Grande Reportagem SIC

"Agarrados às Redes": é possível proteger os jovens dos riscos sem proibir?

A exposição excessiva e sem controlo dos adolescentes às redes sociais está a fazer aumentar a depressão, a ansiedade e a criminalidade. Há influenciadores digitais que arrastam milhões de jovens com discursos que promovem a misoginia e a masculinidade tóxica. As ideologias extremistas e a violência contra as mulheres estão a escalar de forma preocupante.

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A Europa pondera seguir o exemplo da Austrália e proibir o acesso às redes sociais a menores de 16 anos. Mas, num mundo cada vez mais digital, em que as redes sociais são também importantes ferramentas de comunicação e de conhecimento, proibir será a melhor solução? Como podemos proteger os jovens sem os excluir destas plataformas? Os riscos e benefícios das redes sociais são o tema da Grande Reportagem “Agarrados às Redes”.

O número de casos de dependência das redes sociais que chega às mãos da psicoterapeuta Sofia Santos, especializada no tratamento deste vício, não para de aumentar. A SIC acompanhou um dia de terapia de grupo com os adolescentes seguidos na clínica.

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Na casa de Martim Vieira, 15 anos, o vício do ecrã já se vislumbrava, mas, com a pandemia e as aulas online, ganhou uma força que derrubou a estabilidade de toda a família.

“Comecei a jogar mais com os meus colegas, já que a única forma de estarmos juntos era online, e começou a criar-se uma dependência dos jogos e das redes sociais”, conta Martim.

Diz ter consciência de que exagera no tempo que passa ao telemóvel, mas não consegue largá-lo: “Às vezes fico umas dez horas, até à meia-noite. Por vezes, nem dou pela hora. Não sei muito bem porquê, mas prende-me de uma forma que é um bocado difícil de me desconectar.”

A mãe de Martim lamenta esta dependência, que faz com que o filho fique esgotado.

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Um vício que se assemelha ao da toxicodependência

O mecanismo que induz o vício das redes sociais é muito semelhante ao da toxicodependência. A neuropsicóloga Artemisa Rocha Dores explica: “De facto, há uma ativação de dopamina que acaba por estimular as áreas cerebrais de prazer e de recompensa, que são ativadas também por substâncias psicoativas, ou ditas drogas de abuso, mas também por comportamentos online. Depois, é necessário recorrer a quantidades crescentes desses comportamentos para obter as mesmas sensações e, consequentemente, pela prática repetida, transforma-se numa dependência.”

O scroll infinito nas redes sociais compromete a área do cérebro responsável pelo controlo dos impulsos e afeta também funções cognitivas, como a compreensão de textos ou de tarefas complexas.

“A nossa capacidade de atenção começa a ficar comprometida, porque é difícil mantê-la durante períodos de tempo prolongados para estímulos que não sejam altamente ativadores.”

Aqui reside uma diferença significativa entre as redes sociais e a televisão, refere a psicoterapeuta Sofia Santos: “O problema não é só o conteúdo, é a forma como constantemente estou a passar esse conteúdo. Acaba por ser pobre, porque se eu estiver constantemente a passar, não estou a aprender nada.”

Um estudo recente realizado em oito países, revela que 86% dos adolescentes em Portugal admitem estar viciados nas redes sociais, um valor superior à média europeia: 78%. E 40% reconhece que as redes sociais têm um impacto negativo na saúde mental, muito por causa dos conteúdos tóxicos a que assistem.

“Existe um maior isolamento, quando eles se fecham muitas horas no quarto, agarrados às redes sociais. Há muitos problemas relacionados com a depressão e com a ansiedade.” confirma a psicoterapeuta. Mas Sofia Santos salienta que também os adultos, muitas vezes, não conseguem controlar o tempo que passam online: “Os próprios pais são pessoas mais stressadas, porque também têm dificuldade em impor regras a si próprios, e isso acaba por ser passado para o adolescente.”

Leonor dá exemplo do que pode ser um uso positivo

Leonor Rio tem 15 anos e faz questão de ser uma voz cívica ativa. Este ano, representou o círculo eleitoral do Porto no “Parlamento dos Jovens”, um projeto promovido pela Assembleia da República, que envolve escolas de todo o país e que, todos os anos, oferece a uma centena de estudantes a oportunidade de assumirem o cargo de deputados para debaterem propostas. Desta vez, o tema foram as novas tecnologias e os desafios para os jovens.

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Leonor defende que o uso saudável das redes sociais passa por ensinar a utilizar e não por bloquear o acesso.

"A escola deve educar o aluno de maneira a que ele seja uma pessoa informada, para que possa perceber os riscos das redes sociais, e não anular as tecnologias, porque as tecnologias trazem-nos também muita positividade e tornam a nossa vida mais prática e simples a vários níveis."

Dos filmes ao croché, Leonor diz que aprendeu a partir das redes sociais: "É também aí que nasce a minha paixão pela música. Eu pego no telemóvel e consigo ver influenciadores a tocar guitarra, a tocar músicas de que eu gosto e eu acabo por aprender por aí. O lado das redes sociais com que eu contacto cada vez mais, é o positivo: o da criatividade, da curiosidade, do conhecimento. Mas acho que não podemos ignorar, de todo, os perigos a que a internet expõe. Vemos cada vez mais jovens a promover ideias extremistas, ideias erradas."

O papel da escola no alerta para os riscos

Entramos na Escola Secundária Infanta D. Maria, em Coimbra, para acompanhar uma sessão sobre os riscos das redes sociais a alunos do 8.º ano, coordenada pela investigadora e socióloga, Tatiana Moura.

- "Quem é que aqui já assistiu a episódios violentos, a comentários violentos nas redes sociais?" - pergunta a socióloga.

Quase toda a turma levanta o braço.

- "E acham que as redes sociais têm mais influências positivas ou negativas?"

- "Negativas", responde a maior parte dos alunos.

O convite para realizar esta ação de sensibilização partiu da psicóloga e da diretora da escola, quando começaram a detetar sinais de alerta. "Situações relacionadas com bullying, com cyberbullying, com aquilo que os alunos veem nas redes sociais, com aquilo que os outros dizem de mim", explica Elsa Rodrigues, psicóloga nesta escola.

Cristina Ferrão, diretora da escola lembra que os adolescentes “procuram ter um comportamento que esteja de acordo com o grupo onde se querem inserir.” E revela: ”Há, de facto, uma diferença entre a ideia que os pais têm dos seus filhos e aquilo que os seus filhos são na escola. Muitas vezes ficam incrédulos perante algumas das situações que nós reportamos."

"Há pessoas que, por vezes, têm vergonha de si próprias, evitam estar com os outros para que não gozem com elas e fecham-se nas redes sociais."
“A violência está muito presente online e com estes influencers, está a ficar cada vez pior para as mulheres.”
"Já vi rapazes que começaram a tratar muito mal as raparigas porque veem na internet, depois passa para o grupo e toda a gente faz o mesmo."
"Lutámos tanto pelos direitos das mulheres e agora parece que estamos a regressar atrás no tempo."

Estes são alguns dos testemunhos dos estudantes ouvidos nesta reportagem.

Influencers promovem misoginia e masculinidade tóxica

Camila conta que o primeiro amor que viveu, depressa se transformou num pesadelo: "Eu comecei a falar com ele pelo Instagram. Quando começámos a namorar, eu ainda tinha 14 anos e ele tinha 16 anos. De início, era tudo uma maravilha. Depois, houve uma altura em que começou a ter muitas crises de ciúmes e a controlar a minha roupa. Usava argumentos do género: 'Estás sem sutiã, e outros homens podem olhar, e eu não gosto disso, porque tu és minha.' Via quem é que eu seguia nas redes sociais, se os meus seguidores aumentavam, e deitava-me abaixo com nomes, com manipulações. Era maioritariamente abuso verbal e emocional."

O Estudo Nacional sobre Violência no Namoro revela que a violência tem vindo a crescer. O controlo e as agressões psicológicas são os casos mais reportados, e as vítimas são sobretudo raparigas.

Em 2025, 75% dos adolescentes ouvidos neste estudo consideram legítimos os comportamentos como o controlo, a perseguição ou a violência psicológica, sexual, física ou através das redes sociais.

"Hoje em dia, para um rapaz de 12 anos, não há um mapa sobre o que é que significa ser um homem", diz a socióloga Tatiana Moura.

Numeiro e Andrew Tate são homens que, refere Tânia Graça, simbolizam aquilo que é ensinado aos rapazes que são sinais de poder: dinheiro, mulheres, carros, barcos.

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A socióloga Tatiana Moura acrescenta: "Eles objetificam a mulher nos discursos que fazem, dizem que as mulheres merecem apanhar, que merecem ser violadas e, portanto, quando são apanhados por terem cometido esse tipo de crime, não só mantêm os seguidores, como os aumentam."

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Discursos de ódio e extremismo estão a escalar

Muitos pais, em virtude das suas vidas profissionais, têm muito pouco tempo para passar com os filhos e, diz a socióloga, "muitas vezes, por incapacidade de tocar em determinados assuntos, delegam essa educação em ambientes digitais. No caso da adolescência, ainda há muito aquele raciocínio de que se ele estiver no quarto, não está na rua a fumar cigarros ou a fumar outras coisas, que era a preocupação do nosso tempo. E depois desconhecem completamente a pessoa que têm em casa."

Hugo Silva, inspetor-chefe da Polícia Judiciária, que integra a Unidade Nacional Contra o Terrorismo, conta que: " já fomos confrontados com inúmeras situações em que vamos bater à porta de casas de famílias estruturadas, sem, aparentemente, nenhuma relação com extremismos violentos, e os pais são completamente surpreendidos, porque não faziam ideia de que os filhos consumiam esse tipo de propagandas."

O aumento da disseminação de conteúdos de misoginia, ódio e extremismo por jovens de idade cada vez mais precoce levou a que a Unidade Nacional Contra o Terrorismo da Polícia Judiciária criasse uma equipa focada especificamente na monitorização das redes sociais.

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"É o 'nós contra eles', ou seja, somos nós contra uma minoria étnica, nós contra os imigrantes, nós contra as mulheres. Depois, através de um processo de desinformação, de fake news, leva a processos de radicalização. A partir daí, os próprios algoritmos das plataformas fazem o resto, porque os algoritmos não carregam o contraditório, apenas o que a pessoa pesquisou."

Os crimes de discriminação e incitamento ao ódio e à violência em Portugal aumentaram mais de 200% nos últimos cinco anos. O número de violações reportadas subiu para 543 em 2024. Para qualquer destes delitos, são os números mais altos desde que há registo.

"A Europol fez uma grande pressão, através da União Europeia, para as plataformas fornecerem dados de forma a que, quando forem detetados conteúdos extremistas, automaticamente sejam removidos. Mas o problema é que os algoritmos que geram os conteúdos extremistas são os mesmos que são utilizados para publicidade, e a principal preocupação dessas plataformas não é a colaboração com as autoridades. Claro que são obrigados e colaboram, mas o objetivo deles é gerar receitas", explica o inspetor-chefe da PJ.

Em Portugal, os rapazes votam cinco vezes mais na extrema-direita do que as raparigas. Na União Europeia, apenas a Croácia tem uma proporção mais desequilibrada entre rapazes e raparigas.

"Se um jovem começar desde os 11, 12 anos a ouvir este tipo de discurso extremistas, aos 18 anos, quando for votar, vai votar na pessoa que tem o discurso a que ele está habituado”, diz a socióloga.

Tatiana Moura defende que “estamos a falar de fazedores de conteúdo que têm por trás empresas e pessoas que os financiam e que têm muito dinheiro.” A socióloga está convicta de que a existência deste tipo de influencers é “um projeto político."

Europa pondera proibir uso das redes sociais a menores de 16 anos

Treze anos é a idade mínima que a maioria das redes sociais exige para criar uma conta, conforme determinam as regras de proteção de dados na maioria dos países. Mas este é um requisito fácil de contornar: basta mentir na data de nascimento.

Este ano, a Austrália tornou-se o primeiro país do mundo a proibir o acesso às redes sociais a menores de 16 anos. Aprovou uma lei com pesadas multas às plataformas que permitirem o acesso indevido. A União Europeia está a considerar seguir este exemplo.

Leonor Rio não concorda que este seja o caminho a seguir: "A diferença entre o smartphone e as drogas e todos os tipos de vícios é que, com o smartphone, apesar dos perigos, eu consigo que tenha um impacto positivo. Agora, tudo o que tem a ver com drogas e bebidas alcoólicas não tem qualquer tipo de impacto positivo na vida de um jovem!", argumenta a estudante.

Catarina Pisco é professora de matemática na Escola Secundária Francisco Rodrigues Lobo, em Leiria. Defende que "se a escola se quer aproximar dos alunos, tem que estar presente onde eles já estão. É importante valorizar as experiências digitais dos alunos, trazer para a aula aquilo que são as mais-valias das redes sociais e depois ajudá-los a gerir essa informação."

Por isso, sempre que considera oportuno, a professora apresenta, nas aulas do 12.º ano, vídeos do influencer em matemática, Gabriel Guimarães, conhecido como Mathpunk. "Aquela forma clara e divertida como ele aborda os temas tem um potencial imenso, não só pedagógico, como motivacional", diz a professora.

'Mathpunk' destaca-se como um influencer positivo

Gabriel Guimarães confessa ser tão apaixonado por matemática que sente “o dever de mostrar às pessoas que a matemática pode ser divertida, pode ser fascinante".

A motivação para publicar vídeos sobre matemática nas redes sociais foi aumentando à medida que o criador de conteúdos digitais ia recebendo retorno positivo.

“Alunos a dizerem que não gostavam de matemática, mas 'a minha professora começou a passar os teus vídeos e no último teste eu tive 98%', ou 'eu quero seguir matemática na universidade porque tu me inspiras'."

A Sexóloga e Psicóloga clínica Tânia Graça realça que o Mathpunk, como outros exemplos, são a prova de que há muito de positivo que pode e está a ser feito através das redes sociais. "Temos conteúdos que são informativos, movimentos importantíssimos, o #MeToo ou o #BlackLivesMatter, que ajudam a que haja mudanças positivas, e também a que pessoas que se sentem sozinhas se apoiem mutuamente."

Maria João Faria é booktoker ou criadora de conteúdos literários. Diz que as redes sociais foram para si “um porto seguro”.

"Foi mesmo muito importante para me sentir normal, 'entre aspas', já que eu era um bocado diferente dos meus amigos todos, porque ninguém lia, ninguém achava que ler era fixe, e então foi aqui, nas redes sociais, que eu encontrei a minha comunidade, as pessoas que gostam do mesmo que eu. E depois comecei também a publicar vídeos", declara.

Apesar dos fracos hábitos de leitura em Portugal, o mercado do livro tem vindo a crescer, sobretudo entre os jovens dos 15 aos 24 anos, e tal deve-se em grande parte aos chamados booktokers.

"Acaba por ser diferente eu receber uma recomendação de alguém que eu sigo na internet, que eu gosto de ver e que tem mais ou menos a minha idade, do que receber uma recomendação da minha professora de Português, por exemplo", diz a booktoker.

"Em vez de proibir, acho que é absolutamente fundamental ensinar a utilizar. É necessário educar pais, educadores em geral, professores", defende a neuropsicóloga Artemisa Rocha Dores.

Como fazer um uso saudável

Pôr um temporizador nas aplicações e deixar o telemóvel na sala antes de dormir são hábitos adotados por Leonor Rio. E, segundo a mãe, Andreia Costa, fazem tão parte da dinâmica familiar. Por isso, a filha nunca lhe perguntou 'por que é que me proíbes de levar o telemóvel para o quarto à noite'. Isto "porque sempre foi assim".

Criar limites é fundamental para um uso saudável das redes sociais, realça também a psicoterapeuta Sofia Santos: necessário constituir regras e mostrar ao adolescente, através do diálogo, que há coisas muito interessantes que podem ser feitas sem ter de estar agarrado às redes sociais.” E por isso, propõe “um dia por semana sem redes sociais, para a família toda, porque a família tem que dar o exemplo.”

Estar integrado em equipas desportivas, incentivar a que os adolescentes sintam que são bons em algo que não passe só pelo online, é outra importante ajuda para vencer o vício, refere a neuropsicóloga Artemisa Rocha Dores.

Tânia Neto, mão de Martim, realça a importância do acompanhamento psicológico para lidar com esta dependência: "Tem-nos ajudado a nós, enquanto pais, a saber lidar com a situação, mas também tem ajudado muito o Martim.”

Martim está a reencontrar na prática da vela, a calma e descontração que tinha perdido.

"Para nós [diz a mãe] foi um alívio ver o Martim querer praticar uma atividade fora de casa e estar ao ar livre, focado noutras coisas sem ser só no telemóvel.”


FICHA TÉCNICA

  • Jornalista: Catarina Marques (catarinamarques@sic.impresa.pt)
  • Imagem: João Venda
  • Edição de Imagem: Rui Félix
  • Grafismo: Rui Aranha,Tomé Alves,Marta Coelho
  • Drone: 4kfly
  • Produção Editorial: Diana Matias
  • Colorista: Gonçalo Carvoeiras
  • Pós-produção áudio: Octaviano Rodrigues
  • Coordenação: Miriam Alves
  • Direção: Marta Brito dos Reis, Bernardo Ferrão