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Um médico que se sentiu "um general sem tropas"

Opinião

Um médico que se sentiu "um general sem tropas"
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Portugal é um dos quatro países da União Europeia sem Especialidade de Medicina de Urgência e Emergência. Um artigo de opinião do médico Filipe Serralva.

O País tem de apanhar o pelotão da frente. Na atual Europa dos 27, Portugal está entre os quatro sem esta Especialidade. Porém, a solução para as Urgências passa obrigatoriamente pela criação da Especialidade de Medicina de Urgência e Emergência. Irá ser discutida e sujeita a votação, a criação desta Especialidade, no dia 12 deste mês, pela Assembleia de Representantes da Ordem dos Médicos.

Iniciei a minha profissão de médico de internato geral há vinte e dois anos. Começava a dar os primeiros passos neste mundo fantástico, um mundo caracterizado pela ajuda “especializada” de dedicação ao próximo. Por essa ocasião, o então diretor do Serviço de Urgência (SU) das Caldas da Rainha, onde eu trabalhava, pediu-me para preparar uma apresentação de slides sobre o trabalho realizado na Urgência.

Lembro-me como se fosse ontem, do meu entusiasmo e responsabilidade pela escolha e, pela minha obrigação de corresponder às expectativas. Escolhi para o primeiro slide a definição do dicionário da palavra “Emergência” que se traduz num “acontecimento inesperado ou de gravidade excecional que requer (re)ação imediata ou urgente” e que, na Medicina, tem a seguinte definição: “situação clínica grave que requer cuidados médicos imediatos”.

Depressa percebi que o slide seguinte teria de ser uma negação do velho adágio popular “depressa e bem não há quem!”. Com efeito, para podermos responder a um acontecimento inesperado, ou de gravidade excecional, com eficácia temos de fazê-lo depressa e bem.

De pressa e bem, não há quem?

É, pois, neste pressuposto que defendo intransigentemente a criação da Especialidade de Medicina de Urgência e Emergência, pois de que outra maneira poderíamos contrariar a tão certa e ponderada sabedoria popular?

Se as situações clínicas emergentes são tão exigentes, inesperadas e muito variadas, a única maneira de estar preparado para elas será com treino, muito treino especializado, consistente, repetido, orientado por tutores experientes e eficaz do ponto de vista científico, técnico e teórico. Ou seja, tudo o que é apanágio de uma Especialidade Médica.

Não nos podemos satisfazer por ter esse trabalho altamente diferenciado e específico a ser prestado por médicos tarefeiros, sem dedicação exclusiva e hierarquizada. Temos de dar a estes profissionais a possibilidade de se especializarem, com formação complementar, e assim se equipararem a médicos especialistas em Urgência e Emergência, por forma a garantir o melhor desempenho num projeto integrado, pensado e estruturado com vínculo seguro e permanente ao SU.

Como disse (e muito bem), durante esta semana, o Ministro da Saúde, Dr. Manuel Pizarro, relativamente ao problema crónico das nossas urgências, “a responsabilidade é da maneira como organizamos o sistema”. Isto é, o problema está na organização interna, e essa organização só pode ser aprimorada e efetivada se se tiver um “exército” de médicos hierarquizado, especializado, dedicado e motivado, que possa responder aos diretores do SU e delinearem em conjunto estratégias para responder eficazmente aos desafios de cada tipologia de SU.

Diretor do SU, General sem tropas

Nos últimos anos desempenhei funções como diretor do SU dos hospitais de Guimarães, Penafiel e Amarante, e em nenhuma dessas urgências tinha mais do que 1 ou 2 médicos com contrato pertencentes ao quadro clínico do Serviço. A esmagadora maioria dos clínicos estava ligada ao SU por um contrato de prestação de serviços médicos com vínculo precário, sem nenhuma segurança para a instituição em termos de garantia de cumprimento das obrigações para com o Serviço, ou para com o próprio profissional, tais como progressão na carreira médica ou poder usufruir das vantagens que um contrato individual de trabalho oferece.

Durante o desempenho das minhas funções à frente dos vários SU senti-me como se fosse um general sem tropas! Senti sempre muita dificuldade ao fazer a escala de serviço nos períodos de férias ou das festas, ao ter tão poucos médicos no quadro médico do serviço

No contexto atual da direção de Serviços de Urgência, o trabalho hercúleo dos diretores de serviço perante tão grandes desafios e dificuldades com que se deparam, assemelha-se à visão de Cervantes de um Dom Quixote que combate moinhos de vento impossíveis de vencer.

O SNS é um dos melhores e mais justos sistemas de saúde do Mundo, mas convive com demasiados e frequentes episódios de disfunção nos SU.

Portugal é um dos poucos países da União Europeia (apenas 4 em 27) em que ainda não existe a Especialidade de Urgência/Emergência. Este facto não pode ser dissociado da pouca eficiência atribuída cronicamente às nossas Urgências. Urge reverter esta situação para bem de todos, utentes e profissionais.

Em virtude da minha experiência profissional, com várias missões no estrangeiro, seja em contexto de trabalho médico, trabalho formativo ou de consultadoria, não tenho dúvidas em afirmar que o SNS é um dos melhores e mais justos sistemas de saúde do Mundo, mas convive com demasiados e frequentes episódios de disfunção nos Serviços de Urgência.

Assim, de forma sucinta, estão subjacentes à criação desta Especialidade, claras vantagens para o SNS que passo a enumerar:

- Garantia do preenchimento das escalas médicas das urgências e do pré-hospitalar e respetiva fidelização;

- Qualificação e especialização dos quadros médicos dos serviços de urgência com garantia de melhores práticas nos cuidados de saúde;

- Melhor resposta a situações de exceção;

- Maior oferta formativa e vocacional para os médicos recém-formados, aumentando assim o leque de escolha e reduzindo o número de vagas de especialidade por preencher, (Num inquérito realizado pelo Colégio da Competência de Emergência Médica da Ordem dos Médicos, publicado em 2019, 87% dos médicos recém-formados responderam favoravelmente à necessidade da criação desta Especialidade);

- Uniformização de melhores e mais avançadas práticas médicas entre o ambiente pré-hospitalar e o hospitalar;

- Promoção para a educação, formação, informação, pesquisa e investigação nesta área tão especifica da Medicina.

Dia 12 deste mês irá ser discutida e sujeita a votação a criação desta Especialidade, pela Assembleia de Representantes da Ordem dos Médicos.

Até lá irão decorrer várias iniciativas sensibilizando e alertando para a importância deste tema, entre as quais uma Conferência Parlamentar na Assembleia da República agendada para dia 9 de dezembro.

Quem corre por gosto não cansa!

Uma das críticas atribuídas (injustamente) à criação da especialidade prende-se com o receio de poder ocorrer “burnout” ou exaustão por trabalharmos sempre em Urgência. Mais uma vez, vou ter de me socorrer da sabedoria popular para lembrar que quem corre por gosto não cansa! E quem como eu, tem a paixão pela medicina praticada nos momentos mais críticos da nossa vida, nos momentos em que essa vida é ameaçada de forma abrupta e repentina, seja por doença ou acidente, nunca vai sentir qualquer cansaço ou exaustão na hora de poder fazer o bem ao próximo com técnica, treino e sabedoria.

Relevando o sublime ato de proteger a vida do outro, como se da nossa se tratasse, cito Ana Luísa Amaral, a escritora recentemente homenageada pela “Escritaria” em Penafiel, num dos seus mais belos poemas, “…eu não existo sem o outro e o outro sou eu.”

Filipe Serralva

Médico do SHEM do INEM e Ex-Diretor dos SU do Hospital de Guimarães e do Centro Hospitalar Tâmega e Sousa

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