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Estrela na série "Rabo de Peixe": à descoberta de chicharros fritos com molho vilão, receita típica dos Açores

Com a estreia da segunda temporada de “Rabo de Peixe”, parte-se à descoberta da origem desta receita, umas das mais emblemáticas dos Açores. Na ilha de São Miguel, onde se localiza a vila piscatória que dá nome à série televisiva, saiba onde comprar e comer Chicharros fritos com molho vilão.

Estrela na série "Rabo de Peixe": à descoberta de chicharros fritos com molho vilão, receita típica dos Açores
PAULO GOULART PHOTOGRAPHY

Na primeira temporada da série “Rabo de Peixe”, que ganhou fama mundial através da Netflix, os chicharros, amanhados e preparados para fritar (em cocaína) ajudaram a contextualizar os costumes e ambiente da vila piscatória da costa norte da ilha de São Miguel, nos Açores. Tiveram, inclusivamente, destaque no trailer promocional.

Com a estreia da segunda temporada de “Rabo de Peixe”, esta sexta-feira, 17 de outubro, parte-se à descoberta da origem e dos locais onde são servidos Chicharros fritos com molho vilão, uma das mais emblemáticas receitas dos Açores.

Chicharros fritos com molho vilão: a origem

Chicharros, peixe abundante nas águas dos Açores

Os Chicharros fritos com molho vilão são um dos pratos mais típicos na cozinha açoriana e, em boa medida, a sua disseminação deveu-se à abundância da matéria-prima, a espécie Trachurus picturatus, conhecida como chicharro, na costa deste arquipélago. Por ser, também, “de fácil captura e de preço acessível às bolsas menos abonadas, generalizou-se, tal como noutros lugares e com outras espécies, como um dos pratos mais emblemáticos dos Açores, particularmente em São Miguel”, escreve António Cavaco no livro “Gastronomia dos Açores – Cozinha Tradicional das Ilhas”.

É presença frequente nas ementas de restaurantes de cozinha tradicional, tascas e tabernas de valor confirmado pelo tempo. Quem lhe conhece os segredos, transmite-os à geração seguinte e assim se mantém viva a receita, especialmente em zonas com atividade pesqueira. “Todas as vilas dos Açores têm um porto e havia barcos pequenos para apanha do chicharro, os Boca Aberta. Estes peixes alimentavam todo o arquipélago. Eram comida de pobre, por serem fáceis de apanhar, junto à costa, e abundantes. Era a nossa 'batata frita' em criança”, recorda o chef Cláudio Pontes, que abraçou o projeto Forte Terrace.

Cláudio Pontes lembra-se, ainda, quando a mãe escalava os 'chicharrinhos', recheando-os com pão duro, chouriço, pimenta da terra, cebola e alho, e os assava na sertã de barro. “Há grandes restaurantes que iniciaram quase só com este mono produto, que é simples e tem raízes muito fortes”, assinala. Já Paulo Freitas, formador na Escola de Formação Turística dos Açores e responsável pelo restaurante Anfiteatro, sublinha que os chicharros fritos com molho vilão são um prato “familiar, de conforto e uma marca dos Açores”.

Molho versátil de inspiração espanhola

Chicharros fritos com molho vilão no restaurante O Silva

Depois de arranjados e temperados com sal, os chicharros são passados em farinha de milho e fritos, ficando a reservar. Para fazer o molho vilão, parte-se de um refogado com alho, pimenta da terra e vinagre, sendo frequente a colocação de vinho branco, colorau e salsa. “Cada zona tem o seu toque. Em Água de Pau fazem com vinho de cheiro. Há quem coloque limão galego à época e na Ribeira Grande põem açafroa, que também é característica”, ilustra o chef Paulo Freitas. O molho pode encimar os chicharros, com tiras de pimenta da terra, ou servir à parte. Podem servir com batata cozida, bolo da sertã (sobretudo em São Miguel), inhame, batata doce, cebola curtida ou salada.

Na ótica de António Cavaco, o molho vilão será uma “adaptação do molho à espanhola”, mas nos Açores confecionado a quente: “A tramitação das especiarias e a presença de flamengos e espanhóis acabou por aculturar a gastronomia açoriana. O molho vilão servia não só para o chicharro, ou seja, o carapau pequeno, mas para tudo o que fossem apontamentos que se comessem, por exemplo o inhame e a batata cozidos, o congro ou a moreia. Dava para muitas coisas, era transversal à cozinha, se bem que o cerne seja o carapauzinho ou chicharro frito”, comenta. Até a cozinha contemporânea aprecia o seu potencial... No Anfiteatro, Paulo Freitas serve uma cavala corada com açorda alentejana de broa e um “gel de vilão”, obtido usando técnicas da cozinha molecular.

Onde comer Chicharros fritos com molho vilão:

Escabeche de chicharro no restaurante Botequim Açoriano

Na vila piscatória de Rabo de Peixe, o conhecido Botequim Açoriano (Tel. 296708401) apresenta uma versão própria, o “Escabeche de chicharro”, que “combina uma técnica tradicional de conservação, um peixe profundamente enraizado na tradição gastronómica açoriana e o saber fazer da nossa cozinha”, explica o restaurante fundado em 2016 por Donária Pacheco.

Ainda no município de Ribeira Grande, na localidade de Ribeira Quente, o Restaurante Costaneira (Tel. 296584123) é opção a considerar. Sónia Pimentel garante que podia comer chicharros “todos os dias, sem fastio”. A proprietária e cozinheira deste restaurante valoriza a “frescura do peixe e a qualidade do óleo para a fritura ser boa”. À beira-mar, em terra de pescadores, esta casa abre em contínuo das 12h00 às 21h00 e serve chicharros com molho vilão todos os dias (fecha à terça-feira). “Não posso estar sem esse prato, porque as pessoas vêm de propósito comer isso”, justifica. A receita inclui vinho branco e para acompanhar há batata cozida e salada.

No vizinho Restaurante O Silva (Tel. 917725881) o segredo da receita começa na fritura em banha de porco. As especificidades continuam na confeção do molho vilão, aqui utilizando vinho de cheiro e açafroa, além dos habituais azeite, alho laminado, pimenta da terra em calda e das gotas de vinagre. “Quem não colocar açafroa pode pôr pimentão doce”, sugere a cozinheira, Margarida Silva. Acompanha com batata cozida, inhame das Furnas, cebola curtida, pimenta da terra 'salgada' e salada.

Chicharrinhos fritos no restaurante Mané Cigano

Paragem obrigatória em Ponta Delgada, o popular restaurante Mané Cigano (Tel. 296285765) é um dos mais conhecidos locais para comer chicharros fritos. Esta casa de comida tradicional tem mais de 60 anos. No início, o peixe vinha do porto em frente... Começaram por servir iscas de figado, moreia frita e sardinha grelhada na brasa. Os chicharros vieram “por acréscimo”, mas afirmaram-se como “ prato mais forte”, refere Hélder Teixeira Sardinha, filho do fundador, Manuel Sardinha ou '"ané Cigano". Estes chicharros fritos guarnecem com batata cozida, cebola curtida, pimenta da terra, feijão assado e limão galego, na época. Nem sempre há molho vilão, mas quando se confeciona serve à parte.

Nos arredores de Ponta Delgada, mais precisamente, em Relva, a Saca-Rolhas Taberna (Tel. 296716747) é um dos restaurantes obrigatórios da ilha. Uma das particularidades da receita de Chicharros fritos com molho vilão é o facto de os peixes fritarem em óleo e banha de porco. Na época, utilizam limão galego para acrescentar sabor e acidez. A guarnição pode ser arroz de tomate, em vez da batata cozida. “O chicharro é um peixe muito característico e o mais barato que temos no mercado. Este prato é um emblema da região. O molho é intenso, envolve-se no peixe e fica muito bom”, comenta o proprietário e chef, Fernando Soares.

Há mais de 40 anos que a família de Milton Moniz vende peixe no Mercado da Graça, em Ponta Delgada. Tempo suficiente para Milton afirmar que o chicharro “é a espécie mais procurada e vendida” na ilha. “Os chicharros fritos são um prato muito típico e este peixe existe com muita abundância nos Açores, além de o preço ser convidativo”, refere o vendedor.

O chicharro “ocorre principalmente à volta das ilhas e associado a montes submarinos oceânicos de baixa profundidade”, lê-se no website da empresa Fat Tuna, sediada em Rabo de Peixe e que exporta pescado açoriano para o continente e estrangeiro. O sócio-fundador, Afonso van Uden, informa que este peixe varia entre as 10/15 g.e 2 kg. Pode ser consumido “cru em sashimi, frito com molho vilão e, aumentando o tamanho, em filetes, na grelha e assado no forno”. “E já não é só a população com menos posses que o consome. Colocamo-lo em restaurantes muito bons a nível nacional e internacional, inclusive com estrela Michelin”, revela.

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