Entregues à sorte

Entregues à sorte (Episódio II)

Rosalina não guarda uma única fotografia do casal que os levou para Filadélfia em 1986

Entregues à sorte (Episódio II)
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Adolescência marcada por abusos

Rosalina não guarda uma única fotografia do casal que os levou para Filadélfia em 1986. Mary Taylor, antiga freira e professora, e Richard Taylor, eletricista, só deixaram mágoa nas memórias da açoriana. Diz que se não podiam gerar as suas crianças, nunca deveriam ter desejado fazê-lo com os filhos dos outros.

Rosalina, prestes a fazer os 13 anos e o irmão, com sete, iam começar a escolaridade numa língua e num país que lhes eram desconhecidos. Uma das primeira coisas que os pais fizeram, mal legalizaram a adoção das crianças nos Estados Unidos, foi alterar os nomes dos filhos adotivos. Rosalina desaparecia para dar lugar a Rose e Carlos transformava-se em Carl.

Em plena adolescência, consciente das suas raízes e cultura, Rosalina não recebeu bem essa e outras mudanças. Uma delas passou pela imposição de abandonar definitivamente a língua materna. Lembra que em meses, ela e o irmão aprenderam Inglês à força.

Tinham como castigo a proibição de brincar se não estudassem e resolvessem os exercícios diários que Mary lhes apresentava. Recorda ainda o episódio em que foi obrigada a comer os cereais da manhã misturados com os pedaços de gordura do bife que Rosalina não quis comer no jantar de véspera.

À rigidez de Mary juntou-se o alcoolismo de Richard e os abusos sexuais a que Rosalina diz ter sido sujeita por parte do pai adotivo.

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Salva aos 16 anos

Rosalina não chegou a fazer os 14 anos na companhia do casal. Antes desse aniversário foi institucionalizada pelos pais adotivos num centro para adolescentes com problemas mentais. Daí saiu para uma família de acolhimento, passou por uma segunda e, por fim, encontrou abrigo numa residência de raparigas. Tinha 16 anos quando foi resgatada por uma prima direta de Richard Taylor.

Dorothy Brown, com quem nos encontrámos no estado de New Jersey, conheceu a portuguesa em festas de família.

Como todos os que privavam com os Taylor estava convencida que os irmãos adotados viviam num colégio da Costa Rica, como lhes transmitia o casal, desde que os irmãos deixaram de comparecer aos encontros.

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Rosalina: dada ou vendida?

Mary e Richard já morreram e Rosalina não lamenta o seu desaparecimento. Encontrou na casa de Dorothy, do marido e dos quatro filhos, a estabilidade, a compreensão e o carinho que lhe permitiram acabar o liceu, começar a trabalhar e formar a sua própria família. Menos sorte teve o irmão Carlos que, como ela, cresceu de família de acolhimento em família de acolhimento, sem que ninguém o tenha resgatado.

Rosalina acredita que Carlos, com quem sempre se relacionou, não enterrou os traumas provocados pela separação da família biológica e teme que as dependências o tenham dominado irremediavelmente.

Rosalina, casada com o judeu Stephen Crass, é mãe de 3 jovens. Em breve será avó. Chegou aos 47 anos sem saber como foi descoberta pelo casal Taylor.

Como encontraram eles o caminho do arquipélago açoriano de onde saíram tantas crianças para os EUA, durante várias décadas? Nenhum cumpriu qualquer comissão de serviço na base áerea das Lajes, na Terceira, onde os militares americanos se contavam aos milhares, nos anos 80.

Descobriu já adulta, através de familiares mque a saída da ilha, em 1986, foi autorizada pelo pai biológico que, a troco de dinheiro, terá entregado os dois filhos à responsabilidade do casal norte-americano. Manuel Costa, com quem falámos ao telefone mas que recusou gravar uma entrevista filmada, nega que algum vez tenha transacionado os filhos e, hoje, passados 33 anos, arrepende-se de ter deixado ir as suas crianças. “Arrependo-me sim senhora, sempre me arrependi”.

Manuel Costa, agora com 81 anos, lembra que em 1980, quando entregou os filhos no Lar de Sta. Maria Goretti, tinha a intenção de os voltar a buscas. “Eu é que pedi para irem para lá uns dias, um mês ou dois para me aliviar, que eu já não podia mais. Eram cinco que eu tinha em casa”.