Investigação SIC

Investigação SIC: a nacionalidade portuguesa de Roman Abramovich

Investigação SIC: a nacionalidade portuguesa de Roman Abramovich

Rabino e Sociedade Judaica de Genealogia de Hamburgo desconhecem ligação do oligarca à comunidade sefardita.

Roman Abramovich obteve a cidadania europeia através de Portugal, pela lei da nacionalidade para descendentes sefarditas. O Ministério do Interior da Lituânia confirmou à SIC que o oligarca não é cidadão lituano.

A Investigação da SIC esteve na Alemanha. Visitou os arquivos e o Cemitério Judeu de Altona, da cidade de Hamburgo. Quer o Rabino como o responsável da Sociedade Judaica de Genealogia de Hamburgo desconhecem a ligação de Roman Abramovich à comunidade sefardita

A certificação de Abramovich pela Comunidade Israelita do Porto foi aprovada através de testemunhos de dois rabinos russos, um espanhol e um israelita. Todos indicavam que a ascendência do oligarca passa pela comunidade sefardita de Hamburgo. 

A Investigação da SIC teve acesso aos documentos do processo de Roman Abramovich como judeu sefardita.  A certificação, as cartas, os relatórios, as declarações, artigos e até o passaporte israelita do oligarca surgiram no final de março, numa fuga de informação publicada num site

Uma das cartas é do rabino russo, Alexander Boroda, ao rabino do Porto, Daniel Litvak, que confirmou à SIC a assinatura e os motivos que o levaram a afirmar que Abramovich é descendente sefardita, com ligações a Portugal e membro da Comunidade Sefardita. Por conhecer fica a documentação que o Rabino Boroda garante ter, em particular se são originais ou se apresentam o selo de Hamburgo. 

Na carta enviada, o Rabino Alexander Boroda assina como responsável de várias instituições. Presidente da Federação das Comunidades Judaicas da Rússia, fundador e diretor do “Museu Judaico e Centro de Tolerância” e fundador do Centro Comunitário Judaico Zhukovka. Instituições lideradas por Roman Abramovich.  

Na Federação das Comunidades Judaicas o multimilionário é Presidente do Conselho de Curadores. No Museu Judaico, Abramovich faz parte da administração. Já no ultraluxuoso Centro Comunitário de Zhukovka, o maior da Rússia, que custou mais de 18 milhões de euros, dois dos andares foram encomendados pela Federação das Comunidades Judaicas da Rússia. Uma Federação que reúne várias associações criadas pelo movimento Chabad-Lubavitch. Um movimento ortodoxo, que surgiu na Europa Oriental no século XVIII, e que de acordo com esta carta do rabino Daniel Litvak, também confirmou a ascendência sefardita de Abramovich. 

Desta vez pelo rabino chefe do movimento na Rússia, Berel Lazard, amigo de longa data de Abramovich e conselheiro de Vladimir Putin. Litvak esteve reunido com Lazard em Maio de 2018. 

A Investigação da SIC também esteve no Cemitério de Altona com o Rabino Shlomo Bistritzky, rabino de Hamburgo há 10 anos. Das nove mil lápides, cerca de duas mil pertencem à Nação Portuguesa de Hamburgo. Todas foram identificadas, cartografas, documentadas e traduzidas. Com mais de quatro séculos de história, o cemitério de Altona é dos mais investigados do mundo, mas aqui também ninguém ouviu falar de Abramovich. 

No site da “Mazal News”, a 8 de Setembro de 2021, surge a notícia de que “descendentes de judeus falecidos há séculos em Altona reabilitarão o cemitério local.” O site tem como proprietários a Comunidade Israelita do Porto e a Comunidade Judaica do Porto. Mas o rabino de Hamburgo nunca ouviu falar sobre o financiamento de Abramovich ao cemitério de Altona

Já a historiadora e genealogista Florbela Frade, a especialista que estudou a Nação Portuguesa de Hamburgo durante seis anos, em projetos de pós-doutoramento, é clara ao afirmar que a documentação para fazer uma árvore genealógica está disponível. 

Outra das justificações passa pela ligação sefardita de Hamburgo à cidade de Poznan, na Polónia. A garantia é do Rabino Israelita Yonah Leib Lebal, do movimento hassídico de Breslov, um movimento que faz parte da Chabad mas que não tem ligações com as comunidades sefarditas.  

Opinião diferente tem o matemático Alexander Beider, especialista em etimologia e distribuição geográfica de sobrenomes judaicos, com vários dicionários publicados. Beider explica que na Polónia só há registos sefarditas em Zamosc. Uma cidade a cerca de 600 quilómetros de Poznan. 

Nos documentos há também um relatório do “Centro Educacional Sefardita” assinado pelo Rabino espanhol Benedito Garzón. A SIC entrou em contacto com Garzón, mas não obteve resposta. Já Neil Sheff, presidente deste centro, advogado e proprietário de um escritório de imigração, confirmou o documento. 

Até ao momento a Comunidade Israelita de Lisboa não quis falar do assunto, mas com a nova regulamentação da lei concedeu a entrevista. O caso de Roman Abramovich levantou dúvidas sobre a obtenção dos certificados que desde 2015 levou à emissão de cerca de 57 mil nacionalidades portuguesas. A investigação ainda decorre no Ministério Público

O tema tem provocado várias reações. Ribeiro e Castro, um dos proponentes da lei, considera que há ajustes necessários como proibir a publicidade à nacionalidade portuguesa. 

A nova regulamentação entra agora em vigor, mas há duas normas que suscitam dúvidas na Comunidade Israelita de Lisboa e que estão a ser analisadas pelos consultores em direito administrativo e constitucional. A herança de propriedades e as viagens e visitas a Portugal. 

A alteração acontece numa altura em que decorrem investigações por parte das autoridades portuguesas. A comunidade de Lisboa mantém as certificações e garante que todos os processos estão à disposição do Governo português. Já a Comunidade do Porto anunciou a suspensão. 

A Comunidade Israelita do Porto respondeu por escrito às questões da SIC. Alega que decidiu acabar com a certificação porque não se deveria fazer buscas e indiciar pessoas com base em denúncias anónimas. Confirma que os rabinos Boroda, Lazard, Garzón e Leib testemunharam as origens sefarditas portuguesas de Abramovich. Defende que, em regra, os judeus sefarditas nunca têm documentos genealógicos que comprovem a respetiva ascendência sefardita a Portugal. Lembra ainda que Roman Abramovich tem direito à nacionalidade lituana. 

No entanto, o Ministério do Interior da Lituânia, confirmou à SIC, que Roman Abramovich não tem cidadania Lituana. Abramovich só obteve a cidadania europeia através de Portugal, pela lei da nacionalidade para descendentes sefarditas, certificada pela Comunidade Israelita do Porto. 

A SIC também falou com a porta-voz do multimilionário que, num primeiro e-mail, solicitou as perguntas. Quando confrontada com a ligação a Hamburgo deixou de responder. 

Roman Abramovich o filantropo que terá apoiado várias instituições judaicas em 500 milhões de euros. 

O oligarca é russo, israelita e português. 

Ficha técnica:

Jornalista: Ana Filipa Nunes

Repórteres de Imagem: Nuno Fróis, Rogério Esteves e Diogo Sentieiro

Editor de Imagem: Tiago Martins

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