O Orçamento do Estado segue para a discussão na especialidade e a pré-anunciada viabilização por parte do PS retirou carga dramática à discussão e votação na generalidade. O que sobrou foi um aviso de Montenegro quer ao PS quer ao Chega: maiorias só se AD fizer parte, por isso, é melhor esquecerem a ideia de um aumento extraordinário para as pensões mais baixas.
Vale a pena lembrar igualmente que, adiamento atrás de adiamento, a fazer pensar numa teoria da grande coincidência, a Lei da Nacionalidade foi aprovada no mesmo dia que o Orçamento. É também uma coincidência, neste caso, uma infeliz coincidência que esta legislação tivesse sido aprovada pela AD e pelo Chega com Ventura a colocar cartazes na estrada ostracizando os imigrantes do Bangladesh. Numa semana de grandes teorias, ganhou particular destaque o ministro Leitão Amaro ao acusar o Partido Socialista de pretender levar a cabo uma reengenharia demográfica e política. Na cabeça do número dois político do governo aterrou, sabe-se lá vinda de onde, a ideia de que o governo do PS abriu a porta a um milhão de imigrantes, para depois os naturalizar e ganhar eleições com o apoio deles.
Como Ventura está em todo lado, também esteve na SIC para uma entrevista onde repetiu a tese de alguns taxistas segundo a qual este país já só se endireita com três Salazares.
Neste país que se não existisse tinha de ser inventado, a conversa faz-se entre Pedro Marques Lopes e Pedro Siza Vieira, com moderação de Paulo Baldaia e sonoplastia de Gustavo Carvalho.
BLOCO CENTRAL DOS INTERESSES
Pedro Marques Lopes
Estamos a construir demasiados muros e ameias. Proponho ouvir a canção “Utopia”, do José Afonso, para nos lembrarmos que as temos de destruir e não de as erguer.
Pedro Siza Vieira
Três livros apropriados aos tempos em que vivemos. “A Hora dos Predadores", de Giuliano da Empoli, da Gradiva. Da Empoli tem escrito sobre os novos populismos e os seus mecanismos de acesso e retenção do poder. Escreve na perspetiva do contacto próximo com o poder e mostra como os atores políticos tradicionais estão indefesos num jogo cujas regras não compreendem e como os autocratas, uma vez dominando o jogo, subvertem as instituições para não mais o perder. “Algoritmocracia”, de Adolfo Mesquita Nunes, da D. Quixote, que explica como as redes sociais e a economia da atenção de que se alimentam valorizam os conteúdos polarizadores e fecham cada um no círculo que confirma convicções e destrói o consenso democrático. “Como Proteger a Democracia”, por David Dinis, da Ideias de Ler, com propostas para robustecer as instituições sob ataque. E um filme de alerta: “Prestes a Explodir”, de Kathryn Bigelow, na Netflix, que com a tensão típica dos filmes de Bigelow, ilustra a partir de perspectivas diferentes um cenário extremamente realista do início de um conflito nuclear — sem que os decisores percebam sequer porquê e sem que verdadeiramente o queiram.
Pedro Siza Vieira e Pedro Marques Lopes analisam os acontecimentos e os protagonistas da semana, com moderação de Paulo Baldaia. Quinze anos depois da estreia na TSF, os episódios passam a sair à quinta-feira, dia de Conselho de Ministros, no Expresso. A fechar, e como sempre, o bloco central de interesses, com sugestões para as coisas importantes da vida.