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"Matemática é o ginásio do cérebro": porque é tão difícil de aprender?

No Dia Internacional da Educação, olhamos para uma das disciplinas que mais dificuldades continua a causar aos alunos portugueses: a matemática. Rogério Martins, professor da NOVA FCT e rosto do programa Isto É Matemática, fala sobre preconceitos culturais, ansiedade, o papel do professor e o impacto da inteligência artificial no ensino.

"Matemática é o ginásio do cérebro": porque é tão difícil de aprender?
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É vista como difícil, abstrata e, muitas vezes, inútil para a vida real. No Dia Internacional da Educação, Rogério Martins, professor de matemática da NOVA FCT e divulgador de ciência, explica porque é que a matemática continua a ser um obstáculo para tantos alunos e o que pode (e deve) mudar.

Rogério Martins, professor e investigador mas mais conhecido do grande público pelo programa Isto É Matemática, da SIC Notícias, explica como a perceção da matemática como algo abstrato e desligado da vida real contribui para a desmotivação dos alunos, defende que a disciplina funciona como um 'ginásio do cérebro' e aborda os desafios que a Inteligência Artificial traz ao ensino.

Como os portugueses olham para a matemática

Ao longo dos anos em que comunicou matemática em televisão, Rogério Martins percebeu que a forma como os portugueses encaram a disciplina diz muito sobre os seus problemas no ensino.

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A matemática é vista sobretudo como algo ligado à escola e à infância e não como um conhecimento que vá ser relevante ao longo da vida adulta.

Essa perceção tem consequências profundas na forma como se aprende e se ensina matemática. Ao contrário de outras áreas, a disciplina raramente é sentida como algo real ou útil no quotidiano.

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Para muitos alunos, a matemática não parece fazer parte da vida adulta, o que contribui para a desmotivação e para a ideia de que é apenas um obstáculo a ultrapassar na escola.

Afinal, para que serve a matemática?

A pergunta é recorrente e, admite Rogério Martins, difícil de responder de forma simples. Ainda assim, a utilidade da matemática não está apenas nas contas que se fazem e mesmo quando não damos conta disso, influencia a forma como pensamos, escolhemos, tomamos decisões.

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Esse “lastro” constrói-se ao longo da escolaridade e as escolhas mais importantes da vida estão longe de ser neutras do ponto de vista matemático.

"Mesmo quando não fazemos contas explícitas, usamos intuições e raciocínios que foram treinados ao longo da escolaridade", salienta Rogério Martins.

Matemática como "ginásio do cérebro"

Para Rogério Martins, a matemática deve ser encarada também como um treino mental, um exercício que desenvolve uma forma racional de olhar para o mundo, tal como o ginásio desenvolve o corpo.

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“Na prática, a matemática pode ser vista como um desporto: não é só para aplicar, é para treinar o cérebro.”

"Não gosto de matemática": porquê?

A rejeição da matemática tem múltiplas causas e não se explica por um único fator. É de tal forma complexa e com tantas razões que o professor já está a planear escrever um livro: "já consegui identificar umas 20 causas" para o problema.

“A matemática tem muitos problemas. Há muitas causas a contribuir para o estado atual das coisas".

Uma das principais dificuldades está na própria natureza da disciplina: a abstração e "o cérebro humano está mais preparado para histórias, emoções e relações sociais do que para conceitos abstratos".

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"No final, a matemática não são as aplicações. A matemática é a estrutura teórica que está por trás. E o facto de ser abstrata torna-a difícil para o nosso cérebro".

A cultura do "bicho-papão"

A dificuldade é reforçada culturalmente, muitas vezes passada de geração em geração, uma normalização da dificuldade que cria um ambiente em que desistir parece legítimo.

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“É socialmente mais aceitável dizer que não se é bom a matemática do que dizer que não se é bom a ortografia".

Matemática como medida de inteligência

Outra razão que identificou, e que quer explorar no seu livro por considerá-la "original e mais exclusiva" é a associação entre matemática e inteligência.

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Essa perceção alimenta um fenómeno bem conhecido:

A ansiedade matemática

“Em matemática, o ego leva uma grande machadada. Essa ansiedade faz com que as pessoas não tenham uma prestação tão boa".

A ansiedade prejudica o desempenho e pode levar a um ciclo de insucesso difícil de quebrar.

Todos podem aprender matemática?

Tal como noutras áreas, haverá sempre diferentes níveis de aptidão, mas isso não deve ser confundido com incapacidade. Apesar das dificuldades da disciplina, Rogério Martins acredita que a matemática está ao alcance da maioria, desde que exista motivação, tal como "quase todos podem aprender a jogar basquetebol, mesmo que nem todos cheguem à NBA".

Reconhece que há pessoas com maior aptidão natural, como acontece no desporto ou na arte, mas defende que esse “talento” muitas vezes se constrói muito cedo, através do incentivo e do reconhecimento: uma boa nota elogiada, um sucesso valorizado em criança, pode levar alguém a investir mais e a acreditar que “é bom” a matemática.

O papel do professor e relacionar a matemática com a realidade

O professor continua a ser uma figura central na aprendizagem, cabe ao professor inspirar, sobretudo numa disciplina abstrata como a matemática, "criar ligação emocional ao conhecimento é tão importante como transmitir conteúdos".

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“Para aprender, o aluno tem de se emocionar. A indiferença não ensina nada. O professor está ali para criar emoções: frustração, entusiasmo, espanto. Isso faz parte da aprendizagem".

Inteligência Artificial e ensino da matemática

A chegada da inteligência artificial veio abalar profundamente o ensino. “Neste momento, a inteligência artificial resolve os exames dos meus alunos com 20 valores".

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O paralelo com a introdução da calculadora

Uma mudança rápida e radical, que obriga a repensar métodos e objetivos, mas, tal como aconteceu com a calculadora, será necessário aprender quando faz sentido recorrer à tecnologia: "há momentos em que se usa e momentos em que não se deve usar".

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O perigo de "saltar o sofrimento"

Rogério Martins diz que tem notado uma crescente tendência dos alunos para pedirem soluções completas aos exercícios. Na faculdade, explica, fornece apenas parte das respostas de forma intencional, porque aprender não é apenas saber a solução, é conseguir lá chegar.

"Esse percurso implica tempo, frustração e insistência, 10 ou 20 minutos a tentar resolver um problema fazem parte do processo de aprendizagem".

Mas aqui a questão é que muitos alunos estão a saltar essa etapa ao recorrerem de imediato à inteligência artificial, que lhes dá a solução pronta.

A longo prazo, isto pode ser muito prejudicial, porque impede o desenvolvimento do raciocínio e da autonomia, alerta o professor.

“Aprender implica ficar algum tempo angustiado por não conseguir resolver um problema. A inteligência artificial está a eliminar esse processo".
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Eliminar a dificuldade pode comprometer a aprendizagem profunda.

“Aprender é difícil. E se não for difícil, provavelmente não estamos a aprender tanto".
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