Os arquivos têm ajudado a descobrir uma realidade que era desvalorizada como mito ou resumida a um ou outro caso. Ao longo dos últimos anos, algumas dessas crianças têm regressado aos Açores, já adultas, para conhecer as suas origens.
Seis anos depois, Entregues à Sorte, a Grande Reportagem, volta com Um Regresso.
O dobro das crianças
Quem era já adulto nos anos 80/90 e prestava alguma atenção às notícias recorda-se do boato das mães que davam as suas crianças aos “americanos" da base das Lajes, na Ilha Terceira. Por vezes, circulava o verbo vender ou trocar um filho por um bem necessário.
Em 1999, a SIC chegou a entrevistar uma dessas mães, Ana Paula Maneta, que deu cinco filhos e que morreu, entretanto.
À jornalista Dulce Salzedas disse na altura: "Nunca vendi os meus filhos, nunca matei os meus filhos, que os deitasse em baldes do lixo, simplesmente lutei para dar lhes dar o pão. Tenho muita fé que um dia, mais tarde, me venham procurar e me perdoem por aquilo que eu fiz".
Por ser caso singular, porque as autoridades locais faziam vista grossa à miséria que grassava nas imediações da base militar e porque a Justiça nunca escavou fundo esse território, o assunto caiu no esquecimento e transformou-se num mito ilhéu, o das crianças vendidas, dadas ou trocadas.
Foram a curiosidade de Paulo Ormonde e o trabalho de investigação de Tânia Mendes que concretizaram em nomes e números essa narrativa oral. Há 25 anos que, por lazer, o polícia da Praia da Vitória, junta as pontas soltas leia-se, corresponde aos pedidos de ajuda que têm surgido na internet de quem, nos Estados Unidos da América, procura os parentes, pais ou irmãos, que tenham ficado na ilha.
Mais recentemente, a investigadora em Ciências Sociais, Tânia Mendes, estudou os arquivos da Câmara Municipal da Praia da Vitória e do extinto Governo Civil do Distrito Autónomo de Angra do Heroísmo. Aí encontrou maços de papéis, organizados por ano, com a identificação e a fotografia de cada criança a quem foi concedida autorização para viajar sozinha na companhia de casais norte-americanos instalados na base militar.
Autorizações que eram lavradas em folhas de 25 linhas, reconhecidas pela Conservatória, na presença de duas testemunhas e assinadas pelos pais biológicos (quando sabiam escrever). Às vezes eram assinadas apenas por um deles. Era frequente a figura do pai incógnito na identificação da paternidade das crianças.
Muitas crianças chegaram a ser vistas pelos Serviços de Assistência Médica aos Emigrantes, para atestar que satisfazia as condições necessárias para embarcar. A saída era opaca e nem depois da figura da adoção ser legalmente prevista no Código Civil português, o que só veio a acontecer em 1967, passou a ser mais transparente.
“Como é que eles levavam? Valha-me Deus! Era a coisa mais fácil desse mundo. Isso era com eles, as nossas autoridades não davam por nada”, ria à gargalhada o advogado Álvaro Monjardino, responsável por mais de 40 adoções legais entre o final dos anos 60 e anos 70 do século passado e com quem a Grande Reportagem gravou em 2019.
“Não é uma história exemplar, não. Eram geralmente bebés. Alguns já estavam contratados quando a mãe ainda não os tinha tido”.
Em 2018, a propósito da tese de mestrado em que estava empenhada, Tânia Mendes chegou ao número de 97 crianças levadas entre 1946 e 1974. A baliza temporal define os 28 anos entre a permanência militar dos EUA, na ilha Terceira, depois da Segunda Guerra Mundial, e o fim da ditadura.
A tese ficou concluída, mas a arqueologia patrimonial onde Tânia Mendes continua a escavar revelou que, nesse período, saíram 182 crianças. Quase o dobro do número a que tinha chegado inicialmente.
Marco Paulo Mendes foi uma dessas crianças. Nascido em 1971, deixaria a ilha ainda bebé, sem memória da mãe biológica, Maria de Lurdes da Ponte, nascida na ilha de São Miguel, em 1947, e também sem lembrança da irmã, seis anos mais velha. Mas o que ele não lembrava, ela nunca tinha esquecido.
Ana e Marco
Há 47 anos que Ana da Ponte procurava o irmão mais novo. Marco Paulo Moreira Mendes, nascido em 1971, na Conceição, ilha Terceira, tinha 9 meses de vida quando a mãe biológica o deu a um casal norte-americano da base das Lajes. A irmã, então com seis anos, nunca esqueceu o bebé a quem ajudava a dar as papas e a mudar as fraldas.
Ana, nascida em 1966, recorda o dia em que um casal foi buscá-lo à barraca, sem saneamento básico, feita de chapa e alcatrão, no bairro de lata que tinha começado a crescer na Serra de Santiago.
A localidade, paredes meias com a base dos “americanos”, para onde começaram a confluir açorianos de todas as ilhas do arquipélago à procura de trabalho, como Maria de Lurdes também terá feito.
Hospitalizada com tuberculose, no Hospital do Santo Espírito, em Angra do Heroísmo, Maria de Lurdes não assistiu à entrega do filho Marco Paulo. Mas a irmã, pequena demais para decorar os nomes estrangeiros dos americanos, relata que se agarrou em pranto às pernas da futura mãe adotiva do irmão, implorando que não os separassem e que a levassem também.
Acabaria por ficar órfã da mãe aos sete anos porque de pai sempre foi. Sabia apenas que era americano, de nome Frank e que nunca cumpriu o que prometeu a Maria de Lurdes, regressar à ilha para se casarem.
Os parentes próximos evitaram o calvário da institucionalização e, aos 9 anos, Ana da Ponte era levada por um tio para os Estados Unidos da América, onde acabou por adotá-la. A ida para o estado do Connecticut fez renascer a esperança de encontrar o irmão. Foram precisos mais de 40 anos para consegui-lo.
Já adulta, Ana da Ponte ganhou do marido americano o apelido Dube. Por duas vezes voou para a ilha Terceira, a fim de descobrir o passado da família. Da segunda incursão, em 2010, confessa que ainda tentou subornar a funcionária do Registo Civil com um punhado de dólares para revelar a identidade dos pais adotivos do irmão, mas por se tratar de uma adoção plena, os dados da certidão de nascimento não estavam abertos a consulta pública.
Ana tinha muito pouco a que se agarrar: uma fotografia de Marco com uns dois anos, enviada à mãe biológica pelos pais adotivos, o nome português com que foi registado, o ano de nascimento e o da adoção além da identidade da mãe. Foi tudo o que colocou no apelo que em 2018 fez na página do Facebook Adopted from Terceira/ Azores.
Em dois dias, Paulo Ormonde, o polícia terceirense, voltava a ter sucesso com a reunião dos filhos de Maria de Lurdes.
Micky Baker, militar da Força Aérea norte-americana, e a mulher Jean já tinham três filhos quando, em 1972, resolveram que um rapaz deixaria o agregado de duas meninas e um menino mais equilibrado. Nos EUA, o nome de Marco foi alterado para Marcus e ganhou o apelido Baker.
Ainda hoje os Baker recordam os pés descalços e as calças rotas das crianças, as casas de chão de terra e sem saneamento. Carências banais nos idos de 70 junto da população mais pobre da ilha Terceira, mas que o casal norte-americano associava ao terceiro mundo.
Nessa década há muito que o circuito entre pais adotantes e pais biológicos estava cimentado por intermediários que, a trabalhar na base ou com ligações à mesma, eram a cola que unia os dois lados. Foi através de um tradutor que Micky e Jean conheceram a situação de Maria de Lurdes.
Em 1972 já o Código Civil tinha sofrido alterações para permitir a figura legal da adoção que assumia duas formas; a adoção restrita, em que os pais adotivos se comprometiam a manter o contacto com a família biológica, e a adoção plena que, como o nome indica, representava um corte com a família de origem.
Micky e Jean optaram pela segunda, o que dificultou ainda mais a busca que a irmã encetou durante toda a vida.
Em 2019, quando a Grande Reportagem Entregues à Sorte foi ao encontro das crianças dadas aos norte-americanos, Ana e Marcus comprometeram-se a regressar à terra de origem.
Este verão, seis anos depois desse encontro, ambos aterraram com as respetivas famílias no Aeroporto das Lajes, na Terceira. Vieram à descoberta do que ficou para trás, de resposta às dúvidas com que viveram e dos usos e costumes da sua terra. Um Regresso é o último capítulo da Grande Reportagem Entregues à Sorte.


