Rui Correia

Cronista SIC Notícias

Educação

Opinião

O meu rico menino

Fala-se pouco deles. São os miúdos que têm tudo. Bicicletas, skates, telemóveis, pranchas, trotinetas, motas, carros, roupas de marca, cabeleireiros e manicure, bilhetes vip para concertos e festivais, férias no outro lado do mundo em resorts exclusivos, festas dispendiosas, aniversários gourmet, iates e motas de água, casas de campo e de praia, arsenais de tecnologia de entretenimento que fazem invejar qualquer um. Vivem rodeados de dinheiro a rodos para satisfazer todos os seus caprichos. Eles existem. As escolas conhecem-nos bem.

O meu rico menino
shih-wei/GettyImages

Fala-se muito dos meninos que vivem dificuldades materiais severas. E está muito bem que muito se fale. Nada é mais justo e mais nobre do que devolver a estes miúdos a mais básica noção do valor e do potencial que têm e que, na maioria das vezes, desconhecem.

Os professores fazem isto todos os dias, em todas as escolas. É uma tarefa particularmente crítica num país onde a maioria dos miúdos conhece na pele o que é não ter dinheiro para pagar as contas ao fim do mês.

Mas não deixemos ninguém para trás. Há também aqueles a quem “não falta nada”. Os tais que “têm tudo”. Os meninos e meninas que fazem parte daquilo a que Sunya Luthar designou a “Cultura da Afluência”. São normalmente apontados como miúdos que partem à frente de todos os outros. E é verdade.

Têm absolutamente todas as condições à partida para deixar todos os seus pares para trás. E, no entanto, não deixam.

A taluda existencial

Um contexto familiar favorecido promete um sem-número de vantagens, mas nem sempre cumpre o prometido. Muitos colégios e escolas públicas conhecem bem estas realidades. Há coisas que o dinheiro paga, mas há coisas que o dinheiro não apaga. Alunos destes trazem aos professores amplas oportunidades de aprendizagem.

Cuidar de um miúdo implica também saber lidar com a especificidade da sua condição socio-económica. Afluente ou destituído, o miúdo precisa de ajuda e nem é raro que a recuse categoricamente.Começamos sempre por julgar que os problemas de uns são muito diferentes dos outros, mas cedo nos apercebemos de que nem por isso.

Em primeiro lugar, importa começar por recordar o óbvio: nenhum miúdo é responsável pelo meio social em que nasceu. Não é culpado por ser rico. Como também não pode ser tratado como o privilegiado que não precisa de nada. Pertencer a uma família endinheirada ou a uma família pobre não passa de uma roleta, um jogo de sorte e azar.

Infelizmente, ser próspero ou milionário não traz consigo qualquer imunidade às múltiplas pressões que se abatem sobre uma criança. Mas há especificidades que ocorrem aqui com especial incidência. Não é raro encontrar em muitos destes miúdos possidentes sinais preocupantes de representação pessoal.

Elitismo, discriminação, exclusão, intimidação, agressividade, indiferença, pesporrência, desprezo pelas regras. Desligados de uma realidade sociologicamente plural, vivem afectivamente numa espécie de exílio de altivez, que aprenderam necessariamente com alguém.

O meu não precisa

São visíveis os transtornos que cada escola detecta em muitos destes miúdos. Baixa tolerância ao erro, incapacidade de lidar com a frustração, recusa da autoridade externa, fácil irritabilidade e distanciamento emocional e social, desvalorização do esforço, competitividade tóxica, impaciência pela constante validação dos pares, diminuta empatia ou humildade intelectual, desbragada rebeldia com traços de excentricidade e elevado sentido de impunidade são traços frequentes nestes miúdos.

Mas encontramos também reclusão, isolamento social, profunda insegurança pessoal, timidez, reduzida iniciativa, desvitalização e abatimento, sobredependência de pais, tutores ou explicadores. São estes, na sua maioria, os diversos diagnósticos que uma escola quase sempre tem de enunciar para melhor acompanhar e seguir cada um destes miúdos.

Soado o alarme, os serviços de psicologia escolar tentam entrar, então, em acção. Deparam-se, todavia, muitas vezes com uma firme resistência de muitos encarregados de educação que recusam aceitar que os seus meninos precisem de ajuda. Muitos pais demoram anos, anos cruciais, até perceber como é impreterível o acompanhamento profissional clínico destes miúdos.

Pagar a pronto

Na maravilhosa canção dos Beatles “She’s leaving home” de 1967, os pais de uma menina que foge de sua casa às cinco da manhã ficam perdidos porque não entendem as razões daquela evasão juvenil. “Demos-lhe tudo o que o dinheiro pode comprar” (“We gave her everything money could buy ”). A canção termina em contraponto: “Alegria é a única coisa que o dinheiro não compra” (“Fun is the one thing that money can't buy”).

Aprende-se muito com as letras de algumas canções. A desconexão afectiva com a família ou com o quotidiano representam influentes instrumentos de fracasso escolar e pessoal. O excesso de protecção familiar quase sempre implica um prejuízo notório do sentimento de autonomia de uma criança.

Quando se dá o caso de existir uma pressão desenfreada para o sucesso académico que um estatuto social pressupõe, é frequente verificar-se que o aluno apenas aprenda para cumprir essas expectativas e não porque tenha qualquer prazer ou manifeste uma sincera curiosidade pelo conhecimento. É aqui que surge a voracidade dos “atalhos” para exibir esse sucesso.

Tudo se paga a pronto: a fraude escolar, a cábula, o suborno, a cunha, a influência, a batota, os gestos que humilham, as palavras que achincalham, a rivalidade com colegas convertidos em inimigos e a hostilidade perante a escola, o isolamento ou, mesmo, o consumo de substâncias ilegais.

A custódia da culpa

A escola tem a oportunidade de ajudar a descobrir o que se passa com estes miúdos. Baixa auto-estima ou estigma social, família superprotectora ou superausente, medo de rejeição ou mera inabilidade social; sobranceiro ou introvertido, prepotente ou encolhido é necessário encontrar os fundamentos reais e sinceros destes padrões comportamentais. E nada se pode conseguir sem que a família se converta num parceiro funcional.

Muitas destas situações implicam mesmo uma urgente terapêutica familiar. Códigos de exigência e de conduta social que se plasmaram nestas crianças consolidaram muitos destes traços, destas feridas, que agora os impedem, objectivamente os proíbem, de serem felizes.

O medo de defraudar expectativas irrealistas da família, a distância perante a natureza e o contacto com o lado irrisório da vida, o desdém pelas actividades manuais, artísticas, físicas ou artesanais, são elementos que concorrem para o desastre.

Parâmetros elevados de sucesso intelectual e social não constituem, evidentemente, qualquer obstáculo ao sucesso. Mas apregoar banalidades destas não serve de nada se a família não souber lidar serenamente com o fracasso continuado de um miúdo. A bizarria começa no momento em que a família encara o falhanço como um cataclismo intolerável.

As acusações voam, os divórcios entre famílias e escolas rebentam e no meio, enquanto discutem a custódia da culpa, há um miúdo à espera que uns e outros se calem de vez. Por vezes nada é mais eloquente do que o silêncio. Escutar funciona.

Não há dinheiro que pague

Na escola, a turma pode ajudar envolvendo-se em jogos de cooperação que rejeitam a competição. Todos ganham. O contacto com a diversidade social da vida real é decisivo. O exercício da solidariedade e da empatia funcionais através de iniciativas de voluntariado é fundamental para muscular o sentido de pertença, relevância e identidade.

A participação em exercícios de descoberta criativa e artística, pela música, pela literatura e a leitura de testemunhos humanos, pelo teatro, essa grande oficina de empatia, são poderosas ferramentas de descoberta, afirmação e segurança pessoal. São muitas as escolas que têm gabinetes de integração, clubes de cidadania e outras valências de acolhimento informal e formativo

O equilíbrio, a cumplicidade e a consistência produzem assombros. Todos os dias. Por vezes, a quem não falta nada, falta muitas vezes quase tudo. De nada serve viver atrás de um dedo apontado. Nenhuma criança é um condomínio fechado.