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Saída de Mithá Ribeiro do Chega: "Havia muita falta de respeito em relação ao trabalho que ele fazia internamente"

Gabriel Mithá Ribeiro diz que saiu da Assembleia da República após ter ficado fora do governo-sombra escolhido por André Ventura. Num artigo de opinião, acusa o líder do Chega de ser um "predador narcísico", num partido cada vez mais "disfuncional".

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Na "Divina Comédia" de Dante, o inferno aproxima-se a cada pecado cometido e Gabriel Mithá Ribeiro diz que André Ventura já praticou os sete. Num artigo de opinião publicado no Observador, o ex-deputado do Chega, acusa o líder de ser um predador narcísico. Adjetivo que utilizou 29 vezes para caracterizar ventura. Diz que foi durante anos uma espécie de deputado-joguete nas mãos do líder.

“Havia muita falta de respeito em relação ao trabalho que ele fazia internamente. Era uma figura cada vez mais isolada. O partido não tem, como ele próprio descreve, grande paciência para discutir ideologia. A ideologia foi um brinquedo que lhe foi entregue para depois serem apresentadas listas de supermercado como ele diz. Quando se aproximavam momentos eleitorais”, explica Miguel Carvalho, jornalista e autor do livro “Por Dentro do Chega”

“Esse patrão narcísico continua a tutelar deputados, assessores e técnicos numa Assembleia da República que não se pode furtar a enfrentar o problema. (...) André Ventura não consegue conter o seu demónio vingativo contra quem o critique (...) Isso tem nome: abuso de poder narcísico”, escreveu Mithá Ribeiro no artigo de opinião. 

“A surpresa aqui são os termos que ele usa, ou seja, ele faz o retrato de um partido muito perigoso caso ele alguma vez chegue ao poder”, acrescenta Miguel Carvalho.

Mithá confirma neste artigo que abandonou o Parlamento depois de ter ficado fora do governo-sombra. Uma justificação diferente da dada por André Ventura que a  22 de setembro, dizia que a saída de Mithá Ribeiro estava relacionada com razões pessoais. 

“Este caso demonstra que Ventura mentiu durante a campanha. Isto também terá razões pessoais, mas obviamente a decisão é tomada pelo líder no sentido de o afastar. Surge no mesmo contexto em que é conhecida a entrevista que ele me deu para o livro e, segundo as notícias que vieram a público, terá sido um dos motivos do seu afastamento. Ele foi afastando todas as pessoas que ele considerava que lhe faziam sombra. Se houver mais incidências ou mais afastamentos. Será por um lado porque o chefe não gosta das pessoas, ou porque essas pessoas na mercearia interna do Chega não foram contempladas”, disse Miguel Carvalho.

Gabriel Mithá Ribeiro é a fruta mais madura desta "mercearia" que é o Chega e como tal, deve ser tida em conta.