Cinco dias, Cinco Causas

Coração Amarelo: a associação que não quer deixar nenhum idoso sozinho

Odacir Júnior

Odacir Júnior

Repórter de Imagem

Jorge Costa

Jorge Costa

Editor de Imagem

"Eu estou aqui há 15 dias sem falar com ninguém. Isto é a mesma coisa que estar presa."

Irene Rustangy chegou ao Coração Amarelo por acaso. Ficou interessada depois de ler um texto sobre a associação que procurava gente disponível para dar algum do seu tempo para fazer companhia a idosos, muitos deles, em situação de isolamento.

"Eu vi muita coisa nestes anos todos em que fui voluntária. O isolamento, as pessoas sozinhas... Aquilo fazia-me uma dor de alma", lembra Irene, em conversa com a SIC.

Aos 87 anos, Irene já não é voluntária da associação. Passou a ser utente. Conhece a voluntária que a visita uma vez por semana há 11 anos. "Somos amigas, temos uma ligação forte uma com a outra e sentimo-nos bem", explica Irene Croner, voluntária.

Foi o Coração Amarelo que as juntou. A instituição tem sete delegações em Lisboa, Porto, Cascais, Oeiras, Sintra, Cacém e na aldeia de Bouceiros. O principal objetivo é combater o isolamento.

"Às vezes, quando telefonamos, as pessoas dizem "Eu estou aqui há 15 dias sem falar com ninguém". Isto é a mesma coisa que estar preso. E nem sei se os presos têm uma vida tão triste porque ainda vêm ao recreio visitar os colegas e ainda fazem amigos lá dentro, ao passo que a pessoa numa casa está fechada e se for dependente não pode mesmo vir à rua", explicou à SIC a presidente do Coração Amarelo, Rosa Araújo, que, com sete amigas, fundou a instituição no ano 2000.

"Eu tive um caso de uma senhora que eu ajudei muito, minha amiga do coração, que tinha uma filha que não lhe falava há 20 anos. Filha única. Pais que criaram os seus filhos e chegando à idade maior deixam de ter filhos, passam a ser órfãos de filhos", lamenta Rosa Araújo.

Em 1961 havia 27 idosos por cada 100 jovens. Hoje, por cada 100 pessoas com menos de 15 anos há 157 com mais de 65. Números que ajudam a perceber por que motivo os 700 voluntários do Coração Amarelo continuam a ser insuficientes. "Eu vejo tanta gente parada horas nos cafés. Horas perdidas a olhar para o infinito. É tempo perdido. O tempo tem de ser usado para bem dos outros", conclui Rosa Araújo.

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