Veio para Portugal pouco depois do golpe de Estado de julho de 2016 a pretexto de um pós-doutoramento. O plano era que a mulher, grávida de 5 meses, se juntasse depois do nascimento da criança. Mas como milhares de professores turcos, a mulher de "Ali" foi presa, com a filha de 8 meses. "Ali" é um dos milhares de turcos no exílio. Diz que a Turquia já não é uma democracia e acusa o presidente Recep Erdogan de ser responsável por um "genocídio social".
A pretexto do golpe de Estado falhado de 2016, Erdogan deu início a uma purga que levou ao despedimento de 150 mil pessoas. Mais de 200 mil foram detidas. 50 mil continuam presas - militares, jornalistas, escritores, professores e estudantes, advogados e juízes, activistas de direitos humanos. Para arranjar espaço nas cadeias, o regime libertou milhares de presos de delito comum. As organizações humanitárias denunciam mortes, desaparecimentos recorrentes e métodos bárbaros de tortura nas prisões do país.
A Turquia é o país do mundo com mais jornalistas presos. Quase 200. Desde o golpe de Estado, o regime turco mandou fechar mais de duas centenas de jornais, rádios, estações de televisão e websites. Muitos por suspeitas de ligação ao clérigo Fethullah Gülen, exilado nos Estados Unidos, e que o regime de Erdogan diz ser o principal responsável pela tentativa de golpe de 2016.
A vitória no referendo, realizado meses mais tarde, permitiu ao presidente turco alterar a constituição e avançar para um regime presidencial. Esvaziou de poder o parlamento e acabou com o cargo de primeiro-ministro. Pode nomear e despedir juízes.
Recep Erdogan, o sultão, como gosta de ser chamado, assegurou assim a manutenção no poder até 2029.
"Turquia - Uma Democracia à medida" é um trabalho da jornalista Susana André, com imagem de Odacir Júnior e edição de imagem de Tiago Martins.

