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“Se a polícia me pedir a identificação, só tenho o passe e o boletim de vacinas”

Mariana Teófilo da Cruz

Mariana Teófilo da Cruz

Jornalista Estagiária

Apesar de ter nascido em Portugal, Diogo Varela não tinha nacionalidade portuguesa. Ao longo de três anos acompanhámos o desespero deste jovem até ao dia em que conseguiu obter a sua documentação e aí a sua vida mudou.

“Quando eu tinha oito meses, os meus pais separam-se. O meu pai foi preso e a minha mãe não tinha possibilidades para ficar comigo, por isso vim viver com a minha mãe de coração.

Como ela não era a minha mãe biológica, não tinha papeis para tratar [da nacionalidade]. Só tinha a cédula de nascimento portuguesa. Nem sei como frequentei a escola. Devem ter arranjado uma maneira e foi-se sempre arrastando essa situação. Quando passei para o
quinto ano, queriam mais documentos e eu não tinha. Depois, passei a não ir muito às aulas. Reprovei uma, duas, três vezes no quinto ano. Recuperaram-me para um curso [PIEF], que foi a melhor coisa que me aconteceu.

Só quanto tinha 17 anos é que obtive a autorização de residência [de estrangeiro]. Quando já estava noutro curso profissional que me dava equivalência ao nono ano, desisti. Desisti e comecei a fazer assaltos, ‘tipo’ telemóveis e carros. Não era sequer por necessidade, mas sim pela adrenalina. Veio um processo, veio outro, veio outro e parei.

Quando já tinha parado, recebi notificações para ir a tribunal, mas não ia e isso foi o pior. Fui para a Suíça trabalhar e deixei as notificações por responder. Quatro meses depois fui preso. Como não respondi, não apresentei defesa, julgaram-me à revelia. Estive preso 4 anos por causa disso.


Perdemos a nossa juventude, somos privados da liberdade. Por um telemóvel podes apanhar 6 - 7 anos. E quando estás lá dentro, só dizes: ‘olha o tempo a passar’. Passa um, dois anos, três anos, quatro anos. Sem trabalho, sem família, sem mulher, sem namorada, sem filhos, enquanto estás lá preso. E quando sais não sabes fazer nada. Porque quando tinhas de aprender, foste preso.

Agora que saí, sinto-me um homem e um cidadão. Porque hoje sou um cidadão exemplar. Mas, como tenho cadastro, não me dão autorização de residência, nem nacionalidade. Só tenho o passe e o boletim de vacinas. Quando não era cidadão exemplar, tinha documentos; agora que sou, não tenho?"