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Drag Queens: a evolução de uma arte

Há quem lhes chame Drag Queens. Há quem lhes chame Travestis. Há quem fale em transformismo. Um termo que foi evoluindo desde as primeiras atuações, numa arte que está longe de conhecer o fim dos seus dias. 

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Anos depois da chegada deste tipo de arte a Portugal, o mundo das Drag Queens está mais vivo do que nunca. Conversámos com três figuras incontornáveis: duas que começaram a carreira nos anos 70 e outra que nasceu no ano passado e é já um sucesso.  

Falamos de Sincera Mente, um fenómeno das redes sociais, conhecida pelo seu lado mais cómico. Entre o Instagram e o TikTok soma mais de 300 mil seguidores. No TikTok tem mais de três milhões de gostos. 

“Sou só eu a ser eu. A explorar aquilo que eu gosto de fazer e a forma como gosto de me apresentar. Saber que há tantas pessoas que eu não consigo materializar... Costumava dizer que estas pessoas não me cabem no quarto! Agora também não cabem em casa, e acho que não cabem no prédio”, brinca Sincera Mente. 

Começou a correr Portugal de norte a sul (sem esquecer as ilhas). Vestida a rigor, dá a conhecer o país e as culturas locais, interagindo com quem passa. 

“Faço tudo da minha cabeça. Contacto designers, normalmente o meu designer e o meu cabeleireiro. São a Equipa-mente. E preciso sempre da pessoa que me grava, com muita paciência”, explica. 

Meses depois de criar a Sincera Mente, os fãs pediram um espetáculo ao vivo e ela atendeu ao pedido. Deu o salto das redes sociais, e esgotou todas as datas no teatro Villaret, em Lisboa, e no Sá da Bandeira, no Porto. 

O maior desafio que eu enfrento é ainda ter que moldar mentalidades, é ainda ter que dar o pontapé na porta”, confessa. “Faço-o com muito prazer, mas ainda sinto que é um desafio. E sinto que ainda há uma certa resistência, até em espaços artísticos, de receberem uma Drag Queen. Há plataformas que ainda não acham que é o lugar certo para uma Drag Queen. Ainda veem algum preconceito, alguma maldade nesta arte”. 

Um preconceito que, por vezes, sente no momento em que grava os vídeos na rua.  

Eu sou só uma pessoa de peruca. As pessoas não estão habituadas a ver uma Drag no daytime, durante o dia, na rua. Estão habituadas a vê-las à noite, em cidades centrais e numa discoteca. Mesmo que haja alguma resistência, acho que o humor e a simpatia derrubam essas barreiras. Eu tento sempre responder com simpatia e com generosidade. Eu não estou a viver a minha vida, eu estou a explorar a parte artística da minha vida. E eu preciso, de alguma forma, que as pessoas contribuam com isso. Eu não vou estar num bate-boca eterno, apesar de ter alguns olhares meio tortos. O que importa para mim são os olhares que são positivos”. 

Mas foi preciso alguém que abrisse caminho para uma drag queen poder pisar o palco de um teatro. Domingos Machado criou a Belle Dominique em 1976. Na altura, valeram-lhe os bares e as discotecas.  

Começou com uma brincadeira. Há uma noite em que vou a um bar em Lisboa que já não existe, o Memorial”, conta. “Estava lá um colega meu de tropa a fazer espetáculos de travesti. Ele sabia que eu tinha gosto pelo espetáculo e pela música. Convidou-me para eu entrar no espetáculo dele a fazer umas gracinhas”. 

Mas em 1993 surge o convite para dar o salto para a televisão. Primeiro no programa de apanhados da SIC, Minas e Armadilhas, com Júlio César, e mais tarde no Big Show Sic, com João Baião.  

Para mim foi uma oportunidade única que eu aproveitei muito bem, acho eu”, diz Domingos. “Dediquei-me por completo porque percebi a responsabilidade que era levar uma figura travesti para um meio televisivo”. 

Em 2015, Domingos decidiu arrumar os saltos e as perucas, e deixar para trás mais de 40 anos de Belle Dominique.  

A partir de uma certa idade, a minha imagem podia tornar-se um pouco ridícula. Porque já não seria aquela imagem da Belle Dominique divertida, jovem, com graça. Achei que era o momento certo”. 

Praticamente na mesma altura, nasceu Deborah Krystall pela vontade de Fernando Santos.  

A ideia de criar a Deborah Krystall começou de muito menino, de ver alguns filmes que estavam muito na moda quando tinha 12 anos. Atrizes e cantoras ao mesmo tempo, espanholas. Então ficou um bocadinho do glamour daquelas estrelas de cinema”, conta Fernando. “Mais tarde vi um espetáculo de Drag e fiquei fascinado porque foi como transportar as grandes revistas do Parque Mayer para um espaço mínimo que eu achei mais possível para mim”. 

Domingos e Fernando começaram já depois de revolução do 25 de Abril de 2025. Dizem que o preconceito sempre existiu. 

Antes do 25 de abril já se faziam estes espetáculos, mas clandestinamente. À porta fechada”, relembra Domingos. “Depois do 25 de abril é que se começou a assumir mais em espaços públicos. No princípio era mal visto, mal-olhado. Nem era considerado arte”. 

Fernando diz que apesar de ser um período pós-censura, houve pontos positivos. 

Uma coisa muito importante foi a novidade e a explosão da novidade”. 

Fernando continua no ativo. Atualmente, é diretor artístico do Finalmente, uma das casas mais conhecidas do espetáculo de Drag Queens em Lisboa, onde atua todas as noites.  

O Finalmente é uma casa com magia, um milagre próprio. Às vezes parece que vive por ela própria. Passou por grandes transformações e grandes dificuldades. Acho que hoje está na melhor altura”.