Repórteres do Mundo

Um sistema de asilo "sem controlo", a coleção inédita de um professor e um bar para adultos que já conquistou Londres

No Reino Unido, há centenas de pessoas a desaparecer do sistema para não serem deportadas e o Governo britânico está a ser acusado de nada fazer para os encontrar. Na Alemanha, um professor universitário investiu numa coleção única. Em Londres, há um bar onde os adultos se sentem como crianças. Estes são alguns dos destaques do Repórteres do Mundo.

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"Não há controlo, eles desaparecem", a realidade do sistema de asilo britânico

Todos os dias, no Reino Unido, desaparecem requerentes de asilo que se transformam em residentes e trabalhadores ilegais. Apesar da postura mais dura do governo britânico, os números e os testemunhos revelam que o sistema é disfuncional e incapaz de responder às preocupações dos britânicos.

No final de mais um turno num hotel do sistema de asilo britânico, um funcionário descreve uma realidade preocupante.

"Não há controlo. Eles desaparecem. É semanal. A maior parte das vezes, pode ser diariamente."

Quando um pedido de asilo é rejeitado, o que acontece? Segundo este trabalhador, muitas pessoas simplesmente abandonam os hotéis e deixam de estar sob qualquer supervisão.

"A partir daí não há qualquer esforço para identificar para onde a pessoa foi, depois de ter saído do hotel, para a encontrar e mandar deportar."

Na Grande Manchester, Shabana, voluntária numa cozinha comunitária, confirma o impacto. Diz que todas as semanas há requerentes de asilo a desaparecer do sistema. O problema não é só administrativo e está a fazer com que muitos britânicos percam a confiança nas autoridades.

"Toda esta falha está a criar tensões em muitas comunidades do Reino Unido."

Face às críticas, o Governo britânico garante que está a agir. Um porta-voz afirma que os hotéis para requerentes de asilo vão ser encerrados, o número de pessoas deportadas vai aumentar.

"Quase 50 mil pessoas sem direito a permanecer foram deportadas e as detenções por trabalho ilegal atingiram níveis históricos."

O Ministério do Interior criou uma equipa dedicada para trabalhar com a polícia, outras entidades governamentais e empresas privadas na localização de pessoas que abandonaram os hotéis.

“Quando não o vi durante vários dias, soube que algo estava errado”

Charlie Hicks, de 78 anos, frequentava o Shrimp Basket duas vezes por dia há uma década. Quando deixou de aparecer, a preocupação transformou-se em ação e numa história de solidariedade que comoveu Pensacola, nos Estados Unidos.

Durante dez anos, Charlie Hicks foi presença diária no Shrimp Basket, em Pensacola, na Florida. Ao almoço e ao jantar, o pedido era sempre o mesmo: uma taça de gumbo, com pequenas variações. Danell Stallworth é o chef do restaurante.

"Podia acertar o relógio por ele. O Sr. Hicks não falhava um dia. Abríamos as portas e ele estava lá para nos cumprimentar."

Mas, em setembro passado, algo mudou. Charlie deixou de aparecer.

"Quando não o vi durante vários dias, soube que algo estava errado."

A preocupação fez com que Danell Stallworth abandonasse o turno e a meio. Dirigiu-se ao apartamento do cliente e, depois de bater insistentemente à porta, ouviu um pedido fraco de ajuda.

"Quando abri a porta, ele estava no chão. Não sabia qual era a sua condição, e isso foi a parte mais assustadora."

Charlie tinha duas costelas partidas e estava gravemente desidratado. Não se sabe ao certo quanto tempo esteve caído, mas a intervenção do chef salvou-lhe a vida.

A história não terminou no hospital. A equipa do Shrimp Basket decidiu garantir que Charlie nunca mais ficaria sozinho. Levaram-lhe gumbo enquanto recuperava e, depois, encontraram-lhe um novo apartamento, mesmo ao lado do restaurante, para poderem manter um olhar atento.

"Comprámos eletrodomésticos novos, arranjámos tudo para que ficasse perfeito."

Três meses após o acidente, Charlie regressou ao seu lugar habitual e ao prato que tanto gosta.

"Nada mudou, exceto o nosso laço. Temos uma ligação."

Para os funcionários do Shrimp Basket , Charlie é agora "tio, avô e melhor amigo, tudo em um".

Inéditos de Bach: Dois manuscritos foram descobertos Bélgica

Duas composições para órgão, datadas de 1705, foram autenticadas depois de 30 anos de investigação. A descoberta que aumenta o repertório de Bach foi celebrada em concerto no Conservatório Real de Bruxelas.

A Biblioteca Real da Bélgica revelou uma descoberta histórica: dois manuscritos inéditos de Johann Sebastian Bach, um dos maiores compositores do século XVIII. As peças, datadas de 1705, estavam guardadas entre os cerca de 25 mil manuscritos da instituição, permanecendo anónimas durante décadas. Marie Cornaz é curadora da biblioteca e diz que é uma emoção ter nas mãos documentos tão raros.

"Você pode ver a tinta a fluir, até mesmo a perfurar o papel. É algo que vive e nos conta uma história."

Os manuscritos foram identificados graças à digitalização da coleção Fétis, que permitiu a um investigador alemão rever imagens que já tinha consultado, quando solicitou reproduções em microfilme. Esse momento marcou o início de uma investigação que se prolongou por três décadas, culminando na autenticação das obras. A confirmação da autoria representa um marco para a música clássica.

"São manuscritos completamente únicos, portanto insubstituíveis."

A descoberta foi celebrada com um concerto organizado pelo Conservatório Real de Bruxelas, onde estas obras inéditas ganharam vida perante o público.

A coleção invulgar de um professor de Economia

Thomas Roeb, economista e docente universitário, investiu centenas de milhares de euros numa coleção única que inclui tanques, armas antiaéreas e veículos históricos desmilitarizados.

Num parque industrial no distrito de Düren, na Alemanha, encontra-se uma das coleções mais invulgares da região: tanques, peças de artilharia e veículos militares que contam histórias de guerra, tecnologia e memória histórica. O responsável por este acervo é Thomas Roeb, professor de Economia na Universidade de Ciências Aplicadas em Sankt Augustin, que transformou a sua paixão de infância num projeto de preservação histórica.

"Já me interessava pelo tema militar em criança. Havia um capacete antigo na quinta dos meus avós que me fascinava, e levei-o para casa. Construía pequenos modelos de tanques. Na altura, isso não era nada de extraordinário."

Com o passar dos anos, os modelos em miniatura deram lugar a peças de grande porte. Há cerca de 15 anos, Roeb começou a adquirir tanques, armas antiaéreas e outros equipamentos militares, todos desmilitarizados de acordo com as normas legais, ou seja, sem capacidade de combate.

"Foram várias centenas de milhares de euros. Um objeto histórico torna-se histórico quando praticamente já não existe, quando é preciso escavá-lo. Há coisas que hoje não parecem valiosas porque ainda existem em quantidade, mas merecem ser preservadas para quando deixarem de existir."

A coleção inclui peças da Segunda Guerra Mundial e também veículos das décadas de 1960 e 1970, provenientes das Forças Armadas alemãs. Um dos exemplares mais raros é um camião militar com uma parede dobrável.

"Até onde sei, só existem três desta variante, e este é um deles. Isso não significa que haja pessoas a disputar a compra, mas a raridade torna-o especial."

Nos próximos anos, o professor universitário alemão vai concentrar-se em projéteis, apesar de já possuir mais de uma centena de exemplares. Isso significa que alguns tanques poderão em breve mudar de mãos, de preferência para outros colecionadores que partilhem a mesma preocupação com a preservação histórica.

O bar que está a conquistar Londres

Entre cocktails coloridos e mergulhos em bolas de plástico, há um bar em Shoreditch, em Londres, que promete uma experiência única para adultos.

Chama-se Ballie Ballerson e visto de fora parece um bar discreto. Lá dentro, é tudo menos convencional. O espaço é gigante e há uma piscina com milhões de bolas de plástico onde os clientes se divertem como crianças.

"Quando ouvi que a festa ia ser numa piscina de bolas, pensei: isto vai ser épico."

O conceito nasceu há dez anos, graças à irmã do cofundador George Armstrong.

"Ela teve a ideia e nós decidimos arriscar. Hoje, é um sucesso."

Sucesso é mesmo a palavra certa: o espaço tornou-se um dos locais mais procurados para noites fora do comum. A experiência é, no mínimo, caótica. Entre gargalhadas, há alguns percalços.

"Tenho de ter cuidado para não levar com uma bola na cabeça. Com frequência há telemóveis perdidos entre as bolas, mas quase sempre reaparecem."

Os clientes confirmam que a mistura de nostalgia e festa é irresistível.

"É como voltar à infância, mas com cocktails. É uma forma diferente de descontrair depois do trabalho".

Além da piscina, o bar oferece noites temáticas, karaoke e festas com DJs ao fim de semana. Os cocktails seguem a mesma linha extravagante: coloridos, decorados com doces e preparados por bartenders que animam ainda mais o ambiente.

"É a noite mais bizarra que já vivi, mas não quero sair daqui tão cedo."

Repórteres do Mundo mostra as diferentes perspetivas e a diversidade cultural em reportagens das mais de 40 televisões parceiras da SIC. Sábado, às 15h30, na SIC Notícias.