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Sobre literacia e as medidas de Costa: “Assumir rédeas na nossa vida, que o Estado não é nosso paizinho”

Sobre literacia e as medidas de Costa: “Assumir rédeas na nossa vida, que o Estado não é nosso paizinho”
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Se queremos ser livres - como a democracia nos faz acreditar e bramir que somos – é bom que comecemos a pensar pela própria cabeça, e a assumir a responsabilidade de conhecer todas as opções e decisões em concordância que temos para fazer.

“Assumir rédeas na nossa vida, que o Estado não é nosso paizinho” - foram as palavras do jornalista Pedro Andersson, enquanto descodificava as medidas de Costa contra a inflação com Diana Chaves e João Baião, no programa Casa Feliz. Durante a emissão, a 8 de setembro, não houve qualquer menção à celebração do Dia Internacional da Literacia, assinalado nesse mesmo dia.

Contudo, para mim, não houve melhor explicação e exemplo prático do conceito que a intervenção do jornalista. O responsável pelo programa Contas Poupança, na SIC, e cujo trabalho tanto admiro, utilizou a expressão “literacia financeira” várias vezes, e deixou claro que o objetivo da conversa não era partilhar a sua opinião sobre se o programa de Costa era “bom” ou “mau”, mas explicar e esmiuçar de forma prática e rigorosa como funciona o sistema e quais as opções existentes para os implicados.

“Assumir as rédeas na nossa vida, que o Estado não é nosso paizinho” - disse Andersson, e eu acrescento - que para papás já tivemos ditadores, reis e deuses, e podemos voltar a ter. E democracia sem auto-decisão... é uma brincadeira perigosa de ignorantes, palhaços e poderosos (e já voltamos a esta declaração minha).

O grande momento de literacia financeira matinal procedeu um plot com casais do “Quem se quer casar com o Agricultor”, e gozou das informalidades reservadas aos programas de Daily-Time (o que aliou rigor a simplicidade, ou seja, sucesso).

Provado ficou que podemos distrair-nos com reality shows, mas que quando a realidade nos bate à porta, estar informado importa. Que queremos um chefe que nos dê medidas, soluções e milagres – que tome as decisões por nós porque, afinal, foi para isso que votámos. (Ou foi por isso que não votámos, tendo em conta a taxa de abstenção em Portugal.) Contudo, se queremos ser livres - como a democracia nos faz acreditar e bramir que somos – é bom que comecemos a pensar pela própria cabeça, e a assumir a responsabilidade de conhecer todas as opções e decisões em concordância que temos para fazer.

Afinal, “o que acha das medidas do Costa? - perguntam os pivots aos especialistas em estúdio, que se dividem entre comentários técnicos e eruditos, políticos inclinados à esquerda ou à direita, cientistas demasiado rigorosos e impercetíveis ao público (para não colocar qualquer gafe perante os colegas investigadores e académicos que observam) ou ativistas (que defendem a sua afiliação e ideologia). Afinal, “o que acha da medidas do Costa?”, perguntam os repórteres em vox-pops na rua ao povo que ouve. De sacos de compras em riste, miúdos pela mão, sem maquilhagem e cabelo arranjado para ida a estúdio... cada um opina e faz por opinar, do seu jeito. Ou então não. Há quem se desfaça em comentários e rixas de internet. Ou simplesmente calam e ignoram... ou calam para explodir um dia.

E é aqui que reside o grande mote à nossa discussão. Porque para se ser livre é preciso querer, conseguir e importar-se (sem alguém a quem possamos agradecer a vidinha que nos dá ou culpar pelos nossos traumas e azares). Para se ser livre é necessário tomar decisões e, para isso, é preciso entender sobre seja lá o que for que vamos decidir. E, nesta democracia, quase ninguém entende sobre seja o que for. Seja por falta de interesse de quem não sabe ou por vontade de quem não quer que todos saibam, o ponto é que sem literacia a democracia como a pintamos é outra coisa. E não é bonito.

Democracia sem literacia é uma brincadeira perigosa de ignorantes, palhaços e poderosos

Poderia proceder a uma compilação bibliográfica para corroborar o rigor da afirmação que serve de título a esta secção. Contudo, fui aprendendo com o tempo que entretenimento não é pecado nenhum e que, apesar de atual doutoranda e amante de jornalismo de informação, a literacia se faz de todas as formas e mais algumas – muitas vezes de maneira bem mais efetiva do que numa redação ou sala de aula.

Por isso mesmo, partilho um dos meus diálogos prediletos de sempre, da série Back mirror (também uma das minhas favoritas). No episódio “A hora de Waldo” um comediante falhado dá voz a um urso de animação chamado Waldo, e vê-se envolvido na política quando os produtores querem que Waldo se candidate a um cargo político. A conversa entre o produtor e o comediante é soberba:

“- O mundo está de rastos e tu podes fazer alguma coisa.

- Não sei do que está a falar.

- O Waldo tem a atenção dos jovens. Os jovens não querem saber de nada, exceto sapatilhas e filmes piratas.

- Tem mais alguma teoria fantástica sobre os jovens?

- Sim. Tenho mesmo. Eles querem saber do Waldo. Eles vão votar no Waldo. O vídeo foi um sucesso por um motivo!

- O vídeo foi embaraçante. Sinto-me embaraçado. Estava a atacar. Nem argumentei.

- Isso não interessa!

- E nem sequer fui engraçado, o que é pior!

- Podemos trabalhar nisso.

- O Waldo nem sequer é real.

- Exato. Foi isso que disseste. Ele não é real, mas é mais real que todos os outros.

- Ele não representa nada!

- Sim, mas ao menos não finge representar! Nós... nós não precisamos de políticos. Todos nós temos iPhones e computadores, certo? Portanto qualquer decisão, qualquer política, basta colocar online. Deixem as pessoas votar. Polegar para cima ou para baixo. Ganha a maioria. Isso é democracia. A verdadeira democracia!

- Assim como o Youtube. E não sei se já viu, mas o vídeo mais popular é um cão a peidar uma música dos Happy Days.”

E é no mês que se comemora a importância da literacia e é notícia nos media mundiais que a socialite Kim Kardashian lançou nova capa a mostrar o rabo para “parar a internet”, que me parece interessante evocar os gostos de Platão, e qual a sua opinião se tivesse serviço de stream e redes sociais na sua pólis grega.

É que, afinal, para quem lhe conhece as entranhas, o filósofo defendeu a céu aberto que a democracia era simplesmente o sistema governativo para o início do colapso de uma civilização. (E dou a posição por justificada com diálogo anteriormente apresentado, não fosse parecer que a história se encaminha, 4 mil anos depois, para lhe pode dar razão.)

Jornalistas, cientistas, comunicadores de ciência, ativistas, políticos... eteceteras.

Criado pela UNESCO em 1967, o Dia Internacional da Literacia concentra as atenções mundiais na aprendizagem ao longo da vida, e não apenas no ensino obrigatório – aumentado para o décimo segundo ano em Portugal (depois podemos falar sobre a verdadeira motivação para adquirir conhecimentos, quais os conhecimento adquiridos, e a forma de os avaliar).

Com foco principal nos jovens e nos adultos, é a literacia pela vida fora que permite que o povo perceba e integre de forma ativa a realidade onde vive, participe publicamente e tenha liberdade e conhecimento para escolher, de forma voluntária e porque assim o reconhece imprescindível (a existência do conceito de voto obrigatório é para mim prova dada que há algo de patológico nisto tudo). Assim é o pressuposto da democracia, tantas vezes ligada ao Século das Luzes e à evolução de República, cujo pressuposto base - ironicamente e quase propositadamente esquecido - é o direito a pensar!

Não podem imaginar a minha cara de estarrecida quando descobri, incrédula, que afinal o autor da Alegoria da Caverna – obra que me influenciou profundamente a seguir jornalismo para poder dar a “luz e realidade” aos escravos que vivem na sombra - não acredita que as massas possam ser o motor de governação de um estado. Eu, àvida aluna de jornalismo e temerosa candidata a guardiã da democracia e gatekeeper - expressão usada para “guardião do portão” nas ciências da comunicação e que equipara os jornalistas a uma espécie de São Pedro às portas do céu, porque são eles que escolhem os acontecimentos merecedores da esfera pública ou não – vim dar razão a Platão em vários aspetos.

No mês em que se celebra internacionalmente a literacia, a minha rede Linkedin e Twitter invade-se com posts de cientistas, académicos e especialistas com referência à data. Mas a literacia na prática... é mais utópica que outra coisa. Milhões de adultos em todo o mundo não têm competências básicas de alfabetização, destacando-se cerca de meio milhão de portugueses sem essas habilitações. Em 2020, a Unesco chama a atenção, durante a crise do COVID-19 e no pós-pandemia, para o ensino e a aprendizagem, alertando especialmente para as dificuldades acrescidas neste contexto, e para a importância dos educadores, na premente mudança, cuidarem das suas práticas pedagógicas. Não descurando também a necessidade e importância do estado “mexer” nos currículos, competência sua, tendo em conta a nova realidade mundial que se nos apresenta.

Este mês, a comunicação de economia está nas altas porque o primeiro-ministro mexeu com as contas do povo (pelo menos até à notícia da morte da Rainha Isabel II), mas casos de excelência de literacia financeira como o de Pedro Andersson são suspeita e inadmissivelmente raros. No mês da Conferência do Clima os cientistas são chamados, e aquando dos planos de vacinação os debates sobre saúde começam. Mesmo pertinho das eleições, pensa-se em debater democracia e, com muita sorte, umas teoriazitas de filosofia política. Mas e literacia financeira ao longo da vida? Formação cívica? Cultura científica? (Já falámos em artigos anteriores sobre o papel da incerteza na ciência - a minha área de especialidade - e nas expectativas irrealistas que exigem à Ciência que legitime o que é bom ou mau, feito igual Deus, Ditador ou qualquer outro progenitor dogmático).

Sem literacia, a democracia será apenas um romance orwelliano, uma ratoeira mordaz entre poderosos e inteligentes que usam a ideia de liberdade para controlar e ingénuos e preguiçosos que a usam como desculpa ou inevitabilidade para não escolher. E assim sim, a democracia será o início do colapso como Platão defendeu. Porque nos perguntam, como povo, “Então o que acha das medidas do Costa?” e nós não conseguimos responder além de um “bom” ou “mau”. Ou com um comentário e laracha ouvida no noticiário, uma frase do vizinho, no café. Ou a necessidade de quem só quer dinheiro para ir vivendo.

… God save the queen, sim. E que a literacia salve a democracia também. Porque, afinal, isto não está fácil. Seja encher a despensa depois de ir ao supermercado, manter um negócio aberto, ter casa com esta inflação. Seja pensar, entender e escolher seja o que for, como o estatuto de cidadão nos exige.

A situação é triste, sim. Mas, mais do que isso, é profundamente perigosa.

Fonte: Calvin & Hobbes (Bill Watterson, 1985-1995)
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