Tiago Cacais é o rosto, até agora desconhecido, da vítima mais grave dos tumultos que incendiaram a Grande Lisboa após a morte de Odair Moniz no Bairro do Zambujal, em Alfragide.
Fazia a mesma carreira há mais de um ano sem incidentes. Não conhecia Odair Moniz. Não conhecia os agentes da PSP que estão acusados da morte de Odair. E também não conhecia nenhum dos elementos do grupo que o cercou e quase lhe tirou a vida.
"Quero explicar-nos como é que tudo aconteceu. (...) Cheguei à Cidade Nova, era por volta da 01h25. Não sei precisar. Cheguei à última paragem. Abro as três portas, os passageiros saem todos e conforme os passageiros saem eu ouço um barulho muito grande vindo do lado direito", conta.
Naquela noite, o fim da carreira poderia ter sido o fim da linha para Tiago.
"Olho para o lado direito e vejo um grupo de negros a virem ter comigo em direção ao autocarro (...) com cocktails molotov, um em cada mão. (...) Tento fechar as portas, a porta da frente fecha, a última de trás fecha, mas no meio há um indivíduo que entra e que eu não me dou conta."
O sistema de seurança do autocarro impede o arranque da viatura se qualquer uma das portas estiver aberta. É uma proteção extra em caso de distração do motorista, mas, naquela noite, foi o contrário.
"Olho pelo espelho e está uma pessoa a apontar-me uma pistola à cabeça", revela.
Manteve-se sentado ao volante e alimentou a esperança de que, com calma, diálogo e compreensão, seria poupado à violência.
"Começam a mandar as garrafas para cima de mim, para o lugar do condutor. (...) Sinto o cheiro a gasolina e pergunto porque não me deixam sair."
"Em direção à rua, vejo um indivíduo a dar faísca num isqueiro, da parte de fora do autocarro, e entretanto, conforme faz faísca, o fogo vem todo em direção a mim e eu começo a arder", conta.
Tiago Cacais conta que tentou apagar o fogo com as próprias mãos.
"Entretanto, eles fogem e eu tento fugir (...) e lembro-me que tenho o telemóvel e as minhas chaves do carro lá. Volto atrás, a arder, pego no telemóvel, pego nas chaves do carro, meto no bolso e saio pela porta da frente. Comecei a correr rua abaixo, que são as imagens que se vê mais nitidamente eu a arder e a apagar o fogo da cabeça."
Tiago foi levado de imediato para o Hospital Santa Maria, onde foi internado na Unidade de Queimados. Tinha queimaduras de segundo e terceiro grau nos pulmões, na cara, nas mãos, pés e nos tornozelos. Só acordou do coma induzido uma semana depois.
Um mês depois do crime, a PJ desencadeou uma mega operação. Vários jovens foram detidos para identificação. Dois homens, com 21 e 23 anos, já com cadastro criminal por crimes violentos, foram apontados como autores do ataque.
Foram detidos, mas estiveram apenas dois meses na cadeia.
O Casos de Polícia pediu explicações à Procuradoria-Geral da República, mas a resposta foi lacónica: "O inquérito encontra-se em investigação e está sujeito a segredo de justiça".
Fontes contactadas pelo Casos de Polícia confirmam que é uma investigação difícil, pela dificuldade em produzir prova, mas o processo já tem 12 arguidos constituídos, número que bate certo com as memórias de Tiago Cacais.
Estão todos em liberdade e sem uma acusação oficial do Ministério Público.
Tiago Cacais continua de baixa médica. Sabe que terá de voltar ao trabalho, em breve, mas negoceia uma mudança de funções.