Visíveis

“Se a polícia me pedir a identificação, só tenho o passe e o boletim de vacinas”

Apesar de ter nascido em Portugal, Diogo Varela não tinha nacionalidade portuguesa. Ao longo de três anos acompanhámos o desespero deste jovem até ao dia em que conseguiu obter a sua documentação e aí a sua vida mudou.

“Quando eu tinha oito meses, os meus pais separam-se. O meu pai foi preso e a minha mãe não tinha possibilidades para ficar comigo, por isso vim viver com a minha mãe de coração.

Como ela não era a minha mãe biológica, não tinha papeis para tratar [da nacionalidade]. Só tinha a cédula de nascimento portuguesa. Nem sei como frequentei a escola. Devem ter arranjado uma maneira e foi-se sempre arrastando essa situação. Quando passei para o
quinto ano, queriam mais documentos e eu não tinha. Depois, passei a não ir muito às aulas. Reprovei uma, duas, três vezes no quinto ano. Recuperaram-me para um curso [PIEF], que foi a melhor coisa que me aconteceu.

Só quanto tinha 17 anos é que obtive a autorização de residência [de estrangeiro]. Quando já estava noutro curso profissional que me dava equivalência ao nono ano, desisti. Desisti e comecei a fazer assaltos, ‘tipo’ telemóveis e carros. Não era sequer por necessidade, mas sim pela adrenalina. Veio um processo, veio outro, veio outro e parei.

Quando já tinha parado, recebi notificações para ir a tribunal, mas não ia e isso foi o pior. Fui para a Suíça trabalhar e deixei as notificações por responder. Quatro meses depois fui preso. Como não respondi, não apresentei defesa, julgaram-me à revelia. Estive preso 4 anos por causa disso.


Perdemos a nossa juventude, somos privados da liberdade. Por um telemóvel podes apanhar 6 - 7 anos. E quando estás lá dentro, só dizes: ‘olha o tempo a passar’. Passa um, dois anos, três anos, quatro anos. Sem trabalho, sem família, sem mulher, sem namorada, sem filhos, enquanto estás lá preso. E quando sais não sabes fazer nada. Porque quando tinhas de aprender, foste preso.

Agora que saí, sinto-me um homem e um cidadão. Porque hoje sou um cidadão exemplar. Mas, como tenho cadastro, não me dão autorização de residência, nem nacionalidade. Só tenho o passe e o boletim de vacinas. Quando não era cidadão exemplar, tinha documentos; agora que sou, não tenho?"