Futuro Hoje

Mais vale tarde que nunca? Um carregador para todos

Opinião

Numa Europa que levou 8 anos a decidir a cor dos passaportes, mais de 12 para propor esta solução não parece muito.

A medida agora proposta parece claramente apontada à Apple.

A Comissão Europeia anunciou com grande pompa que após um prazo de dois anos para a indústria se adaptar, todos os telefones, tablets, câmaras, auscultadores, colunas e consolas portáteis devem ter carregamento por USB-C. Defendem a ideia para poupar as toneladas de carregadores que vêm com os telemóveis e que não usamos. Aliás, quem quiser vender estes aparelhos com carregador terá que oferecer ao mercado também uma versão sem o acessório.

Eu tinha até ideia que tal proposta já tinha sido feita, pelos vistos desde 2009 foi “proposto à indústria" que tratasse do assunto, o que resultou até agora numa significativa diminuição da variedade de carregadores... Sim, é verdade. Há muito menos tipos de carregadores, e até há cada vez mais telefones vendidos sem o tal acessório agora maldito.

As empresas que vendem sem carregador fazem-no porque estão a estimular mais vendas de acessórios e poupam imenso dinheiro nos custos iniciais dos aparelhos. A verdade, é que a medida agora proposta parece claramente apontada à Apple, que já vende aparelhos sem carregador, mas que continua a teimosamente usar a sua própria ligação (Lightning) em boa parte dos aparelhos.

Os iPad Pro, por exemplo, já têm USB-C. A Apple ganha fortunas com cabos e cabinhos e agora também com a venda de carregadores com e sem fios. São talvez o único fabricante que pode perder algumas vendas de adaptadores.

No momento em que todos os grandes fabricantes têm ligações USB-C (excepto alguns telefones Apple), e todos estão a apostar cada vez mais no carregamento sem fios, vem esta medida. Ter-se-ia poluído muito menos se o tivessem feito mais cedo.

A Europa iniciou o processo, mas deixou poluir alegremente e quando as empresas diminuem a produção de carregadores e os vendem à parte lança a obrigatoriedade do que já é quase um facto consumado. Ao mesmo tempo, assobia para o ar com o carregamento sem fios, não sei se já fizeram as contas mas é bastante óbvio que o carregamento sem fios é muito menos eficiente.

Um, dois ou cem telefones não farão diferença nenhuma mas, e quando for 80% dos telefones já faz diferença? Quando passarmos essa meta a Comissão talvez se lembre de propor o fim dos carregamentos sem fios, com um prazo de dois anos para a indústria se adaptar.

Eu sei que não é fácil decidir estas coisas, mas quando a verdade está à vista é difícil compreender a lentidão. Entretanto, por muito boas que sejam as motivações do executivo europeu, neste momento, mais parece um favor à indústria com dificuldade em explicar as decisões que foi tomando.

É tarde, os motivos são confusos, mas se daí vier bem ao mundo, mais vale tarde que nunca.