engrenagem que está por trás do fazer acontecer.

Reforçando a coordenação e comunicação

A complexidade de ocorrências coloca desafios hercúleos de coordenação de uma grande diversidade de meios de prevenção, alerta, análise, gestão e ação no terreno, envolvendo uma não menos complexa articulação entre diversas entidades, cada qual com os seus protocolos e cadeias de comando. Importa assim reforçar a fiabilidade, segurança e fluidez da informação e ação entre todos os intervenientes.

Por vezes as capacidades tecnológicas das infraestruturas de comando e comunicação são levadas além do limite em que podem realisticamente operar. Todavia, já há tecnologias que, apesar de recentes e inovadoras, já contam com provas dadas no terreno internacional para reforçar a capacidade, fiabilidade e robustez na comunicação tão crucial para articular os intervenientes na complexidade dos sistemas de emergência em segurança.

No caso do meu instituto em Viena, já demos o salto quântico que faculta comunicações bem mais rápidas, seguras, precisas, robustas e eficazes fazendo toda a diferença nos teatros de operações em que temos tido a oportunidade de colocar todo o esforço de desenvolvimento tecnológico e cooperação institucional em prática. Desde situações de desastres naturais a conflitos geopolíticos complexos. Decerto podem imaginar a diferença brutal que faz haver plena conectividade entre meios de forma célere, fluida, robusta e fiável. Não é ficção científica. É Física Tecnológica.

Reforçada a coordenação e comunicação que alavanca o sistema de emergência e segurança, passemos então a várias das fases envolvidas em todo o processo. Sem pretensões de entrar exaustivamente em grandes detalhes pois não é realista abordar em meia dúzia de páginas de um artigo de opinião o que escrevo em manuais de centenas de páginas para as entidades profissionalmente interessadas.

Reforçando a Prevenção

A montante das ocorrências, importa referir o papel crucial da prevenção, desafio interdisciplinar que articula aspetos da sociedade, ambiente, território e segurança.

A profilaxia ao nível sócio-ambiental tem crucial importância nomeadamente quando acarreta a revitalização do espaço rural no sentido da recuperação de práticas agrícolas e pastoris de dimensão familiar, que permitem manter as terras bem tratadas e cultivadas, ao invés de as deixar entregues ao matagal. Bem como assegurar um mosaico de diversidade ao nível da utilização dos solos, desde cultivo para alimentação, pasto, e até promoção de microclimas (e.g. através de montados de sobro, de carvalhais ou outros adequados às regiões onde se situem).

Este tipo de ação releva não só para a prevenção de incêndios rurais mas também para fazer face aos riscos colocados sobre a segurança e soberania alimentar por parte de condições ambientais e geopolíticas adversas. E relevam ainda para o delicado desafio de gestão e capacitação de recursos hídricos, porquanto as opções tomadas nas nossas terras fazem toda a diferença em termos de atração e retenção de tais preciosos recursos, mesmo perante adversidades climáticas de meso e larga escala.

Há ainda a questão fundamental da educação para boas práticas nos espaços rurais, para que sejam evitados comportamentos de risco que possam levar a problemas acidentais, porquanto as condições ambientais mais prevalentes nos dias que correm não são propícias a muitas das tradicionais práticas de manutenção dos terrenos que outrora não seriam problemáticas. Bem como tomar atenção aos riscos de algumas culturas florestais e de toda a dinâmica sócio-económica que está por trás. E não podemos esquecer ainda a necessidade de precaução perante pressões que possam ocorrer no sentido de deixar cair territórios protegidos por forma a admitir atividades lesivas de tais áreas sensíveis, das suas gentes e modos de vida.

Reforçando a Segurança

Passemos, ainda no âmbito da prevenção, às questões de defesa e segurança. Impera capacitá-las com mais musculada força e rigor, sem paninhos quentes, sem dar um milímetro de corda a quem pise o risco. É importante monitorizar e acompanhar tudo o que se passa, com o devido cuidado e respeito, com meios humanos e sensores locais e remotos, em terra e no Espaço. Para depois agir com vigor e determinação sobre quem, por dolo ou negligência, coloca a vida de todos em risco. Como aliás é feito eficazmente na região onde resido a maior parte do ano.

Aqui, as forças de defesa e segurança não são vistas como ameaças à nossa liberdade, mas antes como garantes dessa mesma liberdade, assegurando a estabilidade que nos permite levar a nossa vida em paz sem o medo permanente de ver os nossos entes queridos e património ameaçados por bandidos ou desmiolados.

Devo aliás apontar que me sinto bem mais seguro, livre e descontraído vivendo num meio fortemente capacitado com política de segurança e justiça férreas, do que em terras de brandos costumes onde a liberdade dá lugar à libertinagem e onde a culpa quase sempre morre solteira. Dignem-se a conhecer os profissionais que zelam pela segurança de todos nós, e verão que não são papões mas antes anjos da guarda. Temerão alguns que a autoridade também estique a corda. No melhor pano pode cair a nódoa, mas também ali quem pise o risco terá de enfrentar as consequências.

Capacitando a Ciência de Resposta

Abordada a questão da prevenção e segurança, é evidente que há sempre ocorrências que escapam mesmo ao crivo mais apurado. Entra a resposta. Para tal, é fundamental poder contar com um suporte técnico-científico mais fidedigno para suporte à decisão atempada e rigorosa que permita prever mais condignamente a progressão dos problemas e acabar eles antes que estes acabem com quem está diretamente na frente de impacto. Por melhores que os modelos sejam, na prática muitos estão longe da realidade, logo precisam ser cientificamente reformulados.

Por mais artigos científicos que saiam demonstrando o mérito dos modelos em condições e casos escolhidos a dedo para a coisa parecer bem, o problema é quando tais castelos nas nuvens são esfumados pela realidade. Muitas vezes os números não batem certo com os factos. E não é a realidade que está errada, aquém ou além de onde supostamente deveria estar. Se há discrepância entre modelos e realidade, obviamente são os modelos que estão errados. Errados nas suas hipóteses, na sua estrutura, no enquadramento da informação que articulam, e mesmo na execução.

É fundamental haver um reforço científico ainda maior em Física Interdisciplinar, Matemática e Ciências da Complexidade por quem lide com modelação, por forma a evitar leviandades na forma como são trabalhados os modelos, compreendida a ciência subjacente, e interpretados os resultados a bem da missão que visam cumprir. Modelar é extremamente fácil e útil como “laboratório de simulação”, mas tem de ser feito com muito cuidado. E sobretudo com a humildade de nunca confundir tal construção humana incompleta e falível com a realidade dos factos.

Então os modelos não representam a realidade?

Não necessariamente. Os modelos são estruturas formais que representam a maneira como percepcionamos, interpretamos e formulamos o nosso entendimento da realidade. Seja tal entendimento advindo de dedução matemática formal baseada em fundamentos teóricos assumidos por lógicos e verosímeis, mesmo que totalmente desligados de realismo físico. Ou de construção automática a partir de fontes de informação que sejam utilizadas como norteadoras da sua formulação, desde bases de dados a observações e experiências. Sendo que estas também acarretam riscos, porquanto envolvem assunções e escolhas na sua aquisição, execução e tratamento da informação, podendo resultar em caracterizações formalmente lógicas e estatisticamente significativas, mas fisicamente alheadas da realidade. Ou seja, podemos fazer os modelos que quisermos. Mas não serão espelho da realidade.

Mesmo que os resultados dos modelos coincidam com observações, não significa que os mecanismos contemplados num qualquer modelo sejam os reais. Pode haver múltiplos modelos que, munidos de hipóteses totalmente diversas, redundem em resultados semelhantes. Por exemplo, o caso clássico de a queda de um objeto por ação gravitacional ter efeito semelhante à de estar parado em suspensão dentro de uma estrutura uniformemente acelerada acabando por “cair” na sua retaguarda. As alegadas provas facultadas pela coincidência entre modelos e observações são, assim, meramente circunstanciais. Abordamos aliás esta perspetiva na revista Science, em “Who is stirring the Waters?”, por Hall e Perdigão (2021). Se quisermos atribuir fisicamente, vendo afinal que modelo terá mais razão, então entramos na Física da Informação, nutrida na minha cátedra e colaborações internacionais.

Como funciona então a nossa ciência no terreno?

Por cá, a ciência coevolve com todas as demais valências numa interdisciplinaridade sinérgica entre ciências naturais, sociais e tecnológicas de fronteira. Onde não basta acertar nas contas mas também compreender melhor como e porquê, para melhor poder apoiar eficazmente as operações. Tudo tem o seu lugar, uma vez estabelecidas as valências e valores de cada contributo sem ilusões nem presunções. Por mais mato que se desbrave, haverá sempre mais por desbravar. Seja em frente onde está tanto por fazer, ou para trás onde fica sempre algo perdido nas entrelinhas.

A ciência não se limita a fornecer informação a quem está a tomar conta da ocorrência. Nem fica passivamente à espera de dados. A nossa ciência é viva, coevolutiva, comunicativa e operante, articulando-se eficazmente com os meios, aprendendo com o que está a acontecer e ajudando a resolver problemas no terreno antes de se tornarem catástrofes dignas de notícia. Notando todavia que a missão nunca está cumprida enquanto houver alguém a sofrer. Em ciência não cantamos vitória. Humildemente aprendemos e evoluímos para servir ainda melhor.

Aqui cada palmo que se perca é um palmo perdido em excesso, porquanto não são os modelos que ditam quanto deve ser destruído, mas fundamentalmente a realidade da vida das pessoas. E esse número não é cem nem duzentos mil hectares. É zero. Por mais que haja condições favoráveis a perdas monumentais, é dever dos sistemas de emergência e segurança valer-se de ciência que realmente funcione não só para simular a progressão da desgraça, mas para encontrar formas de a evitar ou travar.

Há no terreno pessoas fenomenais a lutar para evitar o pior, desde todos aqueles profissionais que de forma esforçada e abnegada se entregam à missão, aos próprios proprietários e residentes rurais que tentam defender o trabalho de uma vida. O destino constrói-se pela ação robusta e coevolutiva de todos nós, desde os cidadãos aos técnicos, cientistas, decisores e operacionais, vivendo e sentindo a realidade na pele. Haja abertura e coragem institucional aí em Portugal, e o país poderá começar a beneficiar de ciência e ação que sejam mais eficazes no terreno. Bem hajam.

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