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"Não confiava em mim, nem para ir fazer as unhas": um retrato das relações abusivas entre adolescentes

A história de Marnie, nome fictício, é um exemplo perturbador do que muitas adolescentes enfrentam em silêncio. Os casos de abusos psicológicos e controlo coercivo dos namorados aumentam todos os anos. As organizações de apoio à vítima alertam que é urgente educar, prevenir e criar espaços seguros para que jovens, como Marnie, possam reconhecer os sinais e pedir ajuda. O silêncio nunca é a resposta.

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Marnie tinha 16 anos quando começou a sua primeira relação séria. O amigo que se transformou em namorado mostrou um lado até então desconhecido e o entusiasmo inicial rapidamente deu lugar ao isolamento, à vigilância constante do telemóvel e à perda da liberdade.

"Quando saía com os amigos, recebia telefonemas e mensagens constantes. Não me deixava em paz para desfrutar do tempo com os meus amigos. Ele aparecia nos locais onde eu estava com as minhas amigas, porque não confiava em mim, nem para ir fazer as unhas."

O controlo tornou-se sufocante: proibição de ver amigos, acusações infundadas, gritos e uma vigilância obsessiva.

"Ele apagava mensagens da minha mãe e escondia o telemóvel. Eu nem sabia que ela me tinha tentado contactar."

Só dez anos depois, Marnie procurou ajuda para lidar com ataques de pânico frequentes. Foi diagnosticada com perturbação de stress pós-traumático, resultado do impacto dos repetidos abusos psicológicos.

"Eu não acreditei no facto do que tinha estado numa relação abusiva, porque nunca me tinham dito que era o que estava a acontecer. Não fazia ideia."

Dados da organização britânica Refuge, entre abril de 2024 e março de 2025, revelam um preocupante aumento de casos de violência em relações de adolescentes. Seis em cada 10 jovens mulheres e raparigas, que se disseram vítimas de abusos psicológicos, admitiram ter sofrido de controlo coercivo. Trinta e cinco por cento recebeu ameaças de morte e 62% sofreu violência física, sendo que metade disse que foi estrangulada ou sufocada.

Kate Lexen, diretora da organização Tender, alerta para outro fenómeno preocupante: crianças entre os 9 e os 11 anos já discutem temas como estrangulamento e exibem comportamentos misóginos, influenciados por conteúdos online. Há mais de 20 anos que a Tender organiza sessões educativas sobre relações saudáveis em escolas e colégios.

"Sem educação preventiva eficaz desde cedo, os impactos serão astronómicos."

Elaha Walizadeh, da Refuge, confirma o aumento de denúncias e refere que o abuso começa frequentemente com sinais subtis.

"O controlo coercivo, impedir que vejam amigos ou familiares, é o início de um padrão que se agrava."

Há sinais que denunciam este tipo de abusos nas relações, a atenção de família e amigos são fundamentais para os detetar:

  • Isolamento social
  • Vigilância constante do telemóvel
  • Ameaças verbais
  • Proibição de atividades individuais
  • Manipulação emocional