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Cuidado com as arribas: chuva já provocou 10 desmoronamentos na costa algarvia

Especialista alerta que o cenário de instabilidade é transversal à costa Sul e ainda vai durar. Há caminhos cortados em Olhos d’Água, em Albufeira, e um recuo que chega aos 3,5 metros em Forte Novo, na Quarteira.

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A chuva abundante deste Inverno, depois do longo período seco, já provocou 10 desmoronamentos de arribas ao longo da costa algarvia, desde outubro.
Os técnicos da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) têm redobrado esforços de monitorização nas últimas semanas, tentando identificar as situações mais críticas que requerem intervenção, seja limitar acessos e reforçar a sinalética, seja até mesmo precipitar a queda de forma controlada.
Óscar Ferreira, especialista em dinâmica costeira da Universidade do Algarve, explica que “apesar da chuva não ter alterado a dinâmica do litoral”, no que toca às arribas “a quantidade de água superior agrava a sua instabilidade natural”. E o pior, refere, é que, se no litoral é possível aplicar modelos de previsão da evolução, o mesmo não se passa com as arribas: “por vezes nem sempre caem exatamente quando o mar está a bater sobre elas, podem até cair posteriormente, por isso é de ter uma salvaguarda e evitar passear junto à base das arribas”.

Fendas preocupam em Olhos d’Água

Há já uma semana que Manuel Lourenço teve de mudar pesqueiro aos sargos. A arriba de onde lançava a linha, na Praia de Olhos d’Água, em Albufeira, está vedada. “Está para lá umas fitas e não se pode ir para lá”, conta.
Foram instaladas pela APA e pelo Município de Albufeira, depois dos vários desmoronamentos que vêm ocorrendo desde o início do ano terem posto a descoberto uma fenda que ameaça o colapso de um bloco de grandes dimensões, na zona nascente da praia.
Uma ação de emergência, protagonizada pelos Bombeiros Voluntários de Albufeira, desmontou parte da arriba a 31 de janeiro, mas, para devolver alguma segurança àquele troço, vai ser necessário recorrer a maquinaria pesada.
Até lá, o caminho pedonal sobre as arribas da Praia de Olhos d’Água, em Albufeira, está cortado, quanto baste, por fitas e avisos de instabilidade. Maria Luísa, funcionária do município nas instalações balneares, diz, ainda assim, que nem todos as respeitam.

Arribas de Forte Novo recuaram 3,5 metros

Na Praia do Forte Novo, em Quarteira, o inverno também vem deixando as suas marcas, depois do temporal que há um ano levou boa parte do areal. Há zonas onde a arriba já recuou 3,5 metros.
“Houve quedas de blocos associadas tanto à pluviosidade, quanto agora ao desprovimento de areia existente na zona, visto que há já algum tempo que deveria ter existido uma realimentação no local e, ao não existir, a arriba fica mais exposta”, faz notar Óscar Ferreira.
O reforço de quase 7 quilómetros daquele areal para proteger as arribas está em concurso. Vai custar mais de 14 milhões de euros, provenientes do Programa de Acão Climática e Sustentabilidade. O Ministério do Ambiente prometeu fazer a intervenção ao final do ano, mas o proprietário do restaurante de praia teme que possa vir tarde.
“[O mar] já fez um pouco de estrago na zona da frente, mas precisava era de areia para tapar outra vez”, conta Rogério Dores, que recorda outras ocasiões em que o mar entrou pela porta do estabelecimento.