Futuro Hoje

Ok Google, a inteligência artificial fala português, em Portugal

Lourenço Medeiros

Lourenço Medeiros

Editor de Novas Tecnologias

Está oficialmente lançado o primeiro assistente virtual em português de Portugal.

Está oficialmente lançado o primeiro assistente virtual em português de Portugal. Abrimos a boca, falamos português e o telefone responde, dá respostas concretas, ou efectua pequenas tarefas, pode contar piadas a pedido, e se não percebe o que eu digo pede desculpa. Nunca deixa de me espantar.

A maior diferença é poder dizer ao telefone que ligue para alguém, ou que envie uma mensagem sem ter que recorrer ao inglês. É a função que mais uso fora de casa, e frequentemente no carro, confesso, mas em mãos livres. Parece pouco, mas não é! Nas últimas poucas semanas fui um dos que teve autorização da Google para testar o Assistente Virtual em português de Portugal. É o concorrente do Siri da Apple e do Alexa da Amazon, há mais uns mas estes são, para já, os que contam de facto. São os que eu uso para fazer experiências, sempre em inglês. Lá em casa já estamos habituados a acender e apagar luzes com comandos muito britânicos, só foi estranho no início, admito que com visitas nos coibimos destas rotinas, a não ser durante a demonstração da praxe. O assistente funciona em cerca de 25 línguas, incluindo o vietnamita, duas versões de chinês e o português do Brasil, mas nunca entendeu bem os meus esforços para fazer uma pronúncia de novela.

Há anos que já podemos fazer buscas usando voz em português, quer em telemóveis quer em computadores, usando o motor de busca da Google. O assistente abre um mundo completamente diferente. Podemos pedir tarefas ao assistente, que nos abra uma aplicação no telemóvel, ou diretamente a navegação para um determinado local, podemos pedir para efectuar uma chamada como se fosse uma diligente secretária. Com as ligações acendemos luzes, uma a uma ou por sectores, e o meu favorito, entrar na sala e pedir para recomeçar a ver a série da noite anterior, o assistente liga o Netflix e a televisão no ponto certo, sem que eu mexa um dedo. Também é possível dar ordens ao aspirador Roomba para ir cumprir a sua tarefa numa determinada divisão da casa, ou para se carregar quando estamos fartos de o ouvir, mas confesso que recorro muita vezes à força bruta para o levar diretamente ao sítio certo.

Dados todos esses exemplos, o assistente virtual não parece assim tão importante, é só um comando para gadgets, mas é muito mais porque é verdadeiramente o potencial início da banalização de uma nova forma da nossa comunicação com máquinas, e sobretudo com plataformas dotadas da tão falada inteligência artificial. Ter ou não ter essa capacidade em português é ter ou não ter a nossa língua na vanguarda da tecnologia. A Google demonstrou bem onde quer ir com os assistentes virtuais, em 2018 mostrou em palco chamadas telefónicas em que protótipos dos seus futuros programas faziam marcações de cabeleireiro e restaurante em nome de pessoas. O assistente fazia a chamada, colocava hipóteses de horários, fazia as pausas e hesitações certas, esperava as respostas e tomava decisões, parecia até ter emoções em função do decorrer da conversa. O suficiente para enganar qualquer empregado de restaurante ou cabeleireiro desprevenido.

Estamos a caminho de ter verdadeiras conversas com as nossas máquinas, a Google tem feito progressos impressionantes a compactar capacidades de inteligência artificial para funcionarem em telemóveis, mesmo quando não têm rede e, por regra, vamos ter cada vez mais e melhor rede, ou seja, mais e melhor acesso às grandes máquinas com bases de dados e grande capacidade de processamento. Trabalha-se para que as máquinas entendam a nossa voz, talvez melhor do que nós próprios ao perceber cada inflexão, para que leiam os nosso gestos, e que eventualmente possam perceber as nossas emoções. As versões mais recentes dos mordomos virtuais já obedecem a alguns gestos. Queremos máquinas assim em casa? Parece que cada vez mais as aceitamos. Em nome do conforto com que podemos fazer compras ou ouvir música a partir do sofá da sala, apenas com a voz, vamos aceitando que os assistentes virtuais recolham muitos dos nossos dados. Há quem viva bem com isso, há quem entre em pânico com a ideia. O certo é que precisamos de saber mais sobre o que é feito com esse dados, mas isso é uma conversa que temos que ter entre humanos e não com os assistentes virtuais.

Como pode experimentar o assistente

A Google está a fazer o chamado rollover, uma implementação que pode levar horas ou dias. Em princípio todos os telefones Android que tenham o sistema a funcionar em português deverão ter por estes dias o assistente instalado. É fácil de ver. Na barra da busca em vez de um microfone aparece um ícone com vários pequenos círculos, azul, amarelo, vermelho. Carregar no botão central, virtual ou real, o que dá acesso directo ao ecrã principal mais demoradamente, deve fazer aparecer o assistente a perguntar como pode ajudar. Se tiver um iPhone também pode usar mas tem que ir à loja de aplicações e instalar o assistente da Google.

Não funciona ainda

Boa parte do mais divertido. Para já só funciona em dispositivos móveis, as colunas vendidas pela própria Google e até os ecrãs com o assistente instalado, na sua versão Home, não se vendem na loja oficial por cá e não funcionam em português. Estes aparelhos, que se podem espalhar pela casa, permitem dar ordens para o ar sem nos preocuparmos com a localização do telefone e sermos ouvidos. Servem também para ouvir música a pedido em várias divisões da casa. Mesmo o exemplo que dei da TV, que é real, implica alguma batota. De facto tenho que dar a ordem para o telemóvel que por sua vez dá a ordem a um Chromecast que está ligado a uma TV, cromices se quiserem. Não tenho grandes dúvidas de que, ao fazer chegar o assistente ao português, a Google vai querer aproveitar o nosso mercado, há outros fabricantes que já vendem aparelhos compatíveis e que agora terão novos argumentos. Mas atenção, antes de comprar, se não quiser fazer as figuras que eu faço, certifique-se de que já funciona em português. Quase de certeza haverá alguma confusão no início.