Além da Assembleia da República, também o Palácio de Belém terá sido um dos alvos de um eventual ataque planeado pelos neonazis detidos na passada terça-feira pela Polícia Judiciária.
Um dos líderes do movimento armado seria um chefe da Polícia Municipal de Lisboa. O pai da deputada do Chega, Rita Matias, foi identificado entre os participantes de um grupo de conversas pertencente aos neonazis.
A SIC teve acesso ao despacho de indiciação: o Ministério Público refere planos de recrutamento e aquisição de armas 3D — algo nunca antes detetado em Portugal.
Está prestes a nascer mais uma destas armas: indetetável, sem número de série, fabricada em poucas horas numa impressora 3D.
Nos Estados Unidos, são conhecidas como ghost guns, ou armas fantasma. Nunca tinham sido encontradas em Portugal. Até agora.
O arsenal do movimento
As imagens da Polícia Judiciária mostram parte do arsenal do Movimento Armilar Lusitano — um grupo neonazi detetado pela Judiciária que chegou a discutir a hipótese de um ataque à Assembleia da República. O plano incluía também uma eventual invasão ao Palácio de Belém.
A conversa, intercetada pela PJ através de aplicações de mensagens encriptadas, sugere um ataque à residência oficial do Presidente da República.
Mas entre os membros do grupo neonazi surgiu uma preocupação: a proximidade da polícia. A 26.ª esquadra da PSP fica a escassos 100 metros do Palácio de Belém.
A pouco mais de dois quilómetros, está a 4.ª esquadra de Investigação Criminal, bem como a sede da Direção Nacional, também em Alcântara.
Um obstáculo logístico que levou o grupo a recuar. O plano foi abandonado, mas os objetivos mantiveram-se.
O despacho do Ministério Público, a que a SIC teve acesso, revela que o movimento tem vários anos. A página de Facebook foi criada em 2018, com o propósito de difundir ideologia neonazi.
As teorias da conspiração e o negacionismo
As teorias da conspiração e o negacionismo ganharam força a partir de 2020, com o início da pandemia. No ano seguinte, começou o processo de recrutamento para o braço armado do grupo, feito através de aplicações como o Telegram e o Signal.
O Ministério Público descreve o Movimento Armilar Lusitano como uma organização política com apoio de uma milícia armada. Uma estrutura com a estratégia de instigar à violência, derrubar a democracia, eliminar o Estado de Direito e incentivar a aquisição de equipamentos e armas como as agora apreendidas.
A Polícia Judiciária deteve seis pessoas. Duas ficaram obrigadas a apresentações semanais às autoridades. Quatro estão em prisão preventiva.
Seriam a cúpula do movimento. Um deles, chefe da PSP, exerce atualmente funções na Polícia Municipal de Lisboa. É apontado como o responsável pelo recrutamento para o Movimento Armilar Lusitano.
O grupo fechado no Facebook tem vários membros. Um deles é Manuel Matias — militante do Chega, ex-assessor do partido de André Ventura e pai da deputada Rita Matias.
Até ao momento, continua sem responder às perguntas da SIC.
