Fernando Leal da Costa, ex-ministro da Saúde, analisa, na antena da SIC Notícias, a polémica morte em dia de paralisação do INEM, uma situação causada, no seu entender, por um conjunto de fatores. Na sua intervenção, o antigo responsável pela tutela da Saúde explica a razão pela qual não acredita que a demissão da ministra da Saúde seja a solução para os problemas que se têm vindo a verificar no setor.
Fernando Leal da Costa considera que as falhas dos profissionais do INEM, que levaram à morte de um utente, e a greve dos profissionais do INEM “são acontecimentos indissociáveis” e aponta que nesse dia, 4 de novembro,“mais de metade” das chamadas feitas para a linha de emergência “não puderam ser atendidas em tempo útil” ou não foram atendidas de todo.
“E, naturalmente, no caso concreto deste infeliz falecimento, e há mais uns quantos em investigação, aquilo que terá acontecido é que a chamada não foi atendida em tempo útil. Depois terão acontecido alguns episódios de má coordenação, mau entendimento, há muita coisa que ainda falta apurar, do qual redundou a chegada demasiado tardia da VMER, que era a ambulância adequada, e, infelizmente, este nosso compatriota acabou por falecer”, lamenta.
"Os sindicatos não estiveram bem"
O antigo ministro constata que o Governo falhou porque “terá sido apanhado demasiado tarde face à necessidade de definir serviços mínimos”, mas também aponta o dedo à direção do INEM, que acusa de “não se ter apercebido” da situação.
“E também, apesar de negarem esse facto, eu penso que os sindicatos não estiveram bem. Por uma razão muito simples: porque se eles estavam tão preocupados com a existência de serviços mínimos, e se sabiam que o Governo e o INEM não tinham cumprido aquilo que era obrigatório fazer [...] tinham, seguramente, a obrigação de, confrontados com esse facto, nem que fosse adiar a greve. E teriam ganho muito mais com isso”, assinala.
Agora, defende, o Executivo deve “identificar os problemas que existem no INEM”, resolvê-los, “apresentar um calendário para a solução dos problemas e responder aos portugueses e ao Parlamento relativamente a isso.”
Fernando Leal da Costa entende, no entanto, que a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, não se deve demitir. “A solução nunca é demitir”, afirma.
“Desse ponto de vista, eu acho que aquilo que compete um membro do governo quando é confrontado com qualquer coisa que está mal é resolver esse problema ou criar as condições para que ele se resolva. Não é fugir do problema, isso de todo que não”, explica.
O calvário das urgências encerradas
No fim de semana, várias urgências de ginecologia, obstetrícia e pediatria vão estar encerradas. Quer isto dizer que se antecipa, novamente, um verão complicado?
O ex-líder da tutela acredita que sim devido à falta de profissionais de saúde e aponta uma solução:
“Aquilo que é mais honesto fazer é assumir a concentração de urgências de forma que fique claro onde é que elas estão e durante que horas funcionam. Onde, eventualmente, essas urgências não tiverem disponíveis encontrar soluções alternativas, nomeadamente para a questão da assistência a parturientes, mas claramente tem de se encontrar uma solução em que não haja flutuações de aberturas e concentração de meios, o que não é tão fácil como possa parecer porque depende também da vontade dos profissionais que são convocados a deslocarem-se, muitas vezes, para sítios que não são o seu local habitual de trabalho.”
Fernando Leal da Costa diz mesmo que Portugal “não tem meios, nem gente suficiente para manter tantos serviços de urgência quanto aqueles que neste momento são previstos em termos legais”.