Há uma petição na rua para alargar o número de dias de luto previstos na lei para a perda de um filho. Um trauma que é uma espécie de assunto tabu de que ninguém quer falar. É tema para o Ao Vivo na Redação que junta o psicólogo Mauro Paulino, Filipa Silveira e Castro, da Acreditar, e a jornalista do Expresso Marta Gonçalves.

"A maior parte das pessoas foge do tema. É um assunto tabu". Filipa Silveira e Castro encontrou na associação Acreditar o apoio de que precisava para ultrapassar uma dor que nunca acaba. Para além da importante ajuda psicológica, as conversas entre pais que passaram por situações idênticas são uma valiosa forma de entreajuda.

A jornalista Marta Gonçalves, que tem lidado de perto com cenários de famílias destruturadas pela morte de um filho, sublinha a solidão de quem não encontra mais ninguém nas mesmas circunstâncias e a dificuldade em conseguirem falar do tema. Recorda o caso de um pai que não conseguia falar com outros homens, mas apenas com mulheres porque eles "não falam de coisas difíceis".

Mauro Paulino, psicólogo clínico e forense e autor do artigo "o luto de uma vida não cabe em 5 dias", publicado esta semana no Expresso, lembra que a perda de um filho é dos lutos com maior impacto por ser contranatura. "Avassalador" é mesmo a palavra utilizada pelo especialista que confirma que existe a dificuldade em falar da morte, nomeadamente com as crianças.

A conversa teve como ponto de partida a petição da associação Acreditar, que propõe uma mudança na lei de forma a permitir mais do que os atuais cinco dias de luto pela perda de um filho. Vinte dias é a proposta em cima da mesa.

O regime atual "é manifestamente insuficiente" diz Mauro Paulino. "Como é possível que seja o mesmo número de dias que a lei também prevê , por exemplo, para a perda de um sogro?" questiona a jornalista do Expresso Marta Gonçalves, que acrescenta que, além da perda de um filho, há "a destruturação de uma família".

Não se trata apenas de resolver, em poucos dias, questões burocráticas: Mauro Paulino lembra que o período de luto acaba por desencadear uma situação de stress pós-traumático e sintomas depressivos particularmente intensos num período de seis meses e que esse é o período em que se justifica um maior apoio familiar e profissional.

Cada caso é um caso, mas não é menos certo que falta uma aposta na saúde mental que possa permitir a estes pais lidarem com a violência brutal provocada pelas emoções. Para que o tema do luto possa sair do tabu em que se encontra ou para que Filipa Silveira e Castro, que perdeu um filho há 8 anos, não tenha de continuar a ouvir a mesma resposta sempre que refere o acontecimento: "por favor, não me fale nisso".

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