Só nos primeiros 5 meses de 2025, os médicos asseguram 2 milhões e 400 mil horas de trabalho suplementar, com um custo superior a 114 milhões de euros. Os sindicatos criticam este modelo que faz das horas extra uma regra e alertam para as consequências na prestação de cuidados.
"Isto é grave porque nós não estamos a falar de boa vontade ou espírito de missão, nós estamos a falar de um serviço que ultrapassa os limites legais em grande escala e coloca médicos e doentes em risco", alerta Joana Bordalo e Sá, da Federação Nacional dos Médicos.
"Nos serviços de urgência, neste momento, já são feitas as escalas tendo como princípio o uso destas horas extraordinárias. Há colegas que chegam a ter por ano cerca de 600 a 800 horas extraordinárias, avisa Maria João Tiago, do Sindicato Independente dos Médicos, acrescentando que "se dividirmos estas horas por semanas de 40 horas dá mais em trabalho 20 semanas, o que equivale a cerca de 4 meses a mais".
O jornal Público analisou os dados da Administração Central do Sistema de Saúde e concluiu que dos quase 23 mil médicos e internos com registo de horas extra realizadas, mais de 8.300 já tinham ultrapassado o limite legal em novembro. Isto é, 36,3% dos médicos já tinham feito mais de 150 horas extra ou 250 no caso de terem aderido ao regime de dedicação plena.
Se olharmos para dados de julho, dos mais de 11 mil médicos que tinham realizado trabalho suplementar, mais de 3.700 já tinham excedido o limite legal.
"Isso trás várias consequências, desde logo a exaustão e o burnout do médico e depois também faz com que haja menos procura e menos fixação no SNS. Se eu à partida já sei que a minha vida vai ter pelo menos mais 600 ou 800 horas extraordinárias, obviamente que eu vou procurar outras alternativas", alerta Maria João Tiago.
"Isto é uma escolha política porque o primeiro-ministro, Luís Montenegro, ainda nada fez para mudar este cenário. Prefere manter o SNS dependente das horas extraordinárias e da prestação de serviços, em vez de resolver o problema estrutural da falta de médicos", sustenta Joana Bordalo e Sá.
A maioria do trabalho suplementar é feito nas urgências, onde faltam equipas dedicadas. Os sindicatos sublinham que muitos destes serviços só funcionam à custa do esforço dos médicos.
