País

Exclusivo Online

Escutismo: "Uma escola de valores" que enfrenta novos desafios

Assinala-se este fim de semana o 100.º aniversário do Corpo Nacional de Escutas e as celebrações decorrem em Braga. Ana Carolina Fernandes, escuteira com mais de 20 anos de experiência, partilha com a SIC Notícias o que leva milhões de crianças e jovens a manter vivo um movimento que surgiu há mais de um século.

Escutismo: "Uma escola de valores" que enfrenta novos desafios
Facebook Município Idanha-a-Nova

O Corpo Nacional de Escutas celebra este fim de semana 100 anos e a data será celebrada com a "Grande Festa do Centenário", que acontecerá ao longo deste sábado e domingo - dias 27 e 28 de maio -, em Braga.

O grande objetivo deste evento passa por "celebrar a força do escutismo católico em Portugal" e a "alegria e o dinamismo da maior associação de juventude do país". Nesse contexto, Ana Carolina Fernandes, dirigente do Corpo Nacional de Escutas no Agrupamento de Alcobaça, Núcleo do Oeste, explica à SIC Notícias quais são as características e as dificuldades do escutismo e qual o rumo que leva em Portugal.

Em fim de semana de aniversário, o Corpo Nacional de Escutas vai organizar, na cidade onde foi fundado, um evento que pretende reunir mais de 23.000 escuteiros de todo o país, segundo a Agência Lusa, durante dois dias. Ali, serão promovidas várias atividades desde jogos, fóruns, workshops, visitas culturais e muito mais, de acordo com a faixa etária dos participantes.

As festividades arrancam este sábado com o acolhimento dos escuteiros e seguem pelo dia fora, culminando na Festa do Centenário. Já no domingo, o dia começa cedo com alguns jogos, estando previsto que o término do evento aconteça pelas 16:00.

O percurso de Ana Carolina

Milhares de crianças e jovens vão rumar a Braga para celebrar aquilo que Ana Carolina Fernandes sente há mais de 20 anos: a paixão pelo escutismo.

Em 2002, com 6 anos e incentivada pelos pais, a agora dirigente do Corpo Nacional de Escutas conta que cumpriu todo o percurso enquanto escuteira e que essa experiência influenciou a sua escolha profissional:

"Sou fisioterapeuta pediátrica, portanto, contacto com crianças, com as pessoas e ajudo-as. Acabei por ser muito influenciada pelos valores que me foram passados lá. Mesmo esta questão de querer continuar a participar (…) passa muito lado a lado com a minha profissão. Não consigo quase separar uma coisa da outra".

Revela que os ensinamentos que são transmitidos pelo escutismo influenciam a vida pessoal e profissional dos integrantes.

Ana Carolina (2.ª a contar da direita) com a família.
Reprodução/Facebook Ana Carolina Fernandes

De lobito a chefe

Para além disso, o que move Ana Carolina Fernandes a continuar envolvida no escutismo é o sentimento de gratidão. A vontade de "dar aos outros" aquilo que lhe foi dado ao longo dos últimos 21 anos foi uma das razões que a levou a tornar-se, há quatro anos, dirigente e chefe de unidade dos lobitos – grupo de escuteiros que reúne crianças dos 6 aos 10 anos - no Agrupamento de Alcobaça.

"Eu dirijo a equipa que está comigo, todo o tipo de atividade que eles fazem. Faço toda a preparação e gestão da equipa", explica Ana Carolina que acrescenta que o agrupamento em que está inserida pertence à Região do Oeste e, consequentemente, à Região de Lisboa.

O amor que diz sentir pelo escutismo não desvanecerá com o tempo e, por isso, sustenta com todas as certezas que não imagina a sua vida longe deste movimento.

Afinal, o que é ser escuteiro?

"É uma forma de estar", começa por dizer antes mesmo de referir que os escuteiros são "uma escola de valores" que ensina o que não se aprende numa sala de aula. As competências que se adquirem no escutismo, segundo a própria, passam pelo "saber estar, o serviço e a aproximação ao outro". Resumindo, explica que ali os valores adquiridos "são postos em prática".

Nos dias de hoje, considera, "é ainda mais essencial" que as crianças e os jovens se envolvam em atividades como as que são promovidas pelo escutismo.

"Estamos numa sociedade em que os miúdos são cada vez mais ligados às plataformas digitais. Portanto, tudo o que é o contacto com a natureza, o facto de terem de ser eles a trabalhar para qualquer coisa. É cada vez mais invulgar serem expostos a isso porque estamos numa sociedade cada vez mais protegida", aponta.

Para Ana Carolina, sempre que os pequenos escuteiros estão inseridos na bolha do escutismo, "podem ser eles próprios", ao mesmo tempo que lhes é incutida a necessidade de ter um papel ativo na sociedade.

De acordo com a sua experiência profissional, é notória a diferença entre as crianças que foram expostas a este tipo de vivências e as que não foram.

Escuteiros do Agrupamento de Alcobaça durante uma atividade no exterior.
Reprodução/Facebook Agrupamento 58 Alcobaça

Nova geração, novos desafios

Desde que enveredou por esta forma de associativismo a sociedade já sofreu profundas alterações. As crianças do início do século cresceram num contexto, em muito, diferente das crianças de hoje. A internet e a evolução tecnológica são as principais responsáveis pela dicotomia geracional que se verifica.

Ana Carolina sente que as crianças são "constantemente bombardeadas por estímulos" e que, nesse sentido, o escutismo revela-se fundamental pois obriga-as a estarem afastadas dos aparelhos eletrónicos. Portanto, promover o convívio e o contacto com os outros longe dos ecrãs é, para a dirigente, um dos pontos em que os responsáveis dos escuteiros mais insistem.

Há mais procura pelo escutismo, mas…

A chefe de unidade do Agrupamento de Alcobaça constata também que atualmente existe uma maior procura pelo escutismo, exatamente porque "os pais já identificam que os miúdos não gostam muito de estar com os outros, gostam mais de se isolar, de ficar em casa".

Contrariamente a esse aspeto, nota que o "sentimento de compromisso" é algo que escasseia nos dias que correm.

"As pessoas querem uma coisa para os filhos, mas não querem aquele compromisso de ir todas as semanas, ou ter o compromisso de fazer aquilo de forma rigorosa. Isso é uma dificuldade geracional dos pais. Já há cada vez menos gente a querer comprometer-se com algo assim, por isso é que também há cada vez mais dificuldade, não em ter miúdos, mas a ter adultos porque as pessoas também não se querem comprometer com tanto rigor", refere.

Encontro de Escuteiros da Região de Lisboa, em Lisboa.
Reprodução/Agrupamento 58 Alcobaça

Objetivos do Corpo Nacional de Escutas

"Deixar o mundo um pouco melhor do que o encontraste" é um lema que é transversal a todos os escuteiros espalhados pelos quatro cantos do globo, não fosse esta uma das frases mais emblemáticas de Robert Stephenson Smyth Baden-Powell, precursor do movimento escutista.

E é por essa razão que Ana Carolina garante que servir ao próximo e "estar sempre alerta" é o principal desígnio do Corpo Nacional que, recorde-se, celebra este fim de semana 100 anos.