Esta segunda-feira, Paloma Mendes, amiga da família, revelou na SIC Notícias que os familiares vão avançar com uma queixa contra a ministra da Saúde, Ana Paula Martins. Criticou ainda o primeiro-ministro, Luís Montenegro, "que continua sentado na sua cadeira" a assistir ao caos nos serviços de obstetrícia.
"A ministra vai para o Parlamento, falar à frente de milhares de pessoas que esta pessoa é mais uma imigrante que não sabe falar português, veio com uma gravidez tardia e que a primeira consulta dela tinha sido às 38 semanas, sem sequer ter dados para fazer tamanha afirmação", condenou.
A amiga da família de Umo apontou o dedo a Ana Paula Martins, por ter lamentado apenas hoje a morte da grávida e questionou: "Quantas vezes vamos lamentar a morte de grávidas?"
Paloma Mendes disse ainda que Umo estava a ser acompanhada desde junho, quarto mês da gestação, no centro de saúde de Agualva-Cacém, onde fazia exames e ecografias. Só na reta final, passou a ser acompanhada no hospital Amadora-Sintra, onde iria realizar o parto.
De acordo com a amiga, Umo tinha ido a consultas no hospital nos dias 17 e 29 de outubro, sem sinais que justificassem internamento, embora o boletim de grávida indicasse "gravidez de risco". Revelou que, na última ida ao hospital, a grávida tinha apresentado um quadro de hipertensão, tendo sido despistada o diagnóstico de pré-eclâmpsia.
O comentador da SIC, Tiago Correia, considera que a reforma na saúde de 2024, que culminou na criação de 31 novas Unidades de Saúde Locais, foi tempo perdido porque os profissionais de saúde continuam sem conseguir aceder a todas as informações do utente.
"Vejo aqui um problema que não vi na semana passada. Disse que o SNS tinha respondido, que supostamente não havia registo. Agora descobre-se que os hospitais e centros de saúde não partilham informação. Andamos a perder tempo com novas estruturas e conselhos de administração, quando o problema já existia e continua cá", afirmou.
A médica de Medicina Geral ou Familiar, Margarida Santos, confirmou o quão difícil é a comunicação entre unidades de saúde, apesar de os sistemas serem partilhados. Diz que o caso de Umo "é um reflexo trágico de um problema" de anos, que não se resolve com a demissão da ministra da Saúde.
"Na teoria os sistemas são todos partilhados, mas na prática temos mais de três sistemas informáticos. (...) Percebo que um médico que esta numa urgência caótica que não consiga perder 40 minutos com um sistema que não funciona a procurar a informação toda", apontou.
Margarida Santos explicou ainda que o hospital Amadora-Sintra "é dos mais problemáticos em termos de recursos" e que "a falta de meios, misturada com má gestão", pode ter sido determinante.
"Tenho a certeza de que o médico que a viu a teria internado se houvesse camas vazias e disponibilidade de médicos. Pensou-se: ela está estável, as análises estão bem, vamos gerir e ver como evolui. Isto vai continuar a acontecer enquanto tivermos grávidas mal vigiadas e serviços de obstetrícia que não funcionam."
E acrescentou:
"Têm de ir mais aos hospitais, talvez a menos eventos da Fórmula 1, que também acredito que sejam importantes para Portugal. Mas têm de ir mais ao Amadora-Sintra, às urgências, aos centros de saúde", apontou a médica.
Umo Cami morreu na sexta-feira, na sequência de uma paragem cardiorrespiratória. A filha, que nasceu de uma cesariana de emergência, não resistiu e morreu no domingo de manhã no hospital Amadora-Sintra.
