Investigação SIC

Investigação SIC

O mistério da morte de João Paulino e o suspeito que nunca foi encontrado

Há três anos, João Paulino morreu no interior da mina de Neves Corvo, em Castro Verde, em circunstâncias que ainda hoje são um mistério. Terá sido um simples acidente? Um ajuste de contas ou uma grosseira violação das normas de segurança? Na Investigação SIC desta noite, analisamos todas as hipóteses e descobrimos um suspeito que nunca foi encontrado pelas autoridades.

Loading...

Há quase 40 anos que revolvem as entranhas da planície alentejana. Dia e noite nas profundezas da terra centenas de homens e mulheres ajudam a extrair a riqueza de Neves Corvo.

Com 200 quilómetros de túneis é a maior mina de zinco da Europa, uma das maiores em cobre e a grande empregadora da zona de Castro Verde. Foi para aqui que se dirigiu João Paulino a 30 de setembro de 2022.

Faltavam dez minutos para as 8h00 desse dia quando entrou pela última vez ao trabalho. Era manobrador de máquinas e tinha sido promovido a chefe de equipa na Terra Magna, uma empresa subcontratada da Somincor, a dona da mina.

Todos regressaram, menos João

Terminada a jornada de trabalho, Paulino e a restante equipa de quatro homens tinham que subir à superfície ainda antes das 19h00. A mina tem obrigatoriamente que ficar vazia antes de começarem os rebentamentos lá dentro. Saíram todos, menos o João.

Só três horas depois, às 22h10, um operário do turno seguinte desce à mina à procura da empilhadora que iria operar e que não estava onde era suposto. Lá em baixo, acaba por encontrar a máquina virada ao contrário e ao lado, inanimado, estava João Paulino.

Eram quase 23h00, quando os bombeiros de Castro Verde recebem a chamada de alerta. A primeira nota fala num adulto, do sexo masculino consciente e a respirar. Minutos depois
a ocorrência é classificada como um acidente de viação por atropelamento e já é dito que a vítima estava em paragem cardiorrespiratória.

Para Neves Corvo seguem de urgência duas ambulâncias. Quando chegam à mina, bombeiros e a enfermeira do centro de saúde têm que esperar à superficie, tal como a GNR, que nunca desceu ao local da ocorrência.

Quando chega ao centro de saúde de Castro Verde, já nada havia a fazer. O médico certifica o óbito às 00h13.

As ameaças e as imagens de videovigilância

Há mais de três anos que Estevão Paulino procura respostas para a morte do irmão. Nem duas semanas depois do funeral, Estevão foi ao Ministério Público de Almodôvar contar o que ouvia dizer: 15 dias antes de ter aparecido morto, o irmão tinha sido alvo de ameaças no balneário da mina.

O relatório de autópsia refere que a causa de morte foram as lesões traumáticas do torax e abdómen produzidas por um instrumento contundente. Dizia também que essa ação violenta era compatível com um atropelamento, como constava da informação que chegou à Medicina Legal de Beja.

Mas o relatório revelava ainda outro facto: o exame toxicológico deu positivo para a presença da substância ativa da canábis.

As suspeitas de Estevão levaram o Ministério Público a entregar a investigação à Policia Judiciária de Faro. O inspetor que agarrou no caso não ignorou a pista da morte intencional ainda que a principal hipótese a seguir, como consta na capa do processo, tivesse sido o crime de violação das regras de segurança agravado.

A questão era simples: como é que ninguém deu conta que João Paulino não tinha saído da mina? No movimento diário de empréstimo das pilhas e máscaras fornecidas aos operários surge a assinatura de Paulino à hora de entrada sem estar assinada a saída.

Mas também as imagens de videovigilância revelaram algo ainda mais estranho. Às 8h42 da manhã, minutos antes de descer ao subsolo, João coloca o seu cartão neste painel de presenças.

Até serem retirados, os cartões são um sinal de alerta: mostram quem ainda não voltou à superficie, impedindo que se deem início às explosões.

No final do turno, só o próprio pode levantar o cartão e entregá-lo em mãos no balcão das pilhas. Em letras bem visíveis, em cima do painel está o aviso que interdita a retirada de cartões dos colegas. João Paulino não retirou o seu cartão, mas alguém o fez.

Analisando as imagens de videovigilância, percebe-se que pouco depois das 19h00, três homens aproximam-se do painel. Todos mexem nos cartões, trocam palavras e quando vão embora o painel fica vazio. O cartão do João também desapareceu.

Quem tirou o cartão de João? E porquê?

Os três homens eram todos da equipa de João Paulino. Um deles, Charles Miranda haveria de confessar à GNR que foi ele quem tirou o cartão mas assegura que o entregou ao supervisor António Messias, que lhe tinha pedido para retirar também o documento de identificação enquanto estacionava a carrinha que os trouxe da mina.

Miranda deu uma explicação: alguém lhe disse que Paulino já tinha saído pensou que se tinha esquecido de ir ao painel de presenças e quis evitar que João e a empresa fossem multados. Minutos de atraso nas explosões davam direito a sanções.

Em abril do ano passado, mais de um ano e meio depois da morte de João Paulino, a Polícia Judiciária decide constituir arguidos os dois envolvidos na retirada do cartão. António Messias é ouvido nessa condição e jura que não se apercebeu que Charles lhe tivesse passado outro cartão para além do seu.

Charles Miranda também é notificado para interrogatório mas não aparece. Quando o inspetor da PJ vai à sua procura no Algarve, na última morada conhecida, os vizinhos contam que há muito que o brasileiro já não vivia ali.

O, entretanto extinto, Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) haveria de informar que voou para o Brasil em janeiro de 2024. E assim, nunca foi ouvido no processo.

Seria dificil encontrá-lo? A Investigação SIC precisou de uns 15 dias. Depois de um primeiro contacto combinámos uma entrevista por videochamada.