Um dos depoimentos mais significativos de uma das pessoas afetadas pela brutal tempestade que assolou o centro do país, em especial o distrito de Leiria, seguida de um apagão que ainda persiste, foi o de uma senhora que declarou aos microfones da SIC que teve de ir comprar um mini-fogão a gás. “Cá em casa é tudo elétrico”, disse.
Sem o saber, esta cidadã portuguesa é mais uma das vítimas de uma errática política de transição energética que tudo quer eletrificar em nome de um radicalismo ambiental tecnicamente errado e socialmente injusto.
A Comissão Europeia e os sucessivos governos portugueses desde há anos que insistem que se deve eletrificar praticamente todo o consumo doméstico de energia, tal como a mobilidade automóvel e o máximo possível de consumos industriais.
Faço notar que a mesma Comissão Europeia, pressionada pelas consequências da subida brusca da inflação no início desta década e da guerra da Rússia à Ucrânia, declarou o gás natural como uma energia verde.
Mais papistas que o Papa, os governantes portugueses decretaram morte ao gás natural e aos gases de petróleo liquefeitos (GPL, o vulgar gás de botija, butano ou propano) como energias muito poluidoras.
Daí a vermos um governo, (que não tem alguns milhões de euros para contratar mais médicos e enfermeiros para o SNS), a anunciar dezenas de milhões de euros em apoios para as famílias trocarem os fogões e esquentadores a gás natural ou de botija por equipamentos exclusivamente elétricos, foi um ápice.
Faço notar que os apagões em Portugal, em especial desde o apagão generalizado de dia 28 de abril passado, têm-se multiplicado a nível regional e local. Basta lembrar as dezenas de apagões ocorridos um pouco por todo o país na altura de Natal e fim de ano, que atingiram diretamente muitas famílias sendo impedidas de festejar condignamente a quadra festiva.
Ao contrário do que pensam os incautos, os apagões de eletricidade vieram para ficar: o alastramento progressivo das fontes de eletricidade intermitentes como a solar e a eólica não foi acompanhado do reforço das fontes de energia constante (geradoras de inércia em relação às eventuais interrupções) nem dos correspondentes investimentos no reforço das redes de baixa, média e alta tensão. Não só se degradou a qualidade da energia recebida nos pontos de consumo como se reduziu a fiabilidade de toda a rede.
Acresce que, em meio urbano concentrado, é técnica e economicamente mais fácil fazer estes reforços pontuais, mas na maior parte do território nacional, a qualidade e a fiabilidade dos fornecimentos de eletricidade têm caído a olhos vistos. Além disso, a transição energética tem-se mostrado regionalmente assimétrica e socialmente desigual, deixando muitos portugueses mais pobres do interior completamente desprotegidos. São eles que pagam impostos mais pesados e taxas mais altas pela utilização de gás de botija e carros a combustível líquido.
Perante os cenários descritos, como classificar a atitude dos governos que incentivam as pessoas a acabar com os fogões e esquentadores a gás? Estarão a protegê-las ou a desprotegê-las?
Na minha opinião, mal anda um Governo, em especial a ministra do Ambiente, que quer acabar com a diversificação de fontes de energia como o gás natural e o GPL: assim deixa as populações completamente desprotegidas das eventualidades extremas, como os efeitos da tempestade brutal desta semana.
Mais avisada, a antiga APETRO, a Associação dos Produtores e Distribuidores de Produtos Petrolíferos, agora chamada EPCOL, chama a atenção através de um comunicado para o seguinte: “…persistem elevados níveis de pobreza energética, limitações à expansão das redes elétricas e dificuldades de financiamento que tornam a eletrificação universal um objetivo distante no curto prazo. É neste espaço intermédio que o GPL (butano e propano) tem vindo a assumir um papel pragmático como combustível de transição”.
Acrescento eu: acabar com o consumo doméstico de GPL e gás natural em Portugal é um erro económico crasso e uma armadilha traiçoeira para as populações. Mais cedo ou mais tarde, os governos serão acusados de ter levado as pessoas ao engano.
O mesmo se aplica à mudança completa do parque automóvel para a eletrificação total, que irá inevitavelmente conduzir ao desmantelamento da rede de postos de abastecimento de combustíveis líquidos. (Um erro estratégico sem precedentes se for cometido, basta pensar na fragilidade que representará a eletrificação da mobilidade militar, das forças de segurança, do transporte pesado de mercadorias, do transporte marítimo e aéreo, etc.)
Que pensará quem tem carros exclusivamente elétricos, nas cidades e vilas afetadas pelos apagões, desta política de transição energética acelerada e imprudente? Não seria melhor manter os carros de motor a combustão e híbridos em coexistência com os exclusivamente elétricos por muito mais décadas?
Na verdade, é exatamente isto que está a acontecer em países tão amigos e defensores do meio ambiente como os da região da Escandinávia: as famílias estão a manter pelo menos um carro de motor de explosão a combustível líquido para fazer longas distâncias e a usar carros elétricos para curtas distâncias ou para o meio urbano, independentemente do que os respetivos governos os aconselham ou não a fazer.
Insisto, o radicalismo ambiental que se instalou no seio do governo português e que quer acabar com os equipamentos domésticos a gás natural ou GPL e acelerar para a eletrificação a 100 por cento é uma armadilha para as populações.
Uma terceira área a precisar de outro tipo de intervenção pública tem a ver com a rede Multibanco que por lei é de utilização gratuita. Neste caso os governos pecam não por ação, mas por omissão. Pouco ou nada fazem, mas deviam fazer.
Como sabemos, a rede de caixas Multibanco está sobretudo concentrada no litoral e nos grandes aglomerados urbanos. Em muitas freguesias do interior, já sem balcões de bancos há muito tempo, tem vindo também a perder o acesso a este serviço.
Sendo os bancos os acionistas da empresa SIBS, proprietária da rede, e sabendo-se que estes se orientam pela obtenção de lucros, é legítimo que os procurem maximizar também neste negócio;
Sendo também certo que as caixas eletrónicas têm custos diversos como o próprio serviço de abastecimento de notas, o papel e tinta, a energia, os equipamentos de vigilância, a manutenção, o pagamento do espaço utilizado e as consequências de atos de vandalismo e roubo;
Também sabemos todos que a profunda reestruturação dos bancos portugueses no início da década custou muito caro aos contribuintes em subsídios diretos e indiretos, benefícios fiscais e responsabilidades acrescidas com a Segurança Social (os ativos transferidos pelos bancos para a Previdência da Segurança Social nem de perto nem de longe cobrem as responsabilidades futuras).
Assim, o facto de o serviço Multibanco ser gratuito por lei deve ser entendido como a mais que justa compensação do sistema bancário ao país pela ajuda que recebeu.
Deixar diminuir o número de caixas Multibanco no território nacional é um erro dos governos. Legislar no sentido de reforçar o carácter de serviço público universal desta rede é uma urgência imperativa, como pede o PCP há muito tempo. E havendo eventuais resistências por parte dos acionistas privados, o Estado tem todos os meios para fazer acontecer mais Multibancos para todos, em todo o país…
Por ação errada, ou omissão culposa, os sucessivos governos estão a falhar em várias áreas prejudicando a sociedade.
As que aqui ficam apontadas, merecem políticas mais realistas e corajosas e menos seguidismos de modas erráticas.

