Emília tem 83 anos e vive sozinha, na companhia dos gatos que lhe aparecem à janela. As pernas já não ajudam na sua mobilidade e as escadas menos ainda. Na solidão das horas, raras são as vezes que sai à rua. Mas faz questão de abrir a porta a quem tem tornado os dias menos sós, a organização "Porta Solidária".
Com uma reforma pequena e alguns problemas de saúde, o apoio da "Porta Solidária" tem sido fundamental, desde a ajuda à higiene, à alimentação e outros cuidados que sejam necessários.
A visita são apenas alguns minutos, mas que valem o dia inteiro. O ideal, como explica Madalena Martins, a assistente social, seria Emília ter outro "tipo de ajuda e ser encaminhada para um lar ou outro tipo de apoio", mas "a ideia de saírem da sua casa e irem para um lar é assim um bicho de sete cabeças, têm muito medo do que lhes possa acontecer".
Noutra casa, não muito longe, a história de Dina é mais um retrato de solidão.
"É uma pessoa que está sempre ligada ao oxigénio, que tem graves problemas respiratórios, que vive sozinha num quarto, divide a casa com outros inquilinos. Tem uma filha, mas a filha também tem imensos problemas e acaba por não ter aqui tanta facilidade em apoiar a mãe", descreve Emília.
São casos diferentes com o mesmo denominador. Idosos isolados e sem retaguarda, dependentes de um apoio que nem sempre chega a todos. "Trabalho na área há cerca de seis anos e sinto que realmente a situação tem piorado bastante", afirma Madalena Martins.
Na região do Porto, onde esta organização presta apoio aos idosos, estão referenciados 15 mil casos de idosos isolados, sendo este um problema que se agrava numa cidade cada vez mais envelhecida.